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Carta à gaveta

sexta-feira, 7 de março de 2025

 Metrópole, meio do verão.


Hoje senti vontade de te escrever. Te contar todas as coisas que andaram acontecendo por aqui, cada nova aventura incrível repleta de personagens únicos que estavam na fila do caixa do mercado na véspera do feriado prolongado. Queria comentar o final daquela série sueca que achei quase escondida no catálogo do streaming, ficar horas tecendo teorias sobre se o carro estava realmente indo para o norte ou para o sul ou tanto faz desde que ele seguisse se movendo.


Movendo... Eu ainda moro na casinha, aquela casinha que era pra ser nossa mas... O que aconteceu? De repente eu não sentia mais a necessidade de te contar que os tomates da nossa hortinha cresceram fortes e graúdos, que os temperos seguem perfumando cada refeição e que o girassol, infelizmente, secou. Ouso dizer que parte do motivo dele secar foram as formigas ou as lagartas... De qualquer forma as borboletas vieram visitar as flores coloridas do jardim do lado da varanda que você gostava de buscar tintas da mesma cor das pétalas.


Falando nas suas pinturas, ainda tem feito elas? Aquele seu quadro segue na sala, comprei uma moldura de alumínio porque os cupins comeram aquela de madeira, fiquei triste, busquei outra parecida... Mas nunca achei. Ah e aquela loja de tintas que a gente ia no shopping aqui perto fechou, o dono disse que o aluguel estava alto demais pro movimento e ia reabrir a loja na garagem de casa, ofereci meus préstimos de publicitária para ele, por um tempo ele foi meu cliente, mas coisa de uns seis meses atrás ele disse que ia fechar a loja e se aposentar, todo o material restante ele vendeu muito barato. Cogitei comprar um kit de pintura, mas... Não sei se quero passar por toda a curva de aprendizado para aprender a pintar em tela. De qualquer forma comprei alguns pincéis, se eu mudar de ideia um dia já vou ter como começar.


Como você pode imaginar sigo trabalhando na mesma área, alguns clientes saem, outros entram, às vezes me aperto na grana, às vezes tô mais folgada... É cansativo, estressante, mas eu adoro trabalhar com o que eu trabalho. Sinto um prazer inenarrável ao ver uma arte, um texto ou qualquer outra coisa que eu criei indo além dos meus domínios, indo além do que eu posso controlar, é uma delícia.


Sigo fazendo terapia, às vezes é o ponto alto da minha semana, às vezes é a paulada na cabeça que termina de me matar (metaforicamente falando) e... Fiz as pazes com meus pais, com o passado, tudo que aconteceu, aconteceu por uma razão e na época que tinha que acontecer, nada foi fora de lugar ou antecipado. De vez em quando vou visitar o lugar onde batemos, mantenho uma capelinha ali, com um caderno dentro de um saquinho impermeável onde escrevo uns poemas para eles... Quando for lá de novo tiro uma foto e...


O que aconteceu com a gente? Tudo isso que eu quis te contar, super empolgada, tenho mais milhares de coisas para te contar e você está ao alcance de um nome na agenda, é só eu clicar e mandar um áudio, uma mensagem, uma ligação... Mas não consigo mais. Não sei o que aconteceu entre a gente, se foi o oceano de distância, se foi o tempo ou só a vida que é assim mesmo... Aproxima alguns, afasta outros... A verdade é que essa distância toda, essa barreira invisível que construímos, esse silêncio todo é só o aspecto mais visível de um adeus não dito.


Talvez seja isso, talvez toda aquela enxurrada de mensagens que eu queria te enviar, toda aquela enxurrada de coisas que eu queria te contar... Não são importantes. Quando acontecer algo grande eu te conto, ou não... 


Esquece. A quem estou querendo enganar. Essa carta esta sendo escrito e vai ser postada na minha gaveta infinita de textos que nunca vão ser enviados, nunca vão ser publicados e nunca vão siquer lidos. Mas, deixo como um último verso um desejo, ainda que fino, de que esteja bem e se cuidando.


J.

Schorodinger

domingo, 12 de abril de 2020

De repente eu estava vendo Helena limpando a cozinha e nada mais fazia sentido, olhei minhas mãos, meus dedos mexiam mas eles não pareciam meus, corri os olhos pelo braço até ver que eles estavam conectados ao meu corpo. Mas então...? Poderia ser sonho. Afinal a comida não teve gosto de nada. O som da rua parecia muito mais distante do que realmente era. Vou acordar. Me belisquei fechando os olhos, afinal se estiver dormindo vou ter que abrir os olhos.

Abri os olhos e tudo continuava igual. Devo estar em uma crise de despersonalização de novo. Foda-se. Tanto faz, ultimamente todo que eu queria era estar morta. Claro que não posso deixar transparecer isso pra Hell, mas... eu estou completamente esgotada. Sem a menor força pra continuar tudo isso aqui. 

Não. Não posso pensar nisso. Me levantei da mesa dizendo que iria tomar banho e ouvi um "de novo?", um fio de cabelo molhado tocou minha nuca. Então vou dar uma volta de carro. Não. Lembrei do pesadelo da noite passada. Era a mesma cena do acidente, só que quem dirigia era eu e no banco do passageiro estava Helena. No banco de trás uma voz de criança me chamou pelo nome. Na hora que virava o espelho para ver quem era eu via a mim mesma e, no movimento de tentar me virar inteira para ver quem era sentia meu pescoço estralar com tanta força que acho que foi ali que morri dentro do sonho.

Curioso pensar como uma merda de um sonho tinha estragado meu dia a tal ponto. O corpo tremia tão sutilmente que nem mesmo quem pegue minha mão sentiria. Eu estava me afogando em mim mesma, de novo. Raposa, jogue uma boia. Raposa? Não conseguia senti-la. Não... não... não me deixe aqui sozinha, não agora. Não... me tira daqui... anda... Não.

Abri os olhos. Estava no chão. Helena do meu lado, olhar preocupado. A raposa respirava aliviada. A cabeça latejando o corpo inteiro mandando espasmos como se falassem "dedos do pé, câmbio", "canela, câmbio". Tentei levantar e Hell me segurou.

- Calma, devagar... - Aos poucos ela me ajudou a sentar - Ta tudo bem? Você me assustou.

- O que... aconteceu?

- Eu tava dormindo - Só agora notei que ela estava com uma camiseta grande - Ouvi um barulho, não te vi na cama e vim ver o que estava acontecendo...

- E o que - A cabeça girou inteira, quase caí de volta, respirei fundo - Aconteceu?

- Não sou CSI... mas apostaria que tem relação com aquela garrafa vazia e lembranças ruins... mas vem cá.

Nada fazia sentido. Talvez fosse o que ela falava. Talvez ainda estivesse dormindo e daqui a pouco acordaria. Ao levantar senti o fio de sangue escorrer da perna. Que merda tinha acontecido aqui?

- Hell... eu...

