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Carta à gaveta

sexta-feira, 7 de março de 2025

 Metrópole, meio do verão.


Hoje senti vontade de te escrever. Te contar todas as coisas que andaram acontecendo por aqui, cada nova aventura incrível repleta de personagens únicos que estavam na fila do caixa do mercado na véspera do feriado prolongado. Queria comentar o final daquela série sueca que achei quase escondida no catálogo do streaming, ficar horas tecendo teorias sobre se o carro estava realmente indo para o norte ou para o sul ou tanto faz desde que ele seguisse se movendo.


Movendo... Eu ainda moro na casinha, aquela casinha que era pra ser nossa mas... O que aconteceu? De repente eu não sentia mais a necessidade de te contar que os tomates da nossa hortinha cresceram fortes e graúdos, que os temperos seguem perfumando cada refeição e que o girassol, infelizmente, secou. Ouso dizer que parte do motivo dele secar foram as formigas ou as lagartas... De qualquer forma as borboletas vieram visitar as flores coloridas do jardim do lado da varanda que você gostava de buscar tintas da mesma cor das pétalas.


Falando nas suas pinturas, ainda tem feito elas? Aquele seu quadro segue na sala, comprei uma moldura de alumínio porque os cupins comeram aquela de madeira, fiquei triste, busquei outra parecida... Mas nunca achei. Ah e aquela loja de tintas que a gente ia no shopping aqui perto fechou, o dono disse que o aluguel estava alto demais pro movimento e ia reabrir a loja na garagem de casa, ofereci meus préstimos de publicitária para ele, por um tempo ele foi meu cliente, mas coisa de uns seis meses atrás ele disse que ia fechar a loja e se aposentar, todo o material restante ele vendeu muito barato. Cogitei comprar um kit de pintura, mas... Não sei se quero passar por toda a curva de aprendizado para aprender a pintar em tela. De qualquer forma comprei alguns pincéis, se eu mudar de ideia um dia já vou ter como começar.


Como você pode imaginar sigo trabalhando na mesma área, alguns clientes saem, outros entram, às vezes me aperto na grana, às vezes tô mais folgada... É cansativo, estressante, mas eu adoro trabalhar com o que eu trabalho. Sinto um prazer inenarrável ao ver uma arte, um texto ou qualquer outra coisa que eu criei indo além dos meus domínios, indo além do que eu posso controlar, é uma delícia.


Sigo fazendo terapia, às vezes é o ponto alto da minha semana, às vezes é a paulada na cabeça que termina de me matar (metaforicamente falando) e... Fiz as pazes com meus pais, com o passado, tudo que aconteceu, aconteceu por uma razão e na época que tinha que acontecer, nada foi fora de lugar ou antecipado. De vez em quando vou visitar o lugar onde batemos, mantenho uma capelinha ali, com um caderno dentro de um saquinho impermeável onde escrevo uns poemas para eles... Quando for lá de novo tiro uma foto e...


O que aconteceu com a gente? Tudo isso que eu quis te contar, super empolgada, tenho mais milhares de coisas para te contar e você está ao alcance de um nome na agenda, é só eu clicar e mandar um áudio, uma mensagem, uma ligação... Mas não consigo mais. Não sei o que aconteceu entre a gente, se foi o oceano de distância, se foi o tempo ou só a vida que é assim mesmo... Aproxima alguns, afasta outros... A verdade é que essa distância toda, essa barreira invisível que construímos, esse silêncio todo é só o aspecto mais visível de um adeus não dito.


Talvez seja isso, talvez toda aquela enxurrada de mensagens que eu queria te enviar, toda aquela enxurrada de coisas que eu queria te contar... Não são importantes. Quando acontecer algo grande eu te conto, ou não... 


Esquece. A quem estou querendo enganar. Essa carta esta sendo escrito e vai ser postada na minha gaveta infinita de textos que nunca vão ser enviados, nunca vão ser publicados e nunca vão siquer lidos. Mas, deixo como um último verso um desejo, ainda que fino, de que esteja bem e se cuidando.


J.

Voando

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Quando eu era criança eu tinha um passarinho amarelo
Eu não entendia que ele precisava voar
Ele sempre comeu muito menos que os outros pássaros livres e acredito que daí tenha vindo a expressão
"Comer feito passarinho".
Quem disse isso pela primeira vez devia criar um pássaro numa gaiola.
Os outros pássaros lá fora comiam tanta coisa que jogavam pra eles e o meu pássaro...
Ele mal comia.
Ele também cantava muito mais alto que os outros pássaros. Ele cantava o tempo todo
E eu podia jurar que ele estava feliz.
Eu admirava suas notas inalcançáveis
Uma vez pensei em abrir a gaiola e deixar ir
Talvez tenha sido o dia em que realmente o amei. Hoje sei.

Mas ele cantava e era feliz

Ele cantava porque era feliz, afinal
Que dedução estúpida!

Quando fazia calor demais, colocavam um pote com água pra ele se molhar
Quando o tempo era frio,jogavam uma pequena manta sobre sua gaiola e
eu tinha tanta certeza que era suficiente
porque mesmo que a manta o privasse da luz do dia e talvez nem o aquecesse como esperavam, ele continuava cantando.

Hoje eu sei que meu pássaro via os outros pássaros voando e sentia que era uma ave estúpida
que tinha asas em vão
porque nunca pôde voar.

Hoje eu sei que seu canto era agonia
Que seus agudos eram tão altos quanto o desespero de estar só e preso em uma pequena gaiola.

Quando ele morreu, eu o enterrei na minha alma.
Morreu acreditando que um dia poderia voar como os outros
Com os outros
Morreu em uma manhã fria com os olhos congelados para o céu azul de inverno.

Morreu só.
E antes de morrer
Cantou.

Maestros do fim do mundo

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Ontem quando acordei de um cochilo, esperei alguns minutos pra ver onde estava, se era dia ou noite, se eu tinha acordado de fato ou se era apenas um sonho lúcido. Quando notei que estava aqui, viva, lamentei. Não queria ter lamentado, não queria falar sobre essa parte de mim que carrego amassada no bolso do casaco tentando deixar impercetível, não queria demonstrar ingratidão, não queria ter sentido aquilo, mas lamentei. "Outro dia", pensei.
Ontem me olhei no espelho e enquanto permanecia em silencio, mentalmente amaldiçoava minha existência. Desprezei tudo o que vi de mim com palavras cruéis, as quais jamais teria coragem de dizer a alguém. Me odiei, outra vez.

Comecei algo novo, me empolguei e quando me dei conta, já não fazia diferença.
Nada faz diferença. No fim eu sou sempre a mesma.
Ainda não dormi. Quase oito horas da manhã e eu ainda não dormi.

