Schorodinger
domingo, 12 de abril de 2020
Postado por ~ Lu ~ às 16:46Tudo
sexta-feira, 27 de março de 2020
Postado por ~ Lu ~ às 10:00Voando
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Postado por Amelie às 23:15Quando eu era criança eu tinha um passarinho amarelo
Eu não entendia que ele precisava voar
Ele sempre comeu muito menos que os outros pássaros livres e acredito que daí tenha vindo a expressão
"Comer feito passarinho".
Quem disse isso pela primeira vez devia criar um pássaro numa gaiola.
Os outros pássaros lá fora comiam tanta coisa que jogavam pra eles e o meu pássaro...
Ele mal comia.
Ele também cantava muito mais alto que os outros pássaros. Ele cantava o tempo todo
E eu podia jurar que ele estava feliz.
Eu admirava suas notas inalcançáveis
Uma vez pensei em abrir a gaiola e deixar ir
Talvez tenha sido o dia em que realmente o amei. Hoje sei.
Mas ele cantava e era feliz
Ele cantava porque era feliz, afinal
Que dedução estúpida!
Quando fazia calor demais, colocavam um pote com água pra ele se molhar
Quando o tempo era frio,jogavam uma pequena manta sobre sua gaiola e
eu tinha tanta certeza que era suficiente
porque mesmo que a manta o privasse da luz do dia e talvez nem o aquecesse como esperavam, ele continuava cantando.
Hoje eu sei que meu pássaro via os outros pássaros voando e sentia que era uma ave estúpida
que tinha asas em vão
porque nunca pôde voar.
Hoje eu sei que seu canto era agonia
Que seus agudos eram tão altos quanto o desespero de estar só e preso em uma pequena gaiola.
Quando ele morreu, eu o enterrei na minha alma.
Morreu acreditando que um dia poderia voar como os outros
Com os outros
Morreu em uma manhã fria com os olhos congelados para o céu azul de inverno.
Morreu só.
E antes de morrer
Cantou.
Ouro — Parte 2
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 23:00Ouro — parte I
sábado, 6 de abril de 2019
Postado por Amelie às 05:39[TW: Dependência química.]
-
— Sabe que não é assim que vai resolver isso. Você não vai encontrar nada, Hel, e não vai sair daqui. Conversa comigo. — Disse Janaína a Helena tentando esconder o tom angustiado e assustado por ver a amiga em tamanho surto.
Helena passou por Janaína como se não tivesse ouvido uma palavra. Tremula, voraz, quase em transe, seguia revirando os bolsos de todas as calças e casacos que encontrava em busca de alguns trocados, uma cópia das chaves ou quem sabe um celular. Um celular seria útil. Talvez alguém pudesse passar algo pela fresta da janela do banheiro, já que Janaína ficaria atenta à janela da cozinha. Mas era utopia demais acreditar que Janaína marcaria tamanha bobeira. Estava esperta desde a última overdose. Era cuidadosa em excesso. "O jeito seria esperar Janaína cair no sono ou ir em um daqueles encontros misteriosos dela e então dar uma escapada rápida, só mais um vez não faria tão mal" pensou Helena ao tirar três notas de vinte reais do bolso de uma velha camisa xadrez no fundo do armário, a qual mal lembrava da existência. Seus olhos brilharam ao contemplar as notas. Helena sentia o corpo doer e arrepiar constantemente. Três notas que naquele momento apareceram como vislumbre de um alívio imenso.
Instintivamente, saiu andando rumo a porta quando Janaína a segurou pelo braço.
— Enlouqueceu?!
— Jana, meu corpo tá doendo...
— Hel, a gente veio pra cá pra você ficar livre disso. Lembra há quanto tempo voce tá... qual é o termo? Limpa! E eu estou tão orgulhosa de você! A gente começou a deixar a porta da sala aberta durante o dia enquanto eu estou acordada, você pode fumar seus cigarros no jardim, pintar seus quadros lá fora, confiança, lembra?
— Eu sei, Jana, eu sei, olha... Eu tô vomitando, não aguento isso. Não tô conseguindo, ok? Meu corpo tá fodido e eu tô com calafrios o tempo todo e...