- O que foi... - Ela viu minhas costas, ao que parece eu tinha caído em cima de outra garrafa igualmente vazia e que agora não tinha mais sua forma original - Puta merda Jana... vem cá, vou dar um jeito nisso.

De repente eu estava a caminho do banheiro e foi impossível não lembrar do dia que quebrei um copo na palma da mão. Foi um sentimento semelhante. Com cuidado sentia Helena tirar minha blusa e com a habilidade de quem já faz isso faz anos ir tirando caco por caco das minhas costas. O corpo pendeu para frente, não conseguia me sustentar em pé ou nem mesma de joelho. 

Cada pedaço de vidro que saía era mais uma confirmação de que eu não sentia absolutamente nada. Quis dizer para Helena me deixar ali e ir cuidar da vida dela. Talvez eu tenha dito pois notava nas palavras dela um tom de choro. Eu não entendia nada que ela falava, parecia outro idioma, às vezes ela parecia cantar. Me lembrei do dia que nos conhecemos naquela biblioteca. Acho que cada pensamento meu estava saindo pela boca pois a ouvia dizer para ficar calma. Sem perceber tudo foi escurecendo, escurecendo e eu apaguei.

Acordei em um sobressalto assustando tanto Helena quanto a raposa. O ar nos pulmões não vinha em quantidade, podia sentir o coração acelerado, as palavras voavam pela minha cabeça como se fossem pássaros enfurecidos. Não sentia nenhuma dor. A morena me perguntou o que foi, perguntei da noite passada. Nada de anormal. Ela deve estar querendo me privar das lembranças... passei a mão nas costas e nada. mas o que? Nada mais estava fazendo sentido. Caí de volta na cama. Tentar dormir pra ver se acordo em um mundo menos pior. Ótimo.

Entropia

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Não tem como dizer o que acontece. Pode ser um pico de stress, um ápice de riso, qualquer situação, quando você vê a sensação de estar sonhando está lá. Pode parecer confortável não ser atingido por nada, mas não é, é sufocante. Não vou dizer que é a pior sensação da vida porque já senti coisa pior. Mas é angustiante, você não sabe se vai conseguir parar, quando vai passar, se vai passar.

É uma defesa do cérebro antes de acontecer algo pior, penso que deveria durar pouco, acredito que pra maioria das pessoas dure segundos, seja imperceptível, mas pra mim acaba durando horas, dias, semanas. Arrisco dizer que já durou meses um tempo atrás. Arrisco porque afeta a memória e, quando penso nisso, tento ter lembranças antigas e tenho uma, com uns onze pra doze anos, estava em uma churrascaria e tenho a imagem de ter virado pra minha mãe e dito "tô com a impressão que estou sonhando", é só um flash, uma cena de, no máximo, cinco segundos.

Depois disso é um grande campo branco. Não lembro de mais nada. Minto, pra não dizer que não lembro de absolutamente nada eu tenho mais flashes de cinco segundos nos anos que se seguiram. Um no banheiro, um na escola... de resto não tenho nada. As coisas que alego ter passado ou é coisa que todo mundo passou, história que alguém disse que passei ou coisa que eu invento. Aprendi a inventar boas histórias sobre meu passado.

Se isso ficasse só no passado mais remoto maravilha, porém não é o que anda acontecendo. Todas as lembranças de anos recentes acabam se tornando algo branco, vazio. Ou, pra não perder completamente nada, ficam aqueles flashes. E o mais foda é que, de uns dois anos pra cá, começou a ficar mais intenso. Graças à internet descobri um possível nome pra isso: despersonalização.

Não gosto de usar muleta de doença, mas caso eu realmente tenha essa eu não sei o que fazer. Não sei como agir, não sei pra onde ir ou pra quem pedir ajuda. Houve uma época que eu conseguia sair das crises mais intensas provocando dor física. Hoje não funciona mais, é como se fosse uma pedra caindo numa lagoa: faz as ondas e logo volta tudo ao normal. Quase como se meu cérebro buscasse uma entropia. Entropia. Vou chamar isso aqui de entropia.

Nada é real. Ou é? Tem dias (como hoje) que eu vou acordar de um coma ou algo parecido lá nos onze anos. Só que acho que minha cabeça não é tão inventiva a ponto de criar tantos anos a frente... se bem que ela criou segundos de anos. Merda. Não sei mais o que fazer. E ninguém vai ter a resposta. Quando perguntarem o que é eu prefiro dizer que não é nada ao ter que explicar tudo isso... até porque ninguém vai entender mesmo. Então eu prefiro pegar, mentir tudo e pronto, ainda está funcionando.

Não. Não está. Sim. Eu estou em total conflito. E não é entre personalidades, é entre eu e eu. É diante de um espelho imaginário. E nesses momentos eu tenho a nítida impressão de que eu não existo e os versos de Pessoa (sempre ele e sempre esses versos!) me vem: Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo.

Já não sei mais sobre o que estou escrevendo. Eu devia estar trabalhando, mas zero ânimo de trabalhar. Amo meu emprego, mas nos últimos dias tudo tem sido um grande nada. E aí a urgência de fazer algo que marque, que seja realmente diferenciado fervilha. Mas eu não posso fazer e, quando vejo, o dia passou e não fiz nada. De novo. Talvez esse campo vazio de lembranças seja justamente por isso, por eu nunca ter feito nada. E Pessoa vem de novo.

Enigmas

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sempre gostei de falar por enigmas, talvez a melhor forma de eu forçar meu lado escritor a se expressar e, assim, eu tirar algo que há em mim, seja um sentimento, uma sensação... Mas às vezes, como agora, as palavras me faltam e eu apelo pra um velho truquei meu que é buscar palavras em músicas. Você sabe disso melhor do que eu.

Sei que provavelmente você não verá a carta, talvez a chuva molhe aquela caixa de correio velha que eu já disse que você precisava trocar. Com sorte talvez ainda consiga ler, afinal estou escrevendo a lápis, agora que me dei conta disso. Sempre achei lápis mais orgânico que caneta. 

Minha letra deve estar horrível, mas nesse momento em que o céu ficou cinza e a água do meu chimarrão acabou e terminei todos os meus trabalhos eu parei, suspirei e um sentimento me tomou, precisei falar, colocá-lo para fora, por isso a carta em que eu não conseguia me expressar e preferia me expressar em forma de música que, para variar, demorei mais do que imaginei e agora estou devaniando... 

Por que quando as cartas são para você elas tem essa tendência de me tirar o rumo, me fazer olhar para a parede que um dia foi branca e hoje tem um tom amarelado? Vou terminar por aqui com a frase da música que tinha prometido várias linhas atrás:

"Sem mais eu fico onde estou, prefiro continuar distante..." (Skank - Resposta)

Festa

segunda-feira, 30 de abril de 2018

- Acorda mais um dia, isso, vai, aguenta, viva, você sobreviveu. Mais um dia e outro e outro e mais um e quando viu já foi uma semana inteira, e outra semana e mais uma e passou um mês, você sobreviveu de novo. Cabe um parabéns aqui?