...
Só que eu sei que vou conquistar o mundo inteiro antes de sair da cama
Mas ao levantar, ele ainda será opaco.
Ao despertar, o mundo ainda será alheio.
Alheio, como tudo.
Alheio como eu.
Como as vísceras da minha alma
Todo dia é como ontem.
Ciclo que será quebrado com um inédito espetáculo.
As luzes se apagam.
A platéia cochila dispersa
E quando menos esperam
A décima quarta sinfonia de Beethoven invade o salão
Notas oscilantes
Respiração ofegante
Acordes quebrados
cacos de vidro voam e cortam
Rostos
Braços
Artérias. Artérias!
Todos fazem cara de horror ao ver tal cena
Que bela encenação! Há sangue.
Tão real
Há sangue nas mãos de cada um deles
Uns gritam, outros desmaiam de pavor
Outros choram baixo como se quisessem esconder o choro
O público está em êxtase.
Uma combinação simultânea de seis notas graves é sustentada por uma fermata.
Todos estão estáticos.
Os sons mudam
Luzes e som de sirene.
Que tumulto!
Que show.
Uma tampa de madeira se fecha sobre um corpo frio
As flores são lançadas em meio a lágrimas.
Quanta ironia.
Silêncio
A música acabou.
A terra cobre as flores, cobre a tampa que cobre um corpo que cobria tudo que ousava sentir
Corpo agora vazio.
As cortinas fecham.
Aplaudam.
APLAUDAM!
Mais alto. Não consigo ouvir.
Estou aqui, do outro lado
E sabe como é...
Aqui embaixo é bem difícil escutar qualquer coisa.

Enigmas

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sempre gostei de falar por enigmas, talvez a melhor forma de eu forçar meu lado escritor a se expressar e, assim, eu tirar algo que há em mim, seja um sentimento, uma sensação... Mas às vezes, como agora, as palavras me faltam e eu apelo pra um velho truquei meu que é buscar palavras em músicas. Você sabe disso melhor do que eu.

Sei que provavelmente você não verá a carta, talvez a chuva molhe aquela caixa de correio velha que eu já disse que você precisava trocar. Com sorte talvez ainda consiga ler, afinal estou escrevendo a lápis, agora que me dei conta disso. Sempre achei lápis mais orgânico que caneta. 

Minha letra deve estar horrível, mas nesse momento em que o céu ficou cinza e a água do meu chimarrão acabou e terminei todos os meus trabalhos eu parei, suspirei e um sentimento me tomou, precisei falar, colocá-lo para fora, por isso a carta em que eu não conseguia me expressar e preferia me expressar em forma de música que, para variar, demorei mais do que imaginei e agora estou devaniando... 

Por que quando as cartas são para você elas tem essa tendência de me tirar o rumo, me fazer olhar para a parede que um dia foi branca e hoje tem um tom amarelado? Vou terminar por aqui com a frase da música que tinha prometido várias linhas atrás:

"Sem mais eu fico onde estou, prefiro continuar distante..." (Skank - Resposta)

Penteadeira

domingo, 23 de outubro de 2016

Olá pai, Lilian, jana...

Sei que vocês não vão me entender, que talvez queiram sair atrás de mim desesperadamente, que acham que eu não sou capaz de me virar sozinha. Talvez eu não seja. Mas convenhamos que chegou a hora daquela menina que, anos atrás, só dava problemas, correr atrás da sua vida. Correr atrás do que ela acha certo na vida e, assim, tentar reparar algum erro que possa ter deixado para trás. Somem essa carta à última e... mais ou menos entenderão o que fui buscar.

Pai e Lilian, sei que fiz um monte de coisa errada e agora estava tomando rumo na vida. Obrigado por me ampararem naquela fase difícil que, nem eu sei como, fui parar. Desculpe a quantidade de merdas que fiz, a quantidade de preocupações, de sofrimentos e outras coisas mais.

Janaína, pois então... não sei como dizer isso pra você. Mas precisei te dar o cano de novo. Não quis te esperar de manhã porque sei que, assim que chegasse, eu não iria querer sair. Sei que eu ia acabar enxergando minhas conquistas só mudando minhas atitudes e não mudando de ares. Acredito que vá dizer que ir embora assim é bobagem e tudo mais, mas uma hora vai entender.

No mais não vou escrever mais. Só peço que confiem em mim. Preciso desse tempo longe de tudo e de todos pra me achar, sabem? Quero ver quem é a Helena dentro desse corpo, dentro dessa mente. Não vou sumir e pretendo mandar cartas para vocês de tempos em tempos, quem sabe email, ligações... 

Só peço uma coisa: não tentem me encontrar. Não agora. Preciso desse tempo comigo mesma.

Com amor,
Helena.

Mefistófeles

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

É estranho escrever estas linhas. Sério. Eu já comecei esse tipo de carta tantas vezes que não posso me lembrar. Não sei nem se chego ao fim dessa, se a motivação que me colocou a pena à mão se manterá conforme redijo. Muito provavelmente a vontade e o desejo de partida sejam maiores do que a minha capacidade de me manter em pé.

Hoje provavelmente está sendo um dos piores do ano e por isso essa motivação. Não, não teve um grande acontecimento, algo que me fizesse querer desistir nessa altura. Nada demais, apenas a complexidade de tudo, a necessidade de manter tudo junto, de manter todas as marionetes presas aos dedos e de mante-las se movimentando. Explico: eu acredito que todas as coisas da vida são marionetes que controlamos. Na infância temos as marionetes de brincar e de estudar, depois vai aumentando a quantidade de fios, de marionetes... até tudo funcionar certinho muita gente se ferra. Entre elas eu.

Não vou fazer aquele discurso de "ah como o sistema é mau" e de como tudo que nos cerca nos poda e nos impede de sermos o que queremos/podemos/vamos ser. E não venham dizer que "ah, mas ninguém pode correr pelos teus sonhos, você tem que se virar". A vida é linda em postagens de rede social onde "casal 'larga tudo' e viaja o mundo". Se fosse tão simples todo mundo fazia. E esse "tudo" que eles tinham era o que? A casa dos pais? Pff. A vida real, de quem ganha o suficiente pra existir e manter meia dúzia de pequenos vícios (pequenos e baratos) não comporta esse tipo de fuga. 