— E não importa, Helena Vincent! Você não vai sair daqui, você precisa ser forte. Você é forte e sabe disso.
— "Não importa"? Foi isso que eu ouvi? — indagou Helena, olhando fixamente Janaína nos olhos enquanto seu braço continuava preso.
— Hel, para com isso. Você entendeu o que eu quis dizer.
— Eu acho que você que não entende...
— Helena... Vem, vamo deitar, ver alguma coisa na TV assim no meio da tarde... — Janaína tentou arrastar Helena pelo braço.
— Janaína, tira a mão de mim. — Respondeu Helena, inesperadamente, ríspida, fria e distante.
Janaína engoliu seco. Não disse mais palavra alguma, apenas concedeu o pedido de Helena. Aproximou-se da porta e girou a chave cuidadosamente, devagar, enquanto observava Helena por cima do ombro.
Helena acendeu um cigarro ao abrir a garrafa de vinho que a família de Janaína guardara por gerações. Uma das poucas coisas que Janaína carregava do passado. Helena sabia, mas não parecia pensar. Não parecia ser a Helena. Era o mesmo corpo, o mesmo cabelo despontado no ombro recém tingido de preto. Os pés sobre outra cadeira. Fumava enquanto bebia no gargalo mesmo o vinho.
Janaína tentou conter as lágrimas, raramente chorava mas ver Helena não sendo Helena era suficiente para fazer seu coração transbordar. Rapidamente, escondeu-se no banho e permitiu que as lágrimas caíssem. Implacáveis.
Chorou pelo que acabara de acontecer.
Chorou por não entender o motivo de ter mantido aquela garrafa por todos esses anos.
Chorou por lembrar constantemente de seus pais nas ultimas noites.
Chorou por não entender mais o que estava acontecendo.
Janaína chorou por talvez nunca ter conseguido entender a si mesma e nunca ter se permitido transbordar daquela forma. E já nem sabia mais o que lavava seu rosto: se a água do chuveiro ou as tantas lágrimas incontroláveis. Soluçava.
Chorou por Helena.
Helena.
Não podia perder tanto tempo no banheiro. Quase uma hora havia se passado. Saiu enrolada na toalha com o rosto inchado torcendo pra que Helena não perguntasse nada naquele momento... E ela não perguntaria.
Helena estava dormindo na cama de Janaína abraçada com o pato de pelúcia que havia ganhado de Janaína há tantos anos atrás.
Uma última lágrima de alívio correu pelo rosto de Janaína. "Vai ficar tudo bem" "vai ficar tudo bem" a moça dos cabelos cor de ouro repetia mentalmente de forma incessante enquanto apertava os olhos, quase que como uma oração.
"Minha filha, até o ouro passa pelo fogo pra ser refinado." Janaína lembrou da frase que sua avó costumava dizer. Essa fase lhe queimava o peito.
Talvez fosse só fogo refinando o ouro.
Girassol
sábado, 16 de março de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 12:33Loba
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
Postado por ~ Lu ~ às 22:12Maestros do fim do mundo
terça-feira, 6 de novembro de 2018
Postado por Amelie às 01:43Ontem quando acordei de um cochilo, esperei alguns minutos pra ver onde estava, se era dia ou noite, se eu tinha acordado de fato ou se era apenas um sonho lúcido. Quando notei que estava aqui, viva, lamentei. Não queria ter lamentado, não queria falar sobre essa parte de mim que carrego amassada no bolso do casaco tentando deixar impercetível, não queria demonstrar ingratidão, não queria ter sentido aquilo, mas lamentei. "Outro dia", pensei.
Ontem me olhei no espelho e enquanto permanecia em silencio, mentalmente amaldiçoava minha existência. Desprezei tudo o que vi de mim com palavras cruéis, as quais jamais teria coragem de dizer a alguém. Me odiei, outra vez.
Comecei algo novo, me empolguei e quando me dei conta, já não fazia diferença.
Nada faz diferença. No fim eu sou sempre a mesma.
Ainda não dormi. Quase oito horas da manhã e eu ainda não dormi.
...
Só que eu sei que vou conquistar o mundo inteiro antes de sair da cama
Mas ao levantar, ele ainda será opaco.
