Instintivo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Sempre gostei de biologia, particularmente eu achava a cadeia alimentar muito interessante. Os insetos se alimentavam de outros insetos. Os animais pequenos eram devorados por animais maiores e os seres humanos, por sua vez, se alimentavam dos animais e também devoravam uns aos outros."

Era só mais uma quarta-feira de chuva onde eu normalmente ficaria em casa vendo série policial, lendo ou tocando piano enquanto o pequeno Mik tentaria escalar meu colo a fim de alcançar as teclas. Entretanto eu precisava de algo diferente, eu precisava lembrar quem era Helena Vincent Stewart. Precisava retomar o comportamento da minha antiga versão. Eu odiava ter dias iguais, odiava andar na linha e certamente eu morreria se não escapasse vez por outra.
Resolvido: colocaria meu velho jeans desbotado, minha jaqueta preta de couro que estava bem surrada e o meu amado coturno. Um batom, soltar os cabelos e voilá... Pronta para o crime!
Sai de casa com uma pequena garrafa de Coca-Cola em mãos. Sempre achei uma palhaçada isso de nomes escritos em embalagens, mas se fosse pra ter, então que tivesse o meu nome. A chuva não foi gentil comigo. Me perdi um pouco no caminho, cheguei depois do horário previsto mas cheguei finalmente à casa de meu antigo amor: Dimitri Müller.
No primeiro toque de campanhia, a mãe de Dim apareceu no portão franzindo a testa como quem tenta ter certeza do que está vendo. Ela me encarou e logo soltou:
- Helena, é você mesma ou estou gagá e vendo coisas?
- A própria em carne e osso.
- Você não muda mesmo, né? Continua usando essas roupas esquisitas de quem trabalha em cemitério.
Ri de canto enquanto ela abria o portão
- Também senti sua falta, Dona Débora.
Entrei e subi as escadas depressa, assim que cheguei na porta me deparei com Dim, suas pupilas estavam tão dilatadas que cogitei a hipótese dele ter acabado de usar cocaína. Não dissemos nada. A única coisa que ouvi foi "me espera no quarto que já to levando o vinho".
Quando Dim entrou, me segurou com força contra a parede e me beijou como se não beijasse ninguém há anos. Eu poderia mergulhar naquele momento centenas de vezes incansavelmente. Não demorou mais do que cinco minutos até estarmos completamemte nus. Entreguei-me a Dimitri como nunca fizera antes. Sentia o sabor do vinho em seus lábios enquanto seu corpo estava completamente entrelaçado ao meu. Ele parecia sedento e eu gostava daquilo. Eu gostava da adrenalina que me trazia.
Ao acabar, encostei a cabeça em Dimitri. Acariciei levemente seu peitoral sentindo o relevo da tatuagem de lobo recém feita. Aquele momento foi curto. Logo Dim levantou colocando as calças e apertanto o cinto depressa. Ele jogou um olhar maldoso pra mim enquanto passava a língua no contorno dos lábios. Aquilo me fez lembrar os filmes de vampiros que eu assistia, quando o vampiro acabava de saciar-se com o sangue de alguém o ritual era o mesmo: passar a língua pelos lábios aproveitando até a próxima gota.
Eu sabia que já não existia mais amor, nem mesmo consideração. Éramos apenas presas na cadeia alimentar um do outro. Éramos apenas lembranças de um passado que mais parecia um quadro desbotado na parede.
Cansada então, adormeci.

1 comentários:

Anônimo disse...

sua escrita... !