Mas não é disso que essa carta trata. Ela trata de mim e do meu convívio constante com as minhas inquietas sombras. Se você, que está lendo, não conhece sugiro ler Fausto, do Goethe e Dom Casmurro, do Machado de Assis. Mefistófeles cada dia que passa vem com um discurso cada vez mais afiado e mais convincente. Não é uma carta suicida ou coisa que o valha, mas é uma carta que, caso aconteça algo, vocês já saberão o que aconteceu, o que me tirou a pena das mãos, o que me "libertou". E não venham com aquele papinho de "ah, mas suicidas vão pro inferno" porque eu não acredito nisso, não sou ateia (existe esse termo?), mas também não acredito nessa bobagem de céu e inferno. O "algo superior" que existir deve ser alguma forma alienígena com tecnologia/capacidades cognitivas superior à nossa. Ou isso ou as coisas do próprio universo como "tempo" ou "gravidade". Mas nada de deus sentado num trono de nuvens ditando as regras como uma criança mimada jogando the sims.

Enfim, como em tudo nos últimos tempos, me perdi e acabei falando coisas além do objetivo inicial da carta que era uma carta em tom de despedida. Não vou me matar (pelo menos não tão logo, ainda tenho algumas coisas penduradas que gostaria de resolver), mas vou passar a me isolar mais e mais até que não sobre muita coisa ou ligação com as pessoas. E se isso parecer um pedido de socorro abafado por uma doença sem cura. Touchê. Você entendeu o espirito da coisa. Quem quiser vir tentar me ajudar venha, mas venha disposto a ajudar de verdade, ajuda do tipo "fique bem, tão bonita e aí enfurnada num quarto" será rechaçada. No mais, até logo. Ou não.

Atenciosamente,
Helena.

Eduarda,

terça-feira, 18 de novembro de 2014

não sei como começar uma carta pra você sendo que você nunca vai ler, mas existem tantas coisas que eu queria que você soubesse... Tantas coisas que eu queria ter a chance de dizer. Acho que escrevo agora pelo meu direito de resposta que foi negado pela vida e, infelizmente, por você; escrevo pra mim mesmo e não sei, definitivamente, o que fazer com essas palavras.
Não sei descrever isso que estou sentindo agora. Queria que você pudesse me ver. Eduarda, você deveria saber que eu nunca poderia ser capaz de te odiar. Nem quando você me disse aquelas coisas tão terríveis eu te odiei. As coisas só não fizeram sentido.
Eu queria passar a vida do seu lado, não entendi como isso podia ser tão assustador pra você. E agora tudo faz sentido. Fico triste em saber que não estive do seu lado por esse tempo, você foi sempre tão forte e tão teimosa. Sua força sempre foi algo que eu admirei. E sua teimosia algo que eu detestei, e é justamente isso o que me irrita agora.
Duda, você fez tudo errado, meu amor. Eu queria estar com você nessa hora. Teria vivido os cinco anos mais felizes se tivesse vivido com você. Eu nem sei dizer como minha vida poderia estar diferente agora... Eu não queria que você tivesse passado por isso tudo sozinha.
Eu preciso dizer que nunca acreditei naquelas coisas que você disse... Foi um dia miserável aquele que era o mais importante da minha vida. Eu me senti o homem mais idiota e vazio. Cheguei em casa naquele dia e tomei um porre. Passei o mês inteiro tentando encontrar justificativa pra tudo. Tentei te procurar tantas vezes e quando você só me deu silêncio como resposta, eu desisti. Tinha meu orgulho e achava que você realmente não me queria mais. Eu via nos seus olhos o quanto me amava, mas preferi acreditar no que sua boca me dizia.
Hoje vejo o quanto fui tolo. Mas o que fazer? Eu não tinha o direito de quebrar o teu silêncio e invadir o teu espaço. Por isso me calei.
Passei meses e até os anos seguintes considerando uma visita sua, e confesso que a visita da tua mãe me pegou de surpresa. Cinco anos se passaram e eu não esperava mais nada, menos ainda a visita da sua mãe. Foi só vê-la pra saber que algo estava mal. E tudo estava mal. Peguei os embrulhos dela que estava com os olhos vermelhos, dei um abraço e ela só pediu que eu lesse tudo e a procurasse no final.
Na mesma hora subi pro apartamento e abri a primeira carta, a que estava separada das demais. Só consegui ler ela. E a minha vida nunca mais foi a mesma depois dali. Precisei de um tempo pra conter a emoção de sentir teu cheiro, de reviver todos os dois anos em segundos. De aceitar teu fim tão trágico. E o meu recomeço, já que eu tinha um filho e nunca tinha sido pai.
Eu não sei dizer, Eduarda, como estava a minha vida. Eu a vivia da maneira que achava bem. Saía com os amigos, alguns relacionamentos, nada sério. Emprego, casa. Rotina. Meio vazia, mas confortável.
Sua carta me arrancou um pedaço, mas também me permitiu recomeçar.
Obrigada por mesmo tarde ter me respondido... Eu ainda não li as demais cartas, essas que você passou escrevendo sem me enviar. E não sei quando vou ler, mas pretendo demorar bastante, quero de alguma forma fazer esses momentos durarem. Eu nem sei se estou pronto pra isso.
Eu não estava pronto pra aceitar o seu fim, mas é assim que são as coisas, não é? A vida é assim.
Quando tive coragem de sair quando terminei de ler a carta, tomei um banho e fui atrás da sua mãe. Ajudei a ela com as coisas que precisavam ser resolvidas... Fiz as coisas meio que mecanicamente. Tive a ajuda do nosso amigo João. Não tinha cabeça pra nada.
Até quando as coisas são terríveis, você consegue me surpreender... No meio dessa tristeza toda, ter visto aqueles olhos do moleque... Samuel, você o chamou, como é lindo. Ele tem teus olhos e o meu sorriso. Como pode ele ser tão a nossa cara assim? Quero ser o melhor pai do mundo. Queria tanto que tu pudesse ver tudo isso, Duda. Queria tanto que tudo tivesse sido diferente...
As coisas estão tão novas agora. A minha vida não está vazia mais. Você faz falta, como sempre fez, mas parece que alguma coisa nos liga agora. E eu tenho certeza que vem do Samuel. Parece que você está aqui o tempo todo, Eduarda. E fique, por favor.

Existem coisas que não couberam aqui. O meu amor não cabe aqui. Eu queria te enviar uma carta pra contar cada detalhe do nosso filho, queria te descrever exatamente cada sentimento que tenho, cada pedaço de mim deseja você inteira, mas eu sei que agora, de onde você tá, com certeza não precisa de nenhuma descrição... Eu vou encerrar isso aqui.
Espero ser um bom pai e que você me aprove.
Eduarda... eu queria te dizer mais uma vez: eu te amo.