Ao despertar, o mundo ainda será alheio.
Alheio, como tudo.
Alheio como eu.
Como as vísceras da minha alma
Todo dia é como ontem.
Ciclo que será quebrado com um inédito espetáculo.
As luzes se apagam.
A platéia cochila dispersa
E quando menos esperam
A décima quarta sinfonia de Beethoven invade o salão
Notas oscilantes
Respiração ofegante
Acordes quebrados
cacos de vidro voam e cortam
Rostos
Braços
Artérias. Artérias!
Todos fazem cara de horror ao ver tal cena
Que bela encenação! Há sangue.
Tão real
Há sangue nas mãos de cada um deles
Uns gritam, outros desmaiam de pavor
Outros choram baixo como se quisessem esconder o choro
O público está em êxtase.
Uma combinação simultânea de seis notas graves é sustentada por uma fermata.
Todos estão estáticos.
Os sons mudam
Luzes e som de sirene.
Que tumulto!
Que show.
Uma tampa de madeira se fecha sobre um corpo frio
As flores são lançadas em meio a lágrimas.
Quanta ironia.
Silêncio
A música acabou.
A terra cobre as flores, cobre a tampa que cobre um corpo que cobria tudo que ousava sentir
Corpo agora vazio.
As cortinas fecham.
Aplaudam.
APLAUDAM!
Mais alto. Não consigo ouvir.
Estou aqui, do outro lado
E sabe como é...
Aqui embaixo é bem difícil escutar qualquer coisa.
Nota rápida (this is war)
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Postado por Amelie às 05:02Há bombas explodindo lá fora e eu posso ver
Pelas janelas da minha casa
Pelas janelas da minha alma também
Ando por um campo minado
O som ensurdece aos outros
Meu corpo está sendo constantemente mutilado pelas explosões
Alguns dos meus membros estão dilacerados
Não sinto.
Estou dormente demais pra sentir
Porque aqui dentro — de casa e dos meus tímpanos — ecoa alto o blues que coloquei pra tocar quando abri minha última garrafa de vinho
Tudo ainda está entorpecido
Minha velha carcaça
Meu encéfalo também
E que bênção é a ignorância!
Santificados sejam os tolos, pois não sabem a dádiva que desfrutam por exercer inocentes sua tolice, livres da culpa, isentos de saber as consequências de seus atos
Santos sejam
Bem aventurados aqueles que vivem no piloto automático
Cuja existência é livre e sem necessidade de propósito
Abençoados sejam aqueles que rastejam como vermes sobre a terra
Porque medíocres por medíocres, esses não conhecem a amargura de questionar a própria razão.
O mundo ainda explode
As mulheres gritam enquanto suas crias antes barulhentas, agora silenciam eternamente em seus braços
As ruas são rubís preciosos de jovens almas
Rubís
Olhe suas mãos, suas roupas penduradas no banheiro
Até mesmo seus travesseiros
Note, todos nós temos mais sangue fora das veias a vista do que deveríamos
Respira fundo.
Sente o frio.
A morte é fria
Vazia
Solitária
Every creature on earth dies alone
Você deveria ter visto esse filme
Agora nem dá tempo
Aquela casa em chamas afinal...
Não é a tua?
Festa
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Postado por ~ Lu ~ às 12:05- Não sei, sobreviver é meio que um dever de todo mundo, então acho que não. Não?
- Não, se fosse sobreviver e se sobressair, aí sim mereceria uma parabenização, assim, só sobreviver sem mover muito mais coisas do que qualquer um moveria não seja passível de comemorar.
- Entendi. E quando se sobrevive em meio a inquietações e nuvens negras que soterram a existência e tiram toda a vontade de sobressair ou até mesmo de colocar aqueles velhos projetos em ação, quando se faz, ainda que o básico, por não conseguir sair desse vórtice, e quanto sobreviver, tendo uma voz doce que todo dia diz "pule" ou que, todo dia de manhã diz "pra que fazer tudo isso? Você vai aabar fracassando, frustrando as pessoas de novo e de novo e de novo, esse é seu destino", quando reagir aos estímulos é o máximo que se consegue fazer nos dias que passam todos iguais?