- Não sei, sobreviver é meio que um dever de todo mundo, então acho que não. Não?

- Não, se fosse sobreviver e se sobressair, aí sim mereceria uma parabenização, assim, só sobreviver sem mover muito mais coisas do que qualquer um moveria não seja passível de comemorar.

- Entendi. E quando se sobrevive em meio a inquietações e nuvens negras que soterram a existência e tiram toda a vontade de sobressair ou até mesmo de colocar aqueles velhos projetos em ação, quando se faz, ainda que o básico, por não conseguir sair desse vórtice, e quanto sobreviver, tendo uma voz doce que todo dia diz "pule" ou que, todo dia de manhã diz "pra que fazer tudo isso? Você vai aabar fracassando, frustrando as pessoas de novo e de novo e de novo, esse é seu destino", quando reagir aos estímulos é o máximo que se consegue fazer nos dias que passam todos iguais?

- Bem... aí acho que cabe alguma felicitação, afinal não se está deixando ser totalmente tragado pelas inquietações, reagir a estímulos faz com que as inquietações se calem, que essa voz cesse seu discurso.

- Elas sempre estão ali, naqueles dois segundos entre dar um enter e começar a próxima linha de texto, enquanto um software carrega, enquanto vai ao banheiro, na hora do almoço a voz se torna mais intensa, então se afoga em comida para ver se ela se cala, na hora do jantar a comida não é tão farta então se afoga em bebibda e só assim consegue sobreviver a mais um dia.

- Compreendo... então, se é assim, vamos celebrar.

- Com comida e bebida?

- Sim, comer e bebes, uma celebração completa, passe naquela loja e compre uns balões, encha-os e coloque alguns na parede, vai dar um ar renovado para a velha decoração, vamos comemorar todos os dias antes de dormir.

- Assim a comemoração vai parecer algo automatico, uma rotina...

- Então só me resta dizer uma coisa...

- O que?

- Pule...

O bilhete no teu travesseiro

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Você dorme e eu te olho com uma vontade absurda de ter você, de sentir sua boca encostada no meu ouvido, de me juntar contigo assim sem avisar, mas penso que talvez isso fosse dado como quebra de contrato. Temos as nossas leis, vamos ao início. Coloquei meu coração na caixinha junto com a aliança e ele ficou lá, guardadinho. Te olho e te quero mesmo sem hoje ter muita certeza de quem você é, de quem eu sou, do que somos. Só quero. Sabe bem que sou assim. As vezes vou fazer manha e rolar pro lado esquerdo da cama só pra ver você se empurrar pra perto e me puxar de volta pela cintura. Pra sentir esse seu "vem cá ou eu te puxo pra mim". Precisa ser assim, as vezes você precisa me puxar, a maioria delas, mas eu vou.
Eu sempre vou.

Adequações

sábado, 18 de fevereiro de 2017

De: ele
Para: ela
Assunto: [sem assunto]

Olá, não sei bem como começar essa carta, eu sei o que eu tenho que escrever mas não sei como escrever da forma rebuscada que sempre trocamos nossas cartas.

Não vou fazer acusações, dizer que a culpa é tua, minha, dos vários alguens que atravessaram nosso caminho ou do tapete em formato de borboleta que rodei meia cidade pra achar.

Não. Faço um mea culpa porque pisei na bola inúmeras vezes. Mas a verdade (dolorosa, diga-se de passagem) é uma só uma: eu sou conveniente. Dizes que temos ligação e tudo mais, que quanto estas mal me procura e eu te faço sorrir e tudo mais, que isso é uma ligação psíquica e toda essa coisa que acontece em filme...

Mas... e quando eu estou mal a ligação se rompe. Tu somes, se afasta. Não deve querer essa energia perto de ti. Compreendo. Sei que não é fácil conviver com alguém que a lembrança mais antiga que tem é a de querer morrer. Eu sei que tinhamos um acordo sobre esse acordo, mas eu simplesmente não consigo mais evitar pensar nisso. É mais forte do que eu. Sinceramente não acho sustentável essa relação de "okay, hoje preciso dele porque estou mal" e quando ele ta mal ela some.

Enfim. Se eu parecer frio e distante a partir do clique no enviar não se assuste. Ou se assuste, porque vamos estar um passo adiante nos nossos futuros.

~ Eu

Mefistófeles

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

É estranho escrever estas linhas. Sério. Eu já comecei esse tipo de carta tantas vezes que não posso me lembrar. Não sei nem se chego ao fim dessa, se a motivação que me colocou a pena à mão se manterá conforme redijo. Muito provavelmente a vontade e o desejo de partida sejam maiores do que a minha capacidade de me manter em pé.

Hoje provavelmente está sendo um dos piores do ano e por isso essa motivação. Não, não teve um grande acontecimento, algo que me fizesse querer desistir nessa altura. Nada demais, apenas a complexidade de tudo, a necessidade de manter tudo junto, de manter todas as marionetes presas aos dedos e de mante-las se movimentando. Explico: eu acredito que todas as coisas da vida são marionetes que controlamos. Na infância temos as marionetes de brincar e de estudar, depois vai aumentando a quantidade de fios, de marionetes... até tudo funcionar certinho muita gente se ferra. Entre elas eu.

Não vou fazer aquele discurso de "ah como o sistema é mau" e de como tudo que nos cerca nos poda e nos impede de sermos o que queremos/podemos/vamos ser. E não venham dizer que "ah, mas ninguém pode correr pelos teus sonhos, você tem que se virar". A vida é linda em postagens de rede social onde "casal 'larga tudo' e viaja o mundo". Se fosse tão simples todo mundo fazia. E esse "tudo" que eles tinham era o que? A casa dos pais? Pff. A vida real, de quem ganha o suficiente pra existir e manter meia dúzia de pequenos vícios (pequenos e baratos) não comporta esse tipo de fuga. 

Mas não é disso que essa carta trata. Ela trata de mim e do meu convívio constante com as minhas inquietas sombras. Se você, que está lendo, não conhece sugiro ler Fausto, do Goethe e Dom Casmurro, do Machado de Assis. Mefistófeles cada dia que passa vem com um discurso cada vez mais afiado e mais convincente. Não é uma carta suicida ou coisa que o valha, mas é uma carta que, caso aconteça algo, vocês já saberão o que aconteceu, o que me tirou a pena das mãos, o que me "libertou". E não venham com aquele papinho de "ah, mas suicidas vão pro inferno" porque eu não acredito nisso, não sou ateia (existe esse termo?), mas também não acredito nessa bobagem de céu e inferno. O "algo superior" que existir deve ser alguma forma alienígena com tecnologia/capacidades cognitivas superior à nossa. Ou isso ou as coisas do próprio universo como "tempo" ou "gravidade". Mas nada de deus sentado num trono de nuvens ditando as regras como uma criança mimada jogando the sims.