Com amor, 
Samuel.

em resposta à "Para Sempre Sua" http://anotherletterforyou.blogspot.com.br/2012/04/para-sempre-sua.html.

Há uma luz que nunca se apaga

domingo, 9 de novembro de 2014

Não sei como te chamar, não quero usar teu nome aqui porque eu nunca te chamei pelo teu nome. Em contrapartida já não me sinto íntima pra te chamar pelo apelido.
Uma das piores coisas em ver alguém partir é não saber quando esse alguém vai voltar e se ele vai voltar. Já ficou clichê sentir sua falta. Eu perdi as contas de quantas pessoas já me ouviram falar a seu respeito, mas nunca é suficiente. Eu falo de você como se em algum momento essa coisa aqui dentro fosse passar, mas nunca passa. Falo de você como se falar fosse te trazer de volta, mas nunca traz. Não vai trazer. Sabemos que essa é mais uma carta que você nem vai ler, mas como esse fiapo de esperança estúpida dentro de mim nunca morre, continuo a escrever.
Acontece que sempre me vejo tanto em você! É aquela coisa saudosista de dizer que você é a continuação do que eu sou ou vice-versa. Não tenho mais tempo pra saudosismo, eu sei. E você não tem mais paciência, eu sei. Sabemos. Essa é a última vez, prometo. (E provavelmente essa é uma daquelas promessas que vou quebrar sem nem protelar.)

Desculpa por ser tão clichê, mais uma vez. Sei que não gosta. Desculpa por não estar usando xadrez, eu sei o quanto você gosta. Desculpa por entupir os salgados de ketchup, sei que você olha com cara feia mesmo dizendo que "gosta de ketchup", você nunca coloca em nada e torce o nariz se colocarem no seu lanche!
Desculpa por nunca mais ter devolvido seu CD favorito. É que manter isso aqui é como manter parte sua comigo.
Nesse momento você deve estar tomando absinto português e vendo coisas que nem existem - ou talvez existam em uma outra dimensão -, isso se não estiver tocando baixo, o que também é provável. Mas se estiver bebendo, sei que exatamente daqui uma hora você vai sentir vontade de voar, vai chorar. Vai chorar muito. Eu me pergunto pra quem você liga agora quando chora. Me pergunto se encontrou outra pessoa pra segurar tua mão e voar sem direção. Desculpa por desejar tanto que você não tenha ninguém agora já que não está aqui comigo. Não aprendi a te dividir, não aprendi a deixar ir aquilo que nunca me pertenceu. É que aquele dia você me beijou e eu esqueci de todo o resto do mundo. Eu decorei os teus lábios. Céus! EU DECOREI OS TEUS LÁBIOS. Isso me faz sentir mais louca do que o comum. A diferença é que quando você estava aqui comigo, eu nunca era louca. Aquilo era convicto.

Quão patético é chorar ouvindo The Smiths e lembrar do seu abraço? Como me desfaço disso? Você me prometeu cinquenta anos de conversas intermináveis e hoje não responde nem a um "oi" meu.

Eu nem ia escrever essa carta. É que eu vi uma pessoa devorando um sanduíche naquela lanchonete que frequentávamos e era exatamente o seu jeito de mastigar as coisas. Era engraçado. Eu resolvi escrever isso porque me fizeram uma pergunta, eu fiquei tímida e mudei de assunto imediatamente. Eu fiz aquilo que você fazia de ficar um seis segundos em silêncio olhando pra baixo e mudar de assunto, ainda olhando pra baixo. Isso sempre foi coisa mais sua do que minha. Todas as minhas atitudes sempre foram mais suas do que minhas.

Sinto sua falta. Volta um dia, tá? Nem que seja pra me cobrar teu CD. Tô com saudade da sua voz.

Espero que esteja bem.
Com amor,
A menina da camiseta do prisma.

Onde as ondas quebram.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Quando eu te conheci estávamos bem perto da praia. O mais irônico da situação é que eu nunca tinha visto o mar, eu não fazia nem ideia de como nadar. Você me segurou pela mão e me mostrou a sensação nova de correr descalça na areia. Me mostrou o quão grande a praia é e, maior ainda, me mostrou o mar em sua forma mais majestosa. O grandioso rei mar. Tão grande que eu não podia ver seu fim, nunca vi, nunca consegui imaginar, muito menos quando sentia a sua mão junto à minha.
Pouco a pouco você foi me mostrando tudo o que eu nunca tinha visto.
A noite caiu, foi então a minha vez de te mostrar algo. Te apresentei cada uma das constelações no céu, dei seu nome àquela estrela que achei o brilho mais intenso. Nos beijamos e eu dormi nos seus braços.
Despertamos com o sol que nos tocou a pele antes que o sono fosse totalmente embora. Acordei com a cara de preguiça de sempre, sorri de canto ao ver seu cabelo também desajeitado, perdemos a noção do tempo quando vimos o belo astro sair das águas e cobrir por completo o céu com seu manto de luz. Vi seus olhos vidrados nos meus como quem queria dizer algo, entendi que já era hora de experimentar o mar. Novamente você me segurou e me levou até o início, onde as pequenas ondas se quebram. Senti aquela imensidão líquida aos poucos me empurrar de volta pra areia, as vezes me levava pra ele. Tive medo e te olhei. Vi a naturalidade com a qual você encarava tudo aquilo.
As pessoas começaram a entrar em pequenos barcos porque os ventos estavam favoráveis para um passeio. Você me colocou dentro de um barco. Remamos até certo ponto. Eu nem sabia remar! Lembra disso? Foi você quem me ensinou. Remamos incansavelmente... Então você disse que já era hora de eu aprender a remar sozinha. Te vi pular nas águas que ainda me apavoravam, você nadou até o cais e ficou ao longe me observando. Não tive tempo de te dizer nada, não consegui questionar, não pude pular na água porque eu nunca soube nadar. EU NUNCA SOUBE NADAR E... CÉUS! O QUE TE DEU NA CABEÇA PRA DEIXAR UMA PESSOA QUE NÃO SABE NADAR SOZINHA EM UM BARCO QUE NINGUÉM SABE PRA ONDE VAI?
Meu coração disparou, depois apertou, em seguida chorei feito uma criança que se perde dos pais. Eu te via o tempo todo, mas você já não podia me ouvir. Eu te chamava, mas você nunca escutava. Eu queria que você voltasse, mas eu nunca soube bem o que fazer.
Enquanto o desespero me consumia, peguei os remos e lembrei. Lembrei de tudo o que aprendi na minha viagem com você. Lembrei como remar, como voltar pra praia. Lembrei de cada milésimo que me levara até ali.
Hoje estou sentada no cais observando o mar e observá-lo me faz lembrar de tudo o que tentei esquecer. E tudo o que tentei esquecer, foi o que me salvou de me afogar em mim. Todos os meus medos se tornaram barcos à deriva, nada além.
Eu fico aqui olhando a mesma paisagem esperando você aparecer subitamente, tapar meus olhos e sussurrar no meu ouvido: "adivinha quem é?"