- Bem... aí acho que cabe alguma felicitação, afinal não se está deixando ser totalmente tragado pelas inquietações, reagir a estímulos faz com que as inquietações se calem, que essa voz cesse seu discurso.
- Elas sempre estão ali, naqueles dois segundos entre dar um enter e começar a próxima linha de texto, enquanto um software carrega, enquanto vai ao banheiro, na hora do almoço a voz se torna mais intensa, então se afoga em comida para ver se ela se cala, na hora do jantar a comida não é tão farta então se afoga em bebibda e só assim consegue sobreviver a mais um dia.
- Compreendo... então, se é assim, vamos celebrar.
- Com comida e bebida?
- Sim, comer e bebes, uma celebração completa, passe naquela loja e compre uns balões, encha-os e coloque alguns na parede, vai dar um ar renovado para a velha decoração, vamos comemorar todos os dias antes de dormir.
- Assim a comemoração vai parecer algo automatico, uma rotina...
- Então só me resta dizer uma coisa...
- O que?
- Pule...
O bilhete no teu travesseiro
quinta-feira, 13 de abril de 2017
Postado por Amelie às 08:18Você dorme e eu te olho com uma vontade absurda de ter você, de sentir sua boca encostada no meu ouvido, de me juntar contigo assim sem avisar, mas penso que talvez isso fosse dado como quebra de contrato. Temos as nossas leis, vamos ao início. Coloquei meu coração na caixinha junto com a aliança e ele ficou lá, guardadinho. Te olho e te quero mesmo sem hoje ter muita certeza de quem você é, de quem eu sou, do que somos. Só quero. Sabe bem que sou assim. As vezes vou fazer manha e rolar pro lado esquerdo da cama só pra ver você se empurrar pra perto e me puxar de volta pela cintura. Pra sentir esse seu "vem cá ou eu te puxo pra mim". Precisa ser assim, as vezes você precisa me puxar, a maioria delas, mas eu vou.
Eu sempre vou.
Garoa
domingo, 9 de abril de 2017
Postado por Amelie às 01:57Costumava andar lado a lado com a solidão, segurava sua mão com força, tínhamos uma relação intensa de intimidade. Tanta foi a intensidade que ela desistiu de andar ao meu lado, quis dar um passo maior. Hoje vive dentro de mim, tem de mim tudo que sou. Deve ser isso o tal do amor.
Adequações
sábado, 18 de fevereiro de 2017
Postado por ~ Lu ~ às 17:03Para: ela
Assunto: [sem assunto]
Olá, não sei bem como começar essa carta, eu sei o que eu tenho que escrever mas não sei como escrever da forma rebuscada que sempre trocamos nossas cartas.
Não vou fazer acusações, dizer que a culpa é tua, minha, dos vários alguens que atravessaram nosso caminho ou do tapete em formato de borboleta que rodei meia cidade pra achar.
Não. Faço um mea culpa porque pisei na bola inúmeras vezes. Mas a verdade (dolorosa, diga-se de passagem) é uma só uma: eu sou conveniente. Dizes que temos ligação e tudo mais, que quanto estas mal me procura e eu te faço sorrir e tudo mais, que isso é uma ligação psíquica e toda essa coisa que acontece em filme...
Mas... e quando eu estou mal a ligação se rompe. Tu somes, se afasta. Não deve querer essa energia perto de ti. Compreendo. Sei que não é fácil conviver com alguém que a lembrança mais antiga que tem é a de querer morrer. Eu sei que tinhamos um acordo sobre esse acordo, mas eu simplesmente não consigo mais evitar pensar nisso. É mais forte do que eu. Sinceramente não acho sustentável essa relação de "okay, hoje preciso dele porque estou mal" e quando ele ta mal ela some.
Enfim. Se eu parecer frio e distante a partir do clique no enviar não se assuste. Ou se assuste, porque vamos estar um passo adiante nos nossos futuros.
~ Eu
O início do fim - parte I
sábado, 24 de setembro de 2016
Postado por Amelie às 15:58O que você precisa saber
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Postado por Amelie às 16:59E eu continuarei te escolhendo por hoje e por amanhã.
Com amor,
tua.