Enfim, como em tudo nos últimos tempos, me perdi e acabei falando coisas além do objetivo inicial da carta que era uma carta em tom de despedida. Não vou me matar (pelo menos não tão logo, ainda tenho algumas coisas penduradas que gostaria de resolver), mas vou passar a me isolar mais e mais até que não sobre muita coisa ou ligação com as pessoas. E se isso parecer um pedido de socorro abafado por uma doença sem cura. Touchê. Você entendeu o espirito da coisa. Quem quiser vir tentar me ajudar venha, mas venha disposto a ajudar de verdade, ajuda do tipo "fique bem, tão bonita e aí enfurnada num quarto" será rechaçada. No mais, até logo. Ou não.

Atenciosamente,
Helena.

À Helena

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Olá minha irmã. 

Espero que esta te encontre bem. Tem alguns anos que estou me protelando em lhe escrever essas palavras. Na verdade desde que eu tinha 10 anos e descobri o real motivo de meu pai não voltar todos os dias pra casa. Graças a TV eu soube que existiam homens que traiam suas esposas com outra mulher. Por algum tempo achei que meu pai tinha outra. Até que me caiu a ficha: minha mãe era a outra. Não digo que não passei vergonha na escola na época de dia dos pais por ter uma boa lábia e saber mentir desde cedo. Mas passei alguns apertos. 

Passaram os anos e tudo que consegui foi seu nome e uma foto de quando você era criança, com uns 4 ou 5 anos. Agora deve ter seus vinte anos... nossa, imagino suas burradas e fico querendo te consolar (mesmo que eu não seja assim com ninguém). A verdade, minha irmã, é que a vida foi injusta conosco e eu mal espero a hora de te encontrar e fugirmos para algum lugar distante. Até a próxima carta. 

Com amor, Alice.

Querida Alice,

domingo, 27 de setembro de 2015

Antes de qualquer coisa, me desculpe se esse "querida" soar cliché ou irônico, é que eu não tenho a menor ideia de como começar uma carta. Eu queria que você soubesse que ando angustiada por não poder te ver. Faz falta o som da sua voz e o teu afago. A única coisa em que tenho pensado é em ver de perto o castanho dos teus olhos. Faz falta mexer no teu cabelo, bagunçar tudo e fugir rindo enquanto você corre atrás de mim. Alice, eu me sinto a continuação do livro que você não quis terminar de escrever. Você sabe que burlou as regras do destino e criou seu próprio mundo.
Toda manhã eu acordo, coloco um moletom e saio pra fumar. O primeiro cigarro do dia sempre é o melhor. Em seguida fico sentada, sozinha, pensando em nós. No tempo que perdemos e criando com uma expectativa ardente tudo o que vem pelo futuro. Eu não sei se devo te amar, entretanto creio que isso acontece antes que eu pense em evitar. Eu preciso te encontrar, Ali, eu preciso te levar pra conhecer essa cidade e o mundo todo. Eu preciso ter você por perto. Eu preciso de você, mais que qualquer coisa.
Espero ansiosamente por sua resposta.

Com amor,
Helena.

Corrosivo

sexta-feira, 27 de março de 2015

O que você faria se soubesse toda a verdade? Se soubesse um dia sonhei que seu veneno se juntava ao meu, o que diria? O que faria se um dia eu resolvesse te contar que por trás de cada ofensa no fundo quero dizer "MEU amor"? O que você faria se soubesse que quando eu me afasto, quando grito, quando sou rude na verdade é só medo de lidar com tudo? Você sabe o quanto tudo me assusta. Você sabe melhor do que eu.
Qual seria a sua reação se eu te dissesse que os seus olhos atraem os meus e me prendem a você? Não quero gastar o meu tempo ao seu lado, não quero ficar tão perto, não quero nem por um segundo confessar que você é tudo o que eu tenho de mais bonito. Não quero te contar que não sei medir o que sinto e diante de tudo isso, acho que nem preciso dizer o que realmente existe por trás de cada "te odeio", não é?
Então te odeio, te odeio muito. Te odeio tanto que até dói. Te odeio de uma forma que dói te ver indo embora, sempre. Te odeio a ponto de ficar triste por saber que você não me odeia de volta. Te odeio, com todas as minhas forças, eu odeio você.

E só para que você saiba: esse ódio todo me consome, dia após dia. E a culpa? É toda NOSSA!

Eduarda,

terça-feira, 18 de novembro de 2014

não sei como começar uma carta pra você sendo que você nunca vai ler, mas existem tantas coisas que eu queria que você soubesse... Tantas coisas que eu queria ter a chance de dizer. Acho que escrevo agora pelo meu direito de resposta que foi negado pela vida e, infelizmente, por você; escrevo pra mim mesmo e não sei, definitivamente, o que fazer com essas palavras.
Não sei descrever isso que estou sentindo agora. Queria que você pudesse me ver. Eduarda, você deveria saber que eu nunca poderia ser capaz de te odiar. Nem quando você me disse aquelas coisas tão terríveis eu te odiei. As coisas só não fizeram sentido.
Eu queria passar a vida do seu lado, não entendi como isso podia ser tão assustador pra você. E agora tudo faz sentido. Fico triste em saber que não estive do seu lado por esse tempo, você foi sempre tão forte e tão teimosa. Sua força sempre foi algo que eu admirei. E sua teimosia algo que eu detestei, e é justamente isso o que me irrita agora.
Duda, você fez tudo errado, meu amor. Eu queria estar com você nessa hora. Teria vivido os cinco anos mais felizes se tivesse vivido com você. Eu nem sei dizer como minha vida poderia estar diferente agora... Eu não queria que você tivesse passado por isso tudo sozinha.
Eu preciso dizer que nunca acreditei naquelas coisas que você disse... Foi um dia miserável aquele que era o mais importante da minha vida. Eu me senti o homem mais idiota e vazio. Cheguei em casa naquele dia e tomei um porre. Passei o mês inteiro tentando encontrar justificativa pra tudo. Tentei te procurar tantas vezes e quando você só me deu silêncio como resposta, eu desisti. Tinha meu orgulho e achava que você realmente não me queria mais. Eu via nos seus olhos o quanto me amava, mas preferi acreditar no que sua boca me dizia.
Hoje vejo o quanto fui tolo. Mas o que fazer? Eu não tinha o direito de quebrar o teu silêncio e invadir o teu espaço. Por isso me calei.
Passei meses e até os anos seguintes considerando uma visita sua, e confesso que a visita da tua mãe me pegou de surpresa. Cinco anos se passaram e eu não esperava mais nada, menos ainda a visita da sua mãe. Foi só vê-la pra saber que algo estava mal. E tudo estava mal. Peguei os embrulhos dela que estava com os olhos vermelhos, dei um abraço e ela só pediu que eu lesse tudo e a procurasse no final.
Na mesma hora subi pro apartamento e abri a primeira carta, a que estava separada das demais. Só consegui ler ela. E a minha vida nunca mais foi a mesma depois dali. Precisei de um tempo pra conter a emoção de sentir teu cheiro, de reviver todos os dois anos em segundos. De aceitar teu fim tão trágico. E o meu recomeço, já que eu tinha um filho e nunca tinha sido pai.
Eu não sei dizer, Eduarda, como estava a minha vida. Eu a vivia da maneira que achava bem. Saía com os amigos, alguns relacionamentos, nada sério. Emprego, casa. Rotina. Meio vazia, mas confortável.
Sua carta me arrancou um pedaço, mas também me permitiu recomeçar.
Obrigada por mesmo tarde ter me respondido... Eu ainda não li as demais cartas, essas que você passou escrevendo sem me enviar. E não sei quando vou ler, mas pretendo demorar bastante, quero de alguma forma fazer esses momentos durarem. Eu nem sei se estou pronto pra isso.
Eu não estava pronto pra aceitar o seu fim, mas é assim que são as coisas, não é? A vida é assim.
Quando tive coragem de sair quando terminei de ler a carta, tomei um banho e fui atrás da sua mãe. Ajudei a ela com as coisas que precisavam ser resolvidas... Fiz as coisas meio que mecanicamente. Tive a ajuda do nosso amigo João. Não tinha cabeça pra nada.
Até quando as coisas são terríveis, você consegue me surpreender... No meio dessa tristeza toda, ter visto aqueles olhos do moleque... Samuel, você o chamou, como é lindo. Ele tem teus olhos e o meu sorriso. Como pode ele ser tão a nossa cara assim? Quero ser o melhor pai do mundo. Queria tanto que tu pudesse ver tudo isso, Duda. Queria tanto que tudo tivesse sido diferente...
As coisas estão tão novas agora. A minha vida não está vazia mais. Você faz falta, como sempre fez, mas parece que alguma coisa nos liga agora. E eu tenho certeza que vem do Samuel. Parece que você está aqui o tempo todo, Eduarda. E fique, por favor.