Carmélia,

sábado, 11 de outubro de 2014

vá embora.
Não sinta saudade, não olhe para trás, não cozinhe para mim. Acorda, mulher, vá cuidar de você. Nunca cuidei de você, por que você cuidou de mim? Porque lavar, passar e cozinhar pra um homem como eu? Eu nunca pedi isso, mulher. Vai embora. Você não precisa de mim.
O que eu te dei que você não possa conseguir?
Meio tostão furado, uma casa qualquer, algum cartão de crédito. Na verdade, é tudo teu.
Recupere teu trabalho, por que fechou a loja? Você gostava tanto.
Eu nem gosto mais de você. 
Gostava daquela garota apaixonada pelos doces que fazia, encantada com as pessoas diferentes que frequentavam aquela loja em que eu também frequentei. Me prendi nos olhos da moça, gostei tanto tanto tanto dela que a quis pra mim.
Te conquistei com três cafés. Palavras apaixonadas e passeio de mãos dadas.
Queria ela só pra mim. E tive.
Mas ela foi embora com o tempo. Acho que matei minha Carmélia quando quis que ela fosse mais minha do que dela. Morreu a minha garota. 
Se foi o brilho nos olhos da moça, nem mais doce e nem mais graça nas pessoas.
Roupa lavada, casa limpinha. Poucos amigos porque é só minha a minha garotinha.
Perdeu a vontade de ir aos lugares, perdeu a curiosidade que eu admirava. 
Vá embora, mulher. Fui um assassino. Assassino de você.
Retome tua vida, pelo amor de deus, me deixa. Case-se consigo, mulher, e cuida mais de ti do que cuidou de mim.



com (pseudo)amor, 
o seu bem querer,
arrependido por assassinato de você;
João.

Requiém de uma tempestade

domingo, 30 de março de 2014

Abri os olhos antes das nove da manhã. Não era o horário que eu acordava frequentemente, mas o sono simplesmente desapareceu. Perdi alguns minutos do meu tempo enrolada nos edredons observando as cores do meu céu. Há tempos meu universo era aquele quarto onde quase tudo era branco e marfim. Sentei na poltrona próxima à janela, abri as persianas, vi que o sol bradava lá fora. Haviam crianças brincando na pracinha em frente ao prédio. Invejei-as. Senti falta de quando a vida ainda tinha sabor de algodão-doce. Senti falta de quando eu ainda conseguia sentir conforto ao ser aquecida pela luz do dia ou deitar na grama dando forma às nuvens no céu.
Eram memórias distantes. Tudo o que eu passei a conhecer era sobre solidão. Descobri que a dor tinha som. Som de choro. Som de chuva. Som de música instrumental, quase como Clair De Lune. Em seus casos mais extremos, eu também poderia dizer que o som da dor se parecia com "Moonlight Sonata" de Beethoven. A tristeza tinha o mistério e profundidade da obra "The Crow" de Van Gogh. Que talvez, sofrer também fosse uma arte das mais masoquistas e sádicas ao mesmo tempo. Descobri que o poeta vive de sua angustia, dela vende e dela mantém-se vivo. E que bela ironia manter-se vivo quando tudo de mais humano em você já morreu! Artistas não fazem sentido tal como nada conhecido na existência faz sentido.
Que é o amor se não as flores jogadas sobre o túmulo de quem já desistiu de si próprio? Que é o amor, se não o último floco de neve quando o inverno acaba? Que é o amor, se não apenas um rastro de esperança mal guardada?
A vida é líquida e corre por entre os vãos dos dedos sem que ninguém perceba.
"Luz! Luz! Mais luz!" e de Goethe, faço essas também minhas palavras. Embora o quarto fosse claro, todo acúmulo de sentimentos me cegava. "Luz", gritava o espírito de Goethe assim como meu espírito grita. Mais luz.

Sinfonia silenciosa

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Aquela noite provavelmente fora a melhor e mais bonita desde que nos conhecíamos por gente. Eu devo ter dito que a amava umas cinquenta e cinco vezes em menos de uma hora. Em cada gesto, a cada toque, eu só queria mostrar o quanto a amava. Eu quis dar a ela o dia mais perfeito do mundo - levando em consideração que ela sempre dizia que a perfeição é utópica - a levei para tomar sorvete em seu parque favorito. Deitamos na grama úmida e sentimos o cheiro da chuva, da terra, da vida. Ela costumava dizer que a vida tem cheiro, sabor e cor. Era a minha maluca. Eu lembro de quando a via chorar, todos os dias. Seus olhos pareciam o céu quando anuncia tempestade, me paralisavam, me encantavam, me prendiam mesmo me fazendo querer fugir. Ela me tinha em suas mãos. Quando ela se esvaía em lágrimas, minha vontade era tirar toda aquela dor de sua alma. Sugar até a última gota de sofrimento. Ah, se eu pudesse contar quantas vezes já quis morrer para não vê-la daquela forma! Tentamos tudo o que era possível. Ela tentou, eu sei que tentou ficar bem. Sua depressão era crônica e tudo e seu único sonhou passou a ser morrer. Ela me dizia que estava bem, sorria, mas eu sabia que era mentira. Eu sabia que por trás daquele sorriso, haviam cicatrizes. Eu sabia que ela ainda lamentava existir. Eu sentia o choro preso em sua risada descontrolada, parecia querer explodir e eu torcia pra que isso acontecesse, porque no fundo eu acreditava que se ela colocasse pra fora, tudo melhoraria.


Eu errei.