Instintivo
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Postado por Amelie às 14:07"Sempre gostei de biologia, particularmente eu achava a cadeia alimentar muito interessante. Os insetos se alimentavam de outros insetos. Os animais pequenos eram devorados por animais maiores e os seres humanos, por sua vez, se alimentavam dos animais e também devoravam uns aos outros."
Era só mais uma quarta-feira de chuva onde eu normalmente ficaria em casa vendo série policial, lendo ou tocando piano enquanto o pequeno Mik tentaria escalar meu colo a fim de alcançar as teclas. Mik é meu meio irmão caçula, filho de meu pai e Lilian. Diferente de Peter que não tinha lá grandes semelhanças comigo, Mik tinha chamas na pupila. O mesmo tom que as vezes lembrava mel, as vezes avelã avermelhado tanto nos cabelos quanto nos olhos. Fato que deixava Lilian ligeiramente furiosa, tanto o apego de Mik por mim quanto suas semelhanças físicas... É que eu lembrava a grande rival de Lilian: a falecida Helena Rosália. Sim, outra Helena. Por coincidência, minha mãe.
Lilian... Sempre histérica. Peter, sempre silencioso demais pra um garoto de nove oito anos. Meu pai, tentando ser um pai... eu acho. Não sei. Não sei onde andava a cabeça de meu pai. Sei que a minha estava cheia. Eu odiava ter dias iguais, odiava andar na linha e certamente eu morreria se não escapasse vez por outra. Recebi uma mensagem no celular "Saudades, gatinha. Espero que não esteja chateada. Um beijo daqueles" Era Dimitri. O cara por quem eu fui apaixonada todo o tempo de escola. Ficamos juntos até o começo do primeiro ano, quando ele era um cara legal, até ele começar a andar com... Não importa muito. Ainda estava chateada. Odiava a forma como ele falava comigo. Odiava o novo Dimitri, mas no fundo sempre achava que ia encontrar o meu Dim ao receber um beijo na testa depois de uma de nossas aventuras...
Resolvido: colocaria meu velho jeans, a jaqueta e o coturno. Um batom, soltar os cabelos e uma aparição surpresa talvez não fosse tão ruim.
Sai de casa com uma pequena garrafa de Coca-Cola em mãos. Sempre achei uma palhaçada isso de nomes escritos em embalagens, mas se fosse pra ter, então que tivesse o meu nome. A chuva não foi gentil comigo.
No primeiro toque de campanhia, a mãe de Dim apareceu no portão franzindo a testa como quem tenta ter certeza do que está vendo. Ela me encarou e logo soltou:
— Helena, é você mesma ou eu fiquei velha e gagá?
— A própria em carne e osso.
— Ora, menina, mas quanto tempo! — Ela me olhou de baixo pra cima — Você não muda mesmo, né? Continua usando essas roupas esquisitas de quem trabalha em cemitério.
Ri de canto enquanto ela abria o portão
— Também senti sua falta, Dona Débora.
Entrei e subi as escadas depressa, assim que cheguei na porta me deparei com Dim, suas pupilas estavam tão dilatadas que cogitei a hipótese dele ter acabado de usar cocaína.
— Helena Vincent.
— Dimitri Müller.
Não dissemos mais nada. Apenas ouvi o ruído da porta fechando devagar. Dim me segurou com força contra a parede e me beijou como se não beijasse ninguém há anos. Seus lábios corriam por meu pescoço e sua respiração ofegante ao meu ouvido me faziam corar. Eu poderia mergulhar naquele momento centenas de vezes incansavelmente. Não demorou mais do que cinco minutos até estarmos completamemte nus. Entreguei-me a Dimitri como nunca fizera antes. Pensei no cara em que amei. Sentia o sabor do vinho em seus lábios enquanto seu corpo estava completamente entrelaçado ao meu. Ele parecia sedento e eu gostava daquilo. Eu gostava da adrenalina que me trazia. Presos um ao outro, suas mãos tocavam as minhas, toquei seu rosto, Dimitri me encarou por alguns segundos como se fosse dizer algo mas pareceu engolir e simplesmente me prendeu pelo pulso com tanta força que seus dedos ficaram marcados em minha pele.