Existem coisas que não couberam aqui. O meu amor não cabe aqui. Eu queria te enviar uma carta pra contar cada detalhe do nosso filho, queria te descrever exatamente cada sentimento que tenho, cada pedaço de mim deseja você inteira, mas eu sei que agora, de onde você tá, com certeza não precisa de nenhuma descrição... Eu vou encerrar isso aqui.
Espero ser um bom pai e que você me aprove.
Eduarda... eu queria te dizer mais uma vez: eu te amo.

Com amor, 
Samuel.

em resposta à "Para Sempre Sua" http://anotherletterforyou.blogspot.com.br/2012/04/para-sempre-sua.html.

Há uma luz que nunca se apaga

domingo, 9 de novembro de 2014

Não sei como te chamar, não quero usar teu nome aqui porque eu nunca te chamei pelo teu nome. Em contrapartida já não me sinto íntima pra te chamar pelo apelido.
Uma das piores coisas em ver alguém partir é não saber quando esse alguém vai voltar e se ele vai voltar. Já ficou clichê sentir sua falta. Eu perdi as contas de quantas pessoas já me ouviram falar a seu respeito, mas nunca é suficiente. Eu falo de você como se em algum momento essa coisa aqui dentro fosse passar, mas nunca passa. Falo de você como se falar fosse te trazer de volta, mas nunca traz. Não vai trazer. Sabemos que essa é mais uma carta que você nem vai ler, mas como esse fiapo de esperança estúpida dentro de mim nunca morre, continuo a escrever.
Acontece que sempre me vejo tanto em você! É aquela coisa saudosista de dizer que você é a continuação do que eu sou ou vice-versa. Não tenho mais tempo pra saudosismo, eu sei. E você não tem mais paciência, eu sei. Sabemos. Essa é a última vez, prometo. (E provavelmente essa é uma daquelas promessas que vou quebrar sem nem protelar.)

Desculpa por ser tão clichê, mais uma vez. Sei que não gosta. Desculpa por não estar usando xadrez, eu sei o quanto você gosta. Desculpa por entupir os salgados de ketchup, sei que você olha com cara feia mesmo dizendo que "gosta de ketchup", você nunca coloca em nada e torce o nariz se colocarem no seu lanche!
Desculpa por nunca mais ter devolvido seu CD favorito. É que manter isso aqui é como manter parte sua comigo.
Nesse momento você deve estar tomando absinto português e vendo coisas que nem existem - ou talvez existam em uma outra dimensão -, isso se não estiver tocando baixo, o que também é provável. Mas se estiver bebendo, sei que exatamente daqui uma hora você vai sentir vontade de voar, vai chorar. Vai chorar muito. Eu me pergunto pra quem você liga agora quando chora. Me pergunto se encontrou outra pessoa pra segurar tua mão e voar sem direção. Desculpa por desejar tanto que você não tenha ninguém agora já que não está aqui comigo. Não aprendi a te dividir, não aprendi a deixar ir aquilo que nunca me pertenceu. É que aquele dia você me beijou e eu esqueci de todo o resto do mundo. Eu decorei os teus lábios. Céus! EU DECOREI OS TEUS LÁBIOS. Isso me faz sentir mais louca do que o comum. A diferença é que quando você estava aqui comigo, eu nunca era louca. Aquilo era convicto.

Quão patético é chorar ouvindo The Smiths e lembrar do seu abraço? Como me desfaço disso? Você me prometeu cinquenta anos de conversas intermináveis e hoje não responde nem a um "oi" meu.

Eu nem ia escrever essa carta. É que eu vi uma pessoa devorando um sanduíche naquela lanchonete que frequentávamos e era exatamente o seu jeito de mastigar as coisas. Era engraçado. Eu resolvi escrever isso porque me fizeram uma pergunta, eu fiquei tímida e mudei de assunto imediatamente. Eu fiz aquilo que você fazia de ficar um seis segundos em silêncio olhando pra baixo e mudar de assunto, ainda olhando pra baixo. Isso sempre foi coisa mais sua do que minha. Todas as minhas atitudes sempre foram mais suas do que minhas.

Sinto sua falta. Volta um dia, tá? Nem que seja pra me cobrar teu CD. Tô com saudade da sua voz.

Espero que esteja bem.
Com amor,
A menina da camiseta do prisma.