A dor nunca mudou, ela aprendeu a esconder cada vez melhor, apenas. Era a minha atriz favorita, embora eu odiasse seu personagem. Eu odiava aquela forma como ela lidava com a vida, como se gostasse das coisas, como se entendesse de tudo, como se tivesse o controle daquilo que diariamente a surrava e deixava-a quebrada sangrando em um canto do quarto. Odiei tanto sua dor que decidi acabar com ela. Chamei-a para sair a noite, depois do parque. Tomamos o drink favorito dela: Blue sky. Sky. Céu. Supostamente, sua futura casa. Sempre achei que ela tinha vocação pra anjo, que de alguma forma ela não pertencia a esse lugar. Esse mundo é desgraçado demais pra ela, que mesmo cheia de marra, por dentro é uma menina que acorda todas as manhãs com o entusiasmo da criança que saboreia um algodão-doce enquanto desce o escorregador, e vai dormir todas as noites com as marcas de quem foi chicoteado até que não aguentasse mais. Com a desesperança de quem viu tudo ir embora.
Naquela noite, ela iria embora.
 Levei-a para casa. Entreguei-me completamente. Fiz promessas, ela amava promessas, ela amava sonhar. Ela amava a ideia de talvez existir um "talvez". Ela amava tudo que a tirava daqui. Ao escrever essa carta, lembro de seus dedos me tocarem o rosto, os lábios, lembro de seus olhos pairarem sobre mim com um olhar infantil enquanto ela dizia: "você é a única coisa me manter viva, se não fosse por você, eu gostaria de partir, não sei lidar com mais nada." Limpei a lágrima que ousou cair. Segurei o choro. Beijei seus lábios de uma forma tão eterna que eu não poderia lhe dizer por quantos minutos aquele beijo se estendeu. Eu não seria mais o motivo dela de continuar suportando tanta dor. Ela merecia descanso. E dormiu em meus braços. Ao dormir, toquei seu rosto com ternura, ela suspirou pela última vez quando pressionei um travesseiro contra seu rosto. Os instintos humanos de sobrevivência a fizeram se debater um pouco enquanto eu chorava dizendo que a amava, ela perdeu o fôlego e serenamente partiu. Abracei seu corpo ainda aquecido enquanto minhas lágrimas se espalhavam por toda aquela matéria que agora era sem vida. A dor veio junto do alívio de salvar a minha pequena de tanto desespero. Só eu sabia pelo que ela passava.
 Hoje não há um único dia no qual eu não me lembre dela. Todos os instantes, seus conselhos, críticas e filosofias malucas se fazem presente.

Ainda me questiono se ela foi real, ou se foi sonho.
Todavia, não conheço outra coisa sobre o amor além de tudo o que ela me mostrou. Dessa forma construí o nosso "pra sempre": na morte.

Leve

domingo, 10 de novembro de 2013

Talvez aquela última conversa, na padaria tenha sido a definitiva. O celular dela, prontamente desligado ao tocar, foi o badalar final. A pá de cal. O último sopro. A última pessoa a sair do prédio antes da implosão. Conversaram mais um ou dois minutos ao fim do sino. Não mais que vinte palavras. Ela o viu sair pagando o chocolate quente e um serenata de amor pra ela. Provavelmente ela estava crente de que ele voltaria ali nos próximos dias, sempre com um pretexto diferente, como se buscasse sempre reencontra-la. Ele saiu colocando o capacete sem a vontade de voltar. Coração partido? Sim, claro. Mas, por mais estranho que possa parecer, tranquilo. Porque ele a deixava com outrem cuidando dela. A emoção tomou conta dele ao subir na moto e dar a partida saindo rumo a sua casa, no litoral. Uma lágrima ousou sair de seus olhos e molhar seu rosto. Ao chegar em casa havia uma carta na caixa de correio. Conta? Não. Letra bonita. Algumas notas musicais ornavam o envelope. A pianista. Ele suspirou entrando e lendo as poucas linhas. Ela agradecia por tudo, mas tinha se encontrado com um velho amigo e esse lhe fez uma proposta daquelas impossiveis de recusar: passar dois anos estudando piano em Viena, Austria.

No fundo ele sabia que o romance com a Pianista duraria pouco. Durou o suficiente pra se tornar inesquecivel. O mesmo que havia acontecido com ela. Claro que ela era diferente. Era algo infinitamente maior, mais intenso, mais duradouro. Se ele fosse compositor comporia o réquiem agora. Mas não era. No máximo ele escrevia e desenhava, compor não era com ele. Deixou as chaves e o pão sobre a mesa. Esperou a casa perder a luz natural que trespassava a cortina. Em poucas horas deixou que as duas fossem. Pra pianista depois escreveria um e-mail lhe desejando sorte e tudo de bom e não esquecer de visita-lo quando voltasse. Para ela... para ela... subiu à laje vendo o sol sumir aos poucos e as nuvens adornando-o com uma coroa. Fechou os olhos, sorriu e, mentalmente escreveu uma pequena carta onde, resumidamente, despedia-se dela. Ao abrir os olhos se sentiu mais leve. Leve ao ponto de saber que ela, certamente, receberia a mensagem e ficaria e tiraria os pés do chão se deixando levitar, quem sabe até voar acima das nuvens. Assim como ele fazia agora. Leve de leveza, leve de beleza, leve com certeza, leve com clareza, leveza de leveza.

Coleção de despedidas

sábado, 26 de outubro de 2013

Meu amor;

Tirei a roupa, abri o chuveiro e tentei lavar a mente, a alma, o coração, em vão tentei tirar de mim qualquer sentimento que me fizesse sentir tamanha dor. Lembrei de quando eu tinha quatro anos de idade, o primeiro dia na pré-escola. Eu realmente não queria ir, porque não me cabia sair do meu mundo que até então se resumia a um jardim, um balanço feito com um pneu amarrado em uma corrente e uma caixa de areia com baldes e pás. Tudo o que eu sabia da vida se resumia nisso. Tinha o céu também, que eu achava que era meu. Eu gostava de ver as nuvens também, jurava que em algum momento elas "cairiam" ali no meu quintal e teriam a mesma textura de um colchão, então eu brincaria em cima delas. 
As únicas pessoas que eu conhecia eram os meus pais, meu irmão e meus avós. Conhecia alguns primos. Era confortável, eu não precisava de mais nada, no meu jardim tinha a minha árvore gigante, tinha as minhas flores favoritas, existiam também os insetos que eu gostava de observar. Eu não precisava de mais nada, era feliz daquele jeito. Não me era cabível a ideia de estar em um lugar cheio de crianças desconhecidas e maldosas com uma professora gritando comigo por eu ter feito alguma atividade errado. No meu primeiro dia de aula, senti a dor de uma ruptura. Chorei, gritei, grudei na minha mãe, implorei que ela não me deixasse lá... Não teve jeito. Passei ter que encarar aquilo e levei até onde pude. Eu não estava disposta a abrir mão do meu mundinho para enfrentar o mundo de verdade - eu nunca estive - e eu ainda não estou.
Dois anos depois, a minha avó materna morreu. Pela segunda vez, algo se rompeu em mim. Eu não sabia muito bem o que era "morrer", não sabia direito o que era "perda", tudo o que me disseram é que eu não a veria mais, nunca mais. Desde então, a morte se tornou sinônimo de "não ver a pessoa nunca mais", e muita gente tem morrido por aqui - ainda que respire.