Outra de nossas aventuras se findou e o beijo na testa não veio. Encostei a cabeça em Dimitri. Acariciei levemente seu peito sentindo o relevo da tatuagem de lobo recém feita. Aquele momento foi curto. Senti vontade de chorar, mas felizmente estava cansada demais. Resolvi outra vez só deixar pra lá.
Logo Dim levantou colocando as calças e apertanto o cinto depressa. Ele jogou um olhar maldoso pra mim enquanto passava a língua no contorno dos lábios. Aquilo me fez lembrar os filmes de vampiros que eu assistia, quando o vampiro acabava de saciar-se com o sangue de alguém o ritual era o mesmo: passar a língua pelos lábios aproveitando até a última gota.
Eu então eu sabia que já não existia mais amor, nem mesmo consideração. Éramos apenas presas na cadeia alimentar um do outro. Éramos apenas lembranças de um passado que mais parecia um quadro desbotado na parede.
Exausta, adormeci.
Há uma luz que nunca se apaga
domingo, 9 de novembro de 2014
Postado por Amelie às 00:17Não sei como te chamar, não quero usar teu nome aqui porque eu nunca te chamei pelo teu nome. Em contrapartida já não me sinto íntima pra te chamar pelo apelido.
Uma das piores coisas em ver alguém partir é não saber quando esse alguém vai voltar e se ele vai voltar. Já ficou clichê sentir sua falta. Eu perdi as contas de quantas pessoas já me ouviram falar a seu respeito, mas nunca é suficiente. Eu falo de você como se em algum momento essa coisa aqui dentro fosse passar, mas nunca passa. Falo de você como se falar fosse te trazer de volta, mas nunca traz. Não vai trazer. Sabemos que essa é mais uma carta que você nem vai ler, mas como esse fiapo de esperança estúpida dentro de mim nunca morre, continuo a escrever.
Acontece que sempre me vejo tanto em você! É aquela coisa saudosista de dizer que você é a continuação do que eu sou ou vice-versa. Não tenho mais tempo pra saudosismo, eu sei. E você não tem mais paciência, eu sei. Sabemos. Essa é a última vez, prometo. (E provavelmente essa é uma daquelas promessas que vou quebrar sem nem protelar.)
Desculpa por ser tão clichê, mais uma vez. Sei que não gosta. Desculpa por não estar usando xadrez, eu sei o quanto você gosta. Desculpa por entupir os salgados de ketchup, sei que você olha com cara feia mesmo dizendo que "gosta de ketchup", você nunca coloca em nada e torce o nariz se colocarem no seu lanche!
Desculpa por nunca mais ter devolvido seu CD favorito. É que manter isso aqui é como manter parte sua comigo.
Nesse momento você deve estar tomando absinto português e vendo coisas que nem existem - ou talvez existam em uma outra dimensão -, isso se não estiver tocando baixo, o que também é provável. Mas se estiver bebendo, sei que exatamente daqui uma hora você vai sentir vontade de voar, vai chorar. Vai chorar muito. Eu me pergunto pra quem você liga agora quando chora. Me pergunto se encontrou outra pessoa pra segurar tua mão e voar sem direção. Desculpa por desejar tanto que você não tenha ninguém agora já que não está aqui comigo. Não aprendi a te dividir, não aprendi a deixar ir aquilo que nunca me pertenceu. É que aquele dia você me beijou e eu esqueci de todo o resto do mundo. Eu decorei os teus lábios. Céus! EU DECOREI OS TEUS LÁBIOS. Isso me faz sentir mais louca do que o comum. A diferença é que quando você estava aqui comigo, eu nunca era louca. Aquilo era convicto.
Quão patético é chorar ouvindo The Smiths e lembrar do seu abraço? Como me desfaço disso? Você me prometeu cinquenta anos de conversas intermináveis e hoje não responde nem a um "oi" meu.
Eu nem ia escrever essa carta. É que eu vi uma pessoa devorando um sanduíche naquela lanchonete que frequentávamos e era exatamente o seu jeito de mastigar as coisas. Era engraçado. Eu resolvi escrever isso porque me fizeram uma pergunta, eu fiquei tímida e mudei de assunto imediatamente. Eu fiz aquilo que você fazia de ficar um seis segundos em silêncio olhando pra baixo e mudar de assunto, ainda olhando pra baixo. Isso sempre foi coisa mais sua do que minha. Todas as minhas atitudes sempre foram mais suas do que minhas.