à querida e saudosa.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

   A quem endereçar a carta que meu coração deseja escrever ao destinatário ausente? Como verbalizar o experimentado pelos caminhos que tenho trilhado sendo que o ideal era que tu pudesses ver e não ouvir dizer?
   Hoje foi um dia de sol e bastante quente, mas é inverno. Quando as manhãs são cinzentas e não podemos ver a luz, sei que em algum lugar o sol se esconde e que pode aparecer a qualquer momento. O que não me impede de aproveitar os dias nublados.
   Os dias têm sempre algo a nos ensinar. Nem sempre quando o dia é de sol, ele é bom. E eu prefiro as nuvens, mas reconheço a beleza de um céu limpinho e azul.
   A previsão do tempo nem sempre acerta. A natureza faz a sua própria escolha de acordo com o que tem que ser, porque não cai nenhuma folha, de nenhuma árvore sequer, em vão. O que me remete a você.
   Para tudo há um tempo determinado debaixo do sol. Não contexto e não quero controlar o tempo. Apenas penso sobre a efemeridade dessa vida. Sobre você eu não digo ter sido tempo demais (e nunca foi!) ou pouco tempo, tempo suficiente ou insuficiente. Foi um tempo feliz, o que tivemos.
  Ouvi dizer que saudade era o nosso coração dizendo para onde quer voltar, e nem sempre é. Como eu poderia voltar para onde nunca estive? Não que o passado feliz não seja visitado e desejado. Se fosse possível, eu voltaria no tempo apenas para te observar.
   Mas hoje sinto a saudade do que eu nunca vi. Eu que acredito que coisas boas estão por vir, visualizo você sentada em uma plateia de um espetáculo que comigo sonhou, um espetáculo que ainda está por vir, e eu gostaria que você estivesse aqui.
   Sobre o passado, amor. Sobre o futuro, esperança. Eternamente, gratidão.
   A vida é efêmera, sim, mas o amor é eterno.

Confusão

domingo, 5 de janeiro de 2014

Olá, como estas?

Talvez essa seja minha última carta
. Hoje o dia foi estranho, as nuvens não sairam do céu e a chuva caiu sem parar. Pensei em você vendo os pingos refletivos na janela imaginei o que estaria fazendo pensei em te ligar, mas estou sem créditos. Claro que eu podia ir até a padaria na esquina e fazer a recarga, mas... deixa assim por enquanto. Enquanto escrevo essas linhas bebi uma garrafa de vinho vagabundo afim de saber como estas. Não fiz minhas resoluções de ano novo por considerar isso um costume um tanto quanto idiota, vou fazer o quê tiver que fazer e pronto. O resto decido no caminho.

Pensar nisso me fez sorrir de canto.Sei que também não gostava muito dessas coisas de planos de ano novo né? Pois é, a única coisa que resolvi pra mim nesse ano é que vou sair e correr mais atrás do que eu realmente quero e pronto. Aposto que pensou o mesmo, viu como eu ainda te conheço o suficiente? E acho que sabe que eu não tenho bem um motivo pra lhe mandar uma carta, já falamos o que tinhamos que falar. Queria entender às vezes porque, quando o assunto é coração, as coisas parecem tão lentas (ou tão rápidas) pra passar. Bem dizem que o tempo é um santo remédio. Acho que essa resposta ninguem nunca vai saber não é? A verdade é que, todo o amor que eu tinha, tenho, merda, não sei, eu... ah, você sabe, acabou se acomodando aqui dentro. Tudo se tranquilizou. Aquelas ondas que vinham pararam, vez por outra vem uma onda de ficar olhando as nuvens. Mas são só lembranças. Vez por outra as estrelas lembram as velhas mensagens nossas. Aposto que faz o mesmo até hoje.

Cuide-se, se precisar, sabe onde me encontrar. Te amo, muito e tanto.

Eu.

Leve

domingo, 10 de novembro de 2013

Talvez aquela última conversa, na padaria tenha sido a definitiva. O celular dela, prontamente desligado ao tocar, foi o badalar final. A pá de cal. O último sopro. A última pessoa a sair do prédio antes da implosão. Conversaram mais um ou dois minutos ao fim do sino. Não mais que vinte palavras. Ela o viu sair pagando o chocolate quente e um serenata de amor pra ela. Provavelmente ela estava crente de que ele voltaria ali nos próximos dias, sempre com um pretexto diferente, como se buscasse sempre reencontra-la. Ele saiu colocando o capacete sem a vontade de voltar. Coração partido? Sim, claro. Mas, por mais estranho que possa parecer, tranquilo. Porque ele a deixava com outrem cuidando dela. A emoção tomou conta dele ao subir na moto e dar a partida saindo rumo a sua casa, no litoral. Uma lágrima ousou sair de seus olhos e molhar seu rosto. Ao chegar em casa havia uma carta na caixa de correio. Conta? Não. Letra bonita. Algumas notas musicais ornavam o envelope. A pianista. Ele suspirou entrando e lendo as poucas linhas. Ela agradecia por tudo, mas tinha se encontrado com um velho amigo e esse lhe fez uma proposta daquelas impossiveis de recusar: passar dois anos estudando piano em Viena, Austria.

No fundo ele sabia que o romance com a Pianista duraria pouco. Durou o suficiente pra se tornar inesquecivel. O mesmo que havia acontecido com ela. Claro que ela era diferente. Era algo infinitamente maior, mais intenso, mais duradouro. Se ele fosse compositor comporia o réquiem agora. Mas não era. No máximo ele escrevia e desenhava, compor não era com ele. Deixou as chaves e o pão sobre a mesa. Esperou a casa perder a luz natural que trespassava a cortina. Em poucas horas deixou que as duas fossem. Pra pianista depois escreveria um e-mail lhe desejando sorte e tudo de bom e não esquecer de visita-lo quando voltasse. Para ela... para ela... subiu à laje vendo o sol sumir aos poucos e as nuvens adornando-o com uma coroa. Fechou os olhos, sorriu e, mentalmente escreveu uma pequena carta onde, resumidamente, despedia-se dela. Ao abrir os olhos se sentiu mais leve. Leve ao ponto de saber que ela, certamente, receberia a mensagem e ficaria e tiraria os pés do chão se deixando levitar, quem sabe até voar acima das nuvens. Assim como ele fazia agora. Leve de leveza, leve de beleza, leve com certeza, leve com clareza, leveza de leveza.

Coleção de despedidas

sábado, 26 de outubro de 2013

Meu amor;

Tirei a roupa, abri o chuveiro e tentei lavar a mente, a alma, o coração, em vão tentei tirar de mim qualquer sentimento que me fizesse sentir tamanha dor. Lembrei de quando eu tinha quatro anos de idade, o primeiro dia na pré-escola. Eu realmente não queria ir, porque não me cabia sair do meu mundo que até então se resumia a um jardim, um balanço feito com um pneu amarrado em uma corrente e uma caixa de areia com baldes e pás. Tudo o que eu sabia da vida se resumia nisso. Tinha o céu também, que eu achava que era meu. Eu gostava de ver as nuvens também, jurava que em algum momento elas "cairiam" ali no meu quintal e teriam a mesma textura de um colchão, então eu brincaria em cima delas. 
As únicas pessoas que eu conhecia eram os meus pais, meu irmão e meus avós. Conhecia alguns primos. Era confortável, eu não precisava de mais nada, no meu jardim tinha a minha árvore gigante, tinha as minhas flores favoritas, existiam também os insetos que eu gostava de observar. Eu não precisava de mais nada, era feliz daquele jeito. Não me era cabível a ideia de estar em um lugar cheio de crianças desconhecidas e maldosas com uma professora gritando comigo por eu ter feito alguma atividade errado. No meu primeiro dia de aula, senti a dor de uma ruptura. Chorei, gritei, grudei na minha mãe, implorei que ela não me deixasse lá... Não teve jeito. Passei ter que encarar aquilo e levei até onde pude. Eu não estava disposta a abrir mão do meu mundinho para enfrentar o mundo de verdade - eu nunca estive - e eu ainda não estou.
Dois anos depois, a minha avó materna morreu. Pela segunda vez, algo se rompeu em mim. Eu não sabia muito bem o que era "morrer", não sabia direito o que era "perda", tudo o que me disseram é que eu não a veria mais, nunca mais. Desde então, a morte se tornou sinônimo de "não ver a pessoa nunca mais", e muita gente tem morrido por aqui - ainda que respire.