Continuei a crescer e perder. Perdi a empolgação que eu tinha em todo Natal. Perdi o entusiasmo que eu tinha em relação a tudo. Perdi a energia que tinha pra correr. Perdi os meus melhores amigos. Perdi a confiança nas pessoas. Perdi a alegria que eu sentia ao ganhar aquele picolé azul, ou ao comer pamonha (hoje eu detesto pamonha). Perdi palhetas. Perdi pedaços de chocolate que guardei na geladeira. Perdi coisas bobas, perdi coisas que valiam muito também. Perdi coragem. Perdi forças. Perdi você. E quando perdi você, parece que perdi tudo o que ainda tinha restado, embora eu já esteja cansada de ter de sussurrado isso pra você nas minhas noites de febre enquanto sentia a sua falta.

Sabe o que me deixa mais perplexa? Em cada uma das minhas perdas, eu sentia novamente a dor de todas as perdas anteriores. Todas rupturas novamente. A simples ideia de perder qualquer coisa, por menor que seja, me assusta, porque eu já sei que a dor será insuportável. E depois de tudo, eu me apaixonei. Meu amor, eu me apaixonei por outra pessoa. É estranho te dizer isso, porque eu te amo, mas me apaixonei por outra pessoa e também passei a gostar de outra. Nem eu entendo, as vezes juro-de-pé-junto-e-amarrado que sou completamente maluca. Com a pessoa que gosto, eu acho que consegui superar alguns traumas do passado, coisas que só você soube dos detalhes. Fiz o que planejava ter feito por você, com você. Me perdoe (?) por isso. Só que hoje, tudo me feriu de uma forma bem voraz. Eu vi o metal correr pela minha pele enquanto o sangue escorria e não gritei. A pessoa por quem eu me apaixonei também me disse "adeus", assim, sem dizer. Não sei se você vai me entender. 
Hoje, enquanto eu estava no banho, já não sabia mais distinguir o que era lágrima e o que era só a água do chuveiro. Perdi as forças, sentei no chão e chorei. Chorei, porque todas as rupturas vieram de uma só vez. Chorei e questionei mais uma vez o motivo de você não estar aqui, porque se você não tivesse morrido, eu te ligaria e te ouviria. E eu sei que falaríamos coisas sem nenhum sentido. Sei que eu perguntaria qual país você acha mais interessante, ou discutiríamos sobre MMA. Poderíamos até falar dos coalas de chocolate que vendem no bairro da Liberdade até você dormir como sempre fazia. E eu ficaria ali por horas em silêncio ouvindo a sua respiração leve. Eu poderia ao menos fingir que sou feliz, por algum tempo eu acreditaria que tudo estava bem e eu não precisava de mais nada porque você estaria lá pra me fazer esquecer o resto do mundo, mas você não está.
Eu não tenho pra onde correr. Minha mãe não faz mais chá de camomila pra mim quando me vê chorar. O meu pai está bravo comigo, eu vivo estragando o carro dele e pegando multas, as vezes nem fui eu e ele diz que a culpa é minha. Amanhã eu tenho um vestibular pra fazer, e pra ser bem honesta com você, eu não vou. E não vou porque sei que não vou passar. E digamos que, se por ironia do destino eu tirasse nota suficiente pro curso que planejei, quando começar a data da matricula da faculdade, estarei trancada em uma clínica de reabilitação. As vezes sinto que estou perto de te encontrar, seja lá onde você estiver, no céu, em algum canto do universo, ou em qualquer lugar espiritual hipotético, eu sinto que estou perto de te encontrar. Nem que seja estar perto por também estar debaixo da terra. Não sei se ainda creio em mim e sei que por isso devo te pedir perdão. Todos os dias cometo erros. Todos os dias. Eu sei que é patético escrever assim sabendo que você não lerá ,que você nunca vai saber nada disso aqui nesse planeta, mas eu preciso contar, preciso te dizer que eu estou quebrada, que eu queria que as pessoas nunca partissem, que o "adeus" não existisse. Preciso dizer que não sei ser sozinha e não sei estar com alguém sem levar esse alguém pro abismo comigo. Preciso dizer que lutar por mim é dar murro em ponta de faca, porque você tinha razão, de fato eu sou "impossível" de tão teimosa. Eu preciso dizer que sinto falta da tua voz. Eu ainda amo você.

E eu sempre vou amar você.

Estrela

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Oi, sei que o momento não é o mais oportuno, imagino que não esteja bem com toda essa situação, eu mesmo também não estou. Mas acabei decidindo meio unilateralmente isso. Porém sei que devia desejar isso havia algum tempo... não vou fazer acusações nem nada do tipo. Estou cansado demais pra isso. Só quero te desejar que fique bem. Eu vou sumir por algum tempo. Rodar por aí, buscar novas inspirações, quem sabe me perder mais ainda e, assim, me encontrar.

Não é fácil, e ninguem nunca disse que seria, mas é necessário. Assim como te fiz parar de sofrer por feridas antigas, fizeste o mesmo comigo. Fomos importantes um pro outro assim. Desejamos e nos cuidamos até agora, o momento em que ganhamos alta de nosso tratamento mútuo. Podemos deixar a cadeira de rodas para trás e seguir com nossas próprias pernas. No começo vamos fraquejar, podemos até voltar a cair. Mas... já sabemos como é ficar em pé. Por isso sei que vamos conseguir nos levantar por nós mesmos e seguir adiante.

Espero que se cuide e, mesmo não estando presente, vou deixar uma estrela cuidando de você. Sei que logo vai achar nos olhos de alguem o brilho que deve ter achado nos meus. Claro, não tão brilhante (hahahaha) mas, ainda assim, alguem que irá te cuidar melhor do que eu cuidei. Alguem que não vai cometer as mesmas burradas que cometi, alguem para... amar.

Cuide-se.
~ Eu.

ps.: vire a folha achará a estrela que te prometi.