Sinto sua falta. Volta um dia, tá? Nem que seja pra me cobrar teu CD. Tô com saudade da sua voz.
Espero que esteja bem.
Com amor,
A menina da camiseta do prisma.
Onde as ondas quebram.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Postado por Amelie às 02:06Quando eu te conheci estávamos bem perto da praia. O mais irônico da situação é que eu nunca tinha visto o mar, eu não fazia nem ideia de como nadar. Você me segurou pela mão e me mostrou a sensação nova de correr descalça na areia. Me mostrou o quão grande a praia é e, maior ainda, me mostrou o mar em sua forma mais majestosa. O grandioso rei mar. Tão grande que eu não podia ver seu fim, nunca vi, nunca consegui imaginar, muito menos quando sentia a sua mão junto à minha.
Pouco a pouco você foi me mostrando tudo o que eu nunca tinha visto.
A noite caiu, foi então a minha vez de te mostrar algo. Te apresentei cada uma das constelações no céu, dei seu nome àquela estrela que achei o brilho mais intenso. Nos beijamos e eu dormi nos seus braços.
Despertamos com o sol que nos tocou a pele antes que o sono fosse totalmente embora. Acordei com a cara de preguiça de sempre, sorri de canto ao ver seu cabelo também desajeitado, perdemos a noção do tempo quando vimos o belo astro sair das águas e cobrir por completo o céu com seu manto de luz. Vi seus olhos vidrados nos meus como quem queria dizer algo, entendi que já era hora de experimentar o mar. Novamente você me segurou e me levou até o início, onde as pequenas ondas se quebram. Senti aquela imensidão líquida aos poucos me empurrar de volta pra areia, as vezes me levava pra ele. Tive medo e te olhei. Vi a naturalidade com a qual você encarava tudo aquilo.
As pessoas começaram a entrar em pequenos barcos porque os ventos estavam favoráveis para um passeio. Você me colocou dentro de um barco. Remamos até certo ponto. Eu nem sabia remar! Lembra disso? Foi você quem me ensinou. Remamos incansavelmente... Então você disse que já era hora de eu aprender a remar sozinha. Te vi pular nas águas que ainda me apavoravam, você nadou até o cais e ficou ao longe me observando. Não tive tempo de te dizer nada, não consegui questionar, não pude pular na água porque eu nunca soube nadar. EU NUNCA SOUBE NADAR E... CÉUS! O QUE TE DEU NA CABEÇA PRA DEIXAR UMA PESSOA QUE NÃO SABE NADAR SOZINHA EM UM BARCO QUE NINGUÉM SABE PRA ONDE VAI?
Meu coração disparou, depois apertou, em seguida chorei feito uma criança que se perde dos pais. Eu te via o tempo todo, mas você já não podia me ouvir. Eu te chamava, mas você nunca escutava. Eu queria que você voltasse, mas eu nunca soube bem o que fazer.
Enquanto o desespero me consumia, peguei os remos e lembrei. Lembrei de tudo o que aprendi na minha viagem com você. Lembrei como remar, como voltar pra praia. Lembrei de cada milésimo que me levara até ali.
Hoje estou sentada no cais observando o mar e observá-lo me faz lembrar de tudo o que tentei esquecer. E tudo o que tentei esquecer, foi o que me salvou de me afogar em mim. Todos os meus medos se tornaram barcos à deriva, nada além.
Eu fico aqui olhando a mesma paisagem esperando você aparecer subitamente, tapar meus olhos e sussurrar no meu ouvido: "adivinha quem é?"
à querida e saudosa.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Postado por Jéssica às 23:18Hoje foi um dia de sol e bastante quente, mas é inverno. Quando as manhãs são cinzentas e não podemos ver a luz, sei que em algum lugar o sol se esconde e que pode aparecer a qualquer momento. O que não me impede de aproveitar os dias nublados.
Os dias têm sempre algo a nos ensinar. Nem sempre quando o dia é de sol, ele é bom. E eu prefiro as nuvens, mas reconheço a beleza de um céu limpinho e azul.