Continuei a crescer e perder. Perdi a empolgação que eu tinha em todo Natal. Perdi o entusiasmo que eu tinha em relação a tudo. Perdi a energia que tinha pra correr. Perdi os meus melhores amigos. Perdi a confiança nas pessoas. Perdi a alegria que eu sentia ao ganhar aquele picolé azul, ou ao comer pamonha (hoje eu detesto pamonha). Perdi palhetas. Perdi pedaços de chocolate que guardei na geladeira. Perdi coisas bobas, perdi coisas que valiam muito também. Perdi coragem. Perdi forças. Perdi você. E quando perdi você, parece que perdi tudo o que ainda tinha restado, embora eu já esteja cansada de ter de sussurrado isso pra você nas minhas noites de febre enquanto sentia a sua falta.

Sabe o que me deixa mais perplexa? Em cada uma das minhas perdas, eu sentia novamente a dor de todas as perdas anteriores. Todas rupturas novamente. A simples ideia de perder qualquer coisa, por menor que seja, me assusta, porque eu já sei que a dor será insuportável. E depois de tudo, eu me apaixonei. Meu amor, eu me apaixonei por outra pessoa. É estranho te dizer isso, porque eu te amo, mas me apaixonei por outra pessoa e também passei a gostar de outra. Nem eu entendo, as vezes juro-de-pé-junto-e-amarrado que sou completamente maluca. Com a pessoa que gosto, eu acho que consegui superar alguns traumas do passado, coisas que só você soube dos detalhes. Fiz o que planejava ter feito por você, com você. Me perdoe (?) por isso. Só que hoje, tudo me feriu de uma forma bem voraz. Eu vi o metal correr pela minha pele enquanto o sangue escorria e não gritei. A pessoa por quem eu me apaixonei também me disse "adeus", assim, sem dizer. Não sei se você vai me entender. 
Hoje, enquanto eu estava no banho, já não sabia mais distinguir o que era lágrima e o que era só a água do chuveiro. Perdi as forças, sentei no chão e chorei. Chorei, porque todas as rupturas vieram de uma só vez. Chorei e questionei mais uma vez o motivo de você não estar aqui, porque se você não tivesse morrido, eu te ligaria e te ouviria. E eu sei que falaríamos coisas sem nenhum sentido. Sei que eu perguntaria qual país você acha mais interessante, ou discutiríamos sobre MMA. Poderíamos até falar dos coalas de chocolate que vendem no bairro da Liberdade até você dormir como sempre fazia. E eu ficaria ali por horas em silêncio ouvindo a sua respiração leve. Eu poderia ao menos fingir que sou feliz, por algum tempo eu acreditaria que tudo estava bem e eu não precisava de mais nada porque você estaria lá pra me fazer esquecer o resto do mundo, mas você não está.
Eu não tenho pra onde correr. Minha mãe não faz mais chá de camomila pra mim quando me vê chorar. O meu pai está bravo comigo, eu vivo estragando o carro dele e pegando multas, as vezes nem fui eu e ele diz que a culpa é minha. Amanhã eu tenho um vestibular pra fazer, e pra ser bem honesta com você, eu não vou. E não vou porque sei que não vou passar. E digamos que, se por ironia do destino eu tirasse nota suficiente pro curso que planejei, quando começar a data da matricula da faculdade, estarei trancada em uma clínica de reabilitação. As vezes sinto que estou perto de te encontrar, seja lá onde você estiver, no céu, em algum canto do universo, ou em qualquer lugar espiritual hipotético, eu sinto que estou perto de te encontrar. Nem que seja estar perto por também estar debaixo da terra. Não sei se ainda creio em mim e sei que por isso devo te pedir perdão. Todos os dias cometo erros. Todos os dias. Eu sei que é patético escrever assim sabendo que você não lerá ,que você nunca vai saber nada disso aqui nesse planeta, mas eu preciso contar, preciso te dizer que eu estou quebrada, que eu queria que as pessoas nunca partissem, que o "adeus" não existisse. Preciso dizer que não sei ser sozinha e não sei estar com alguém sem levar esse alguém pro abismo comigo. Preciso dizer que lutar por mim é dar murro em ponta de faca, porque você tinha razão, de fato eu sou "impossível" de tão teimosa. Eu preciso dizer que sinto falta da tua voz. Eu ainda amo você.

E eu sempre vou amar você.

Desde que você partiu.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Vez por outra sinto um alívio por você não estar tão presente, você certamente odiaria a vida que tenho levado. Lembro de um dia ter criticado você por uma música do Nirvana que você cantarolou no telefone. Eu sempre achei Kurt Cobain um idiota e, olha que bela contradição: Hoje eu entendo a idiotice dele, ao menos um pouco. Ou acho que entendo. Passei a noite ouvindo um acústico do Nirvana. Lembro do trecho da carta suicida de Kurt Cobain quando ele escreveu: "Devo ser um daqueles narcisistas que só dão valor às coisas depois que elas se vão. Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança." Engraçado. Me identifiquei. Sou assim. As vezes me sinto até egoísta. Em um outro trecho a carta diz: "Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a me sentir mal." Eu sempre me entrego a tudo até com as forças que não tenho. Uso de tanta intensidade que frustro a mim e aos outros.

Você não gostaria de ver o quão grogue estou agora, ou enquanto tocava violão há uns dez minutos atrás. Você odiaria ver o quanto tenho sido auto-destrutiva. Odiaria o bar que eu frequento e odiaria ver a forma indecente como eu sorrio pro garçom enquanto bebo. Odiaria o meu tom de voz quando peço mais gelo no whisky, ou o meu tom de voz quando peço a quarta dose. Você odiaria ouvir o som do copo batendo na mesa. Odiaria ver um cigarro aceso entre meus dedos. Odiaria me ver voltando pra casa quase cambaleando e odiaria ainda mais me ver deitada no chão por horas olhando pro teto. Mas eu sei que nada te deixaria com tanta raiva quanto me ver fazer isso todos os dias e saber o quanto eu choro depois de tudo. E choro por mesmo depois de três anos, não ter parado de tomar aquele monte de comprimidos tarja preta. Eu te prometi, não consegui, mas olha, eu diminuí a dose. Lembro de quando você me disse: "São três da tarde e você está tomando CINCO comprimidos pra dormir. Você tem noção do grau de depressão em que chegou?" Não, amor, definitivamente eu não tinha. Se eu soubesse que você iria embora tão cedo, eu teria passado mais tempo acordada. E eu teria me empenhado mais em ser algo bom na sua vida, mas sabemos que não fiz. Não fui. Eu tentei, como aquela vez em que comecei a procurar emprego porque a gente queria casar, revirei todas as faculdades da cidade pra te ajudar com a transferência, mas nenhuma faculdade nessa maldita cidade tinha o seu curso... Agora tem. Eu poderia dizer que isso é bom, porque eu quero cursar a mesma coisa que você cursava, mas não é. Você não está aqui. Essa cidade poderia explodir que eu nem me importaria.