*verso*


Inacabado

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais uma manhã entre tantas outras, onde eu sequer lembrava se tinha dormido ou não. A luz do sol entrava pela janela e transpassava as camadas finas de cortina branca estampada, cujos desenhos eram refletidos sobre a mesa da cozinha. Cozinha que lembrava cozinha de sítio, ou casa pequena interiorana. Devia ser cerca de sete horas da manhã. Eu me recordo de encarar o calendário-imã colado na geladeira e tentar lembrar sobre como eu tinha passado os dias anteriores. Doze meses, 366 dias. Ano bissexto. Os domingos eram marcados por tinta vermelha que inevitavelmente associei a sangue, que acreditei não estar mais correndo em minhas veias. Que associei a dor. Que associei a perda. Que associei a mim. Eu tinha me perdido e nada poderia doer mais do que isso. Que seja. Os sábados não tinham marcação especial, como se não houvesse nada de especial neles também. Será que dor tem limite? Porque se tiver, posso dizer que cheguei próximo, se não tiver chegado ao limite. Cheguei a ponto de desligar qualquer percepção sobre o ambiente a minha volta. Desliguei as minhas reações, desliguei a compaixão, desliguei o senso de justiça, desliguei tudo o que podia me trazer uma lágrima, e embora meu rosto estivesse molhado ao observar o calendário e buscar lembranças, eu posso lhe afirmar que não senti nada. Nem sei o porquê do choro. Meu corpo estava tão amortecido que eu poderia apanhar até a morte sem gritar. Acredito que aquela lágrima veio da ultima parte de mim que ainda podia sentir. Daquele lado escondido, como um estepe, em caso de querer retornar à vida. Era a minha ultima parcela de humanidade morrendo, mas antes, lamentando pela própria morte. Pela minha morte. Por um corpo que carregava um espirito sem vida. Era o luto ao perceber que a vida passava por mim, os dias se foram e se desfizeram como fumaça no ar. Passaram sem nada que os justificassem. Como se todo o tempo “vivido” até então, fosse perdido.

Saudações da Terra

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Olá ser de outro planeta que não é a Terra. Primeiramente deixe eu me identificar: eu me chamo (ou chamava, não sei quantos anos levaram pra achar essa "arca" com algumas coisas típicas da Terra junto da minha carta) Danilo. A Terra é o terceiro planeta próximo à uma estrela amarela no braço de Órion, que é onde existem três estrelas quase juntas, formando um paralelo. Creio que, mesmo que possam ir até esse planeta agora, não me encontrarão. Não duvido nada que não encontrem mais a raça a que eu pertencia. Os homos sappiens.

Eramos um povo, na essência, até pacífico, a grande parte de todas as pessoas que viveram em nosso querido planeta viveram em harmonia umas com as outras. Umas poucas causaram divergencias entre si e arrastaram multidões até suas guerras sem sentido que acabaram consumindo muitos recursos que hoje, no instante que escrevo essas linhas, já são escassos e se aproximam de um fim eminente. Não sei o quê acontecerá com a humanidade (que é a forma como chamamos o grupo de homo sappiens que dominou o planeta) e com as outras espécies que habitam o planeta.

Enfim... dentro deste baú existem alguns livros, que foi a forma mais importante do homem aperfeiçoar durante a vida, diversos destes livros que estão aqui fizeram parte da minha vida, da forma que eu aprendi a ver o mundo. Um livro de história, um de contos de fadas (no proprio livro verão uma explicação pro que são as fadas), um livro de poesia e mais alguns livros diversos... nenhum de minha autoria.

Coloquei, também, fotos de lugares bonitos, de construções, de obras de arte, da fauna, da flora e dos humanos no seu cotidino. Trabalhando, estudando, comendo, dormindo, amando (no meio dos livros há um dicionário, vão encontrar o significado de "amor" lá... não o total significado, esse só vão encontrar dentro de vocês mesmos)... enfim, vivendo!

Dentro, também encontrarão, algumas formas terráqueas de expressar o que sentem: música. Vão achar desde música que chamavamos de clássica até o que chamavamos de pop. Junto coloquei um aparelho que possibilita ouvir tudo isso, afinal não sei quais são suas tecnologias e formas de expressão.

Apesar de não parecer, nossa cultura foi bastante produtiva, os múitos séculos de evolução em nossas tecnologias me permitiram criar essa arca e manda-la até vocês, estejam aonde estejam. Espero que consigam visitar meu planeta e que ele ainda esteja habitado por humanos... se, no primeiro contato, os humanos parecerem arredios não se preocupem. Essa é a forma que nós encontramos de nos defender do que não conhecemos. Mas insistam, procurem demonstrar que o objetivo de vocês é a paz e o contato entre os povos dos dois planetas.

Atenciosamente,
Danilo, um terráqueo.

Sob a Árvore

sexta-feira, 29 de junho de 2012


Oi, primeiro me perdoe, demorei muito para escrever. Admito que fiquei chocada quando descobri que era você quem estava por trás de tudo isso. Sempre imaginei que um dia pudesse a vir fazer isso mesmo, mas nunca esperei que fosse fazer de verdade. Na primeira carta achei que reconhecia aquele estilo de escrever, aquela forma de descrição... quis acreditar que não era.

Quando a segunda carta chegou eu já tinha me dado conta de que eras tu e me afastei, pedi para ser tirada do caso. Soube que pensou o contrario. Não. Dadas aquelas circustâncias eu não podia permanecer investigando. Disse, ao fim de todas as cartas que gostaria de me ver novamente na investigação. Por que se eu já sabia quem era?

A terceira carta recebi diretamente das mãos da menina. Ao terminar de ler sorri de canto e afaguei o rosto de Emilly. Assim como estava feliz em vê-la viva e, relativamente, bem, eu me preocupei com o que faria. Disse aos policiais para correrem, despachei ao mesmo tempo uma ambulância para o lugar que jovem ruiva descrevera. Por sorte lhe acharam vivo. Quando o rádio deu a notícia da sua captura me joguei ao sofá que há dentro do bureau observando o interrogatório dela até a chegada de seus pais... os olhos são lindos como sua descrição dizia que eram.

Depois que tive a certeza que ficaria preso, depois do julgamento, muito provavelmente em um hospital psiquiatrico recebi duas semanas de folga. Sabia disso também, não é? Pois deixou para a carta final no último dia, quando eu estaria voltando. Volto a pedir perdão, pois outros detetives acabaram lendo suas derradeiras linhas. Quando a noticia chegou à mim faziam algumas horas do ocorrido. Chorei dias seguidos depois de sua cremação. Coloquei as cinzas sobre a mesa de jantar e conversamos por horas... ao fim disso fui até aquela nossa montanha - o dia já amanhecia -, abri a urna vendo toda a cinza sendo levada pelo vento.

Agora estava livre. E eu, tranquila por estar livre. Plantei lírios aqui ao lado da árvore, sei que eram suas flores preferidas, deixo, junto às flores essa carta, sei que, onde quer que esteja, irá lê-la. Obrigada por tudo e espero que, um dia, Deus tenha a bondade e a piedade para que nos reencontremos novamente. Também lhe amo pai, obrigada por tudo.

Com amor, Margery.