A previsão do tempo nem sempre acerta. A natureza faz a sua própria escolha de acordo com o que tem que ser, porque não cai nenhuma folha, de nenhuma árvore sequer, em vão. O que me remete a você.
Para tudo há um tempo determinado debaixo do sol. Não contexto e não quero controlar o tempo. Apenas penso sobre a efemeridade dessa vida. Sobre você eu não digo ter sido tempo demais (e nunca foi!) ou pouco tempo, tempo suficiente ou insuficiente. Foi um tempo feliz, o que tivemos.
Ouvi dizer que saudade era o nosso coração dizendo para onde quer voltar, e nem sempre é. Como eu poderia voltar para onde nunca estive? Não que o passado feliz não seja visitado e desejado. Se fosse possível, eu voltaria no tempo apenas para te observar.
Mas hoje sinto a saudade do que eu nunca vi. Eu que acredito que coisas boas estão por vir, visualizo você sentada em uma plateia de um espetáculo que comigo sonhou, um espetáculo que ainda está por vir, e eu gostaria que você estivesse aqui.
Sobre o passado, amor. Sobre o futuro, esperança. Eternamente, gratidão.
A vida é efêmera, sim, mas o amor é eterno.
Psicose
terça-feira, 13 de maio de 2014
Postado por Amelie às 02:05Chá de camomila. Pode soar estranho, mas é a minha maior nostalgia. Meus silêncios e gritos acabavam sempre em uma xícara de chá de camomila.
Tomava o chá aos poucos observando a fumaça que saía da xícara pelo líquido que ainda era extremamente quente. Espiei a rua pela janela, havia névoa e garoa. Peguei um cigarro. O frio era de sacudir os ossos. Tudo aquilo parecia exatamente parte de mim. Não importa o quanto aquele clima me fazia tossir, o frio era confortável. A bebida era confortável, tudo se encaixava ao que sou.
Por um instante questionei minha existência. Questionei como duas personalidades totalmente distintas podiam dividir o mesmo corpo. As vezes meu coração era tão quente quanto o que chá queimava a minha boca a cada gole. Entretanto minhas atitudes eram como a garoa fina e gelada lá fora. Incômoda, quase imprevisível, indiferente.
Apoiei-me na janela para fumar. Tossi. Maldito hábito. Era sinal de que meus pulmões já não eram os mesmos. Vinte e cinco anos e meu organismo já era mais estragado do que o dos meus avós.
Pensei em meus avós. Como eles reagiriam se soubessem quem eu realmente sou? Como agiram se soubessem que a neta pós-graduada e com pinta de boa moça, no fundo era uma bandida que nunca se importara cima nada?
Lembrei do meu último crime. A vítima não conseguia fechar os olhos, eu havia feito cortes que o impossibilitavam de fechar os olhos. Era um cômodo totalmente espelhado, ele assistiu passo a passo de sua tortura e viu a morte caminhar lentamente em sua direção. Traguei o cigarro, segurei a fumaça nos pulmões e soltei devagar. Antes que a culpa tentasse invadir minha mente, lembrei que aquele homem havia abusado de mais garotas que posso contar. Cortei seu membro principal, sua "ferramenta de trabalho" aos poucos para que ele tivesse tempo de sentir o que fizera. De sentir como é estar vivo e se ver morrendo aos poucos sem conseguir fazer nada. Talvez daquela forma ele compreendesse quantas pessoas ele havia matado embora os corações ainda batessem, o resto tinha morrido. Fui uma delas. Não achei nada mais justo do que mante-lo preso sentindo cada gota de seu sangue escorrer.
Outro gole de chá. Lembrei então do golpe que eu havia dado no restaurante mais caro da cidade. Lembrança que me fez abrir um sorriso sarcastico. Se não fosse pela mente que tenho, seria feliz. Eu acho. O que é ser feliz? Deve ser coisa de gente normal. E definitivamente, eu nunca fui.
Busquei naquele chá a calmaria que minha cabeça buscava. O tão precioso silêncio mental. Monstros descansam? Eu espero que sim.
E sem perceber, dormi deixando a carta sem conclusão, como tudo o que faço: só tem sentido pra mim.