Não deixei de ser impulsiva, ainda sinto raiva com facilidade. Agora mesmo estou com raiva. Estou sóbria. Não sei mais estar sóbria e feliz ao mesmo tempo. Sempre achei feio mulher bebendo, falando palavrão e essas coisas. Hoje faço tudo o que sempre odiei. Simplesmente pra fugir dessa raiva que eu sinto por você ter morrido. Por eu não ter feito nada. Por eu ter perdido o meu tempo longe de você e por todas as vezes que brigamos. Você é um idiota. Não importa, você vai ser um idiota pra sempre, porque você enterrou a porra do meu coração com você. Sabe qual é a parte do dia que mais dói? Quando eu ligo para o seu número e aquela vagabunda da operadora do celular diz que "esse número de telefone não existe". Como não existe?! Há um ano atrás eu ficava 2, 3, 4 horas falando com esse número pra agora ouvir que não existe? Eu recebi mensagens que nunca apaguei desse número que agora, não existe. E eu faço isso todos os dias. Todos os dias eu ligo e tenho a esperança de você atender e dizer que era tudo uma brincadeira de mau gosto, mas a realidade sempre cai sobre mim como uma tempestade que estraga um domingo de sol na praia.

Desde que você se foi, nunca mais comi aquele doce que era o nosso favorito. Passei a torcer pro Atlético, porque você gostava do Cruzeiro. Eu faço pra te irritar, porque gosto de te imaginar torcendo o nariz pra mim ao me ver usando uma camisa do Atlético. Gosto de imaginar sua voz dizendo: "Não tenho namorada atleticana, sai daqui", gosto de pensar no beijo que roubaria.
Desde que você partiu, passei a beber aquela cerveja que você falava que era ruim. Eu sempre detestei cerveja, você sabe, mas bebo pra te contrariar. Bebo pra fazer birra. Faço tudo ao contrário do que você gostava, porque não quero lembrar que você gostava. Não vivo mais pra te agradar, não tenho mais nada que era nosso, você levou tudo junto e essa é a minha forma mais infantil de me vingar de você por você ter morrido. Droga. Eu não consigo mencionar isso sem chorar e sentir raiva. Eu sei que a culpa não é sua, mas eu te culpo mesmo assim, porque ter raiva de você é mais fácil do que confessar que as vezes choro de saudade e de dor por você ter me deixado aqui, por você não ter me levado junto. Esse mundo não é mesmo um lugar muito legal, não te merecia, eu sei. Mas eu não consigo mais pensar nessas coisas de casamento, de filhos, daqueles sonhos todos que a gente tinha e que apesar de parecer clichê, eu tinha certeza que seria diferente de tudo o que já passou por essa terra, porém você não conseguiu cumprir com a sua parte no acordo.

Quando alguém morre, quem fica aqui vivo geralmente faz as coisas que agradariam a pessoa que partiu. Eu não consigo. Eu faço o oposto de tudo, mas do meu jeito eu permaneço fiel. Quando me dizem pra te deixar "descansar em paz", eu recuso gritando. Por que eu deixaria? Você não me deixa descansar em paz. Você não me deixa amar ninguém da forma que eu amei você. Não me deixa sonhar mais com futuro. Não me permite criar expectativas de nada. E isso tudo sem dizer uma única palavra, somente por ter partido.

Eu não disse que te amava antes de você partir. Eu te liguei só pra te ouvir e fiquei muda, eu queria ter dito que te amava, se eu soubesse que era a última vez que estava ouvindo a sua voz, eu teria dito, mas eu não disse. Acho que vou carregar isso pra sempre. Tanto faz. Odeio você. Odeio muito. Se eu pudesse te trazer de volta a vida, faria isso pra te espancar até você não aguentar mais. Céus! Eu ia te arrebentar, cara! Mas não posso. Então vou seguir como der, levando a minha vida "meio punk, meio grunge", como você mesmo dizia. E se não der, ficarei estagnada no tempo. Acho que é exatamente isso que tenho feito. Não tenho muitas certezas hoje em dia.

Esse é o adeus que eu não pude te dar.

"O que fizemos de nossas próprias vidas?"

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ao amigo que entre tantos, eu escolheria para ser meu. Tal como escolhi em algum momento da vida, porque embora algo tenha nos unido sem que houvesse chance de escolha, quando seus olhos repletos de coragem encontraram o meu olhar medroso, pude ter certeza que melhor amigo entre os seres humanos eu jamais encontraria, você seria minha escolha caso eu pudesse fazê-la. Eu escolheria você com todo ar que existe em meus pulmões e até onde a memória me deixa ir, digo que sempre foi assim.
Quantas lembranças suas terei eternamente latejando dentro de meu coração, escrevo para você e sinto um nó na garganta se originar, caso eu dê a ele chance de se desfazer, as lágrimas irão avançar pelo meu rosto tentando encontrar calma. A calma que eu encontro e perco em questão de segundos... Existem coisas que não consigo controlar.
Hoje em dia eu duvido que você me conheça tão bem como conhecera no passado. Fato é que o tempo passa e nós não percebemos isso, acreditamos que as pessoas permanecem as mesmas, ou notamos a mudança, mas deixamos um abismo tão imenso nos distanciar que quando vemos, não somos mais as mesmas perto delas. Eu realmente duvido que eu seja a mesma em uma conversa rápida hoje em dia. Porque somos feitos de conversas rápidas. E de repente os gostos mudaram, as ideias se transformaram, sonhos morreram, sonhos nasceram, remédios foram adicionados à vida, talvez algum vício, alguma mania, medos se foram, medos chegaram... A saudade cresceu. E cresce todo dia, o problema é que a distância também.
Não se culpe por essa herança, existem coisas que todos nós não conseguimos controlar.
Talvez não seja nada disso.

Bar

sábado, 1 de dezembro de 2012

Bem vinda ao clube dos corações vagabundos, de paixões doentias, de almas cheias de sonhos e desejos. Será que alguem nos tirará desse bar?
Desse sofrimento?
Dessa inconstancia?
Dessa dor?
Dessa.. agonia? Não, agonia não...
Apenas mais uma dose e vou parar, juro (juro com os dedos cruzados porque sei que vou quebrar meu juramento e assim não corro o risco de levar alguma punição de algum santo ou deus-apocalptico-que-monitora-juras-falsas-e-pune-quem-não-cumpre).
É... eu já sei
Garçom, outra dose sim?!