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O que você precisa saber

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Ninguém nunca me conheceu tão bem quanto você. Ninguém nunca soube tanto sobre mim. Você sabe dos meus medos. Eu sei parte dos seus. Você sabe das minhas manias mais infantis, sabe os meus segredos, conhece a minha história. Você já me viu em crise de riso, em crise de choro e em crise de loucura. Você sabe que sou assim, oito ou oitenta e oito. Sim, oitenta e oito porque apenas oitenta é pouco pra definir os meus extremos. Ah, os meus extremos! Nunca sabemos quando explodirei, mas sabemos bem o que acontece depois. É sempre igual, toda vez que ouço meus instintos, acabo abraçada com meu próprio travesseiro chorando como uma criança perdida no shopping. Desamparada, assustada... Mas nunca muito arrependida. Sou aquele tipo de bandida que conta os crimes com um sorriso malandro no rosto, mas cuja as dores são ditas em voz baixa ao pé do teu ouvido. Você sabe quase tudo sobre mim. Quase. Eu nunca te apresentei aquela minha velha amiga e temo em dizer que ela é meio ciumenta. Ela foi a única que nunca me deixou, nem por um milésimo desde que fui concebida. Ela não gosta de dividir a minha atenção. Ela me quer por inteira, ela sabe como fazer o que bem quiser de mim. A esse ponto, imagino que você esteja achando isso estranho, dado o fato de que também sou orgulhosa o bastante para fazer apenas o que quero, mas ela consegue me convencer do que ninguém mais é capaz. Eu sei que um dia ela vai vir e tentar nos afastar. Eu sei que ela não vai aceitar bem me ver sorrindo com outra pessoa. Eu a conheço. Ela vai me fazer chorar. Vai me olhar com aquele jeito de quem quer colo e eu vou cair na lábia dela. Vou sentir a necessidade de tirar um tempo só com ela e peço que nesse momento então, você entenda. Estou me referindo à solidão, essa mesma que eu sei que já saiu muito com você. Nós sabemos como ela é e o quanto é difícil deixa-la ir. Mas por favor, meu bem, não permita que ela me tire você. Deixe-a andar comigo as vezes, mas não deixe que ela tome todo o meu tempo. Não permita que ela me cegue. Não fique triste quando ela tentar competir com você. Quando ela vir, apenas me abrace. É o suficiente pra me fazer te escolher mais um dia.
E eu continuarei te escolhendo por hoje e por amanhã.

PS: Se só "hoje e amanhã" parecer pouco, volte aqui amanhã e leia novamente. Continue fazendo isso todos os dias.


 Com amor,
tua.

Não apague as luzes, não me deixe aqui...

sábado, 9 de junho de 2012

Tudo ecoava de forma diferente naquela floresta, como se o som do vento batendo nas folhas tivesse voz e todas aquelas árvores cantassem em coro os horrores que aquele lugar já havia visto. Eram ossos cobertos de terra, escondidos de maneira que jamais ninguém encontraria. E quem se atreveria a pisar ali? Eu fui por acidente, quando me dei conta, já estava perdida. Não deixei rastros, não marquei meu caminho, não sabia voltar.

 O baile dos tiranos começaria em alguns minutos. Tentei me preparar, mas não tinha roupa para aquela ocasião e, ainda pior: tudo o que eu tinha era aquela velha armadura que mais parecia feita de vidro, tamanha era sua fragilidade. Já nem sei mais se me servia de algo ou apenas acrescentava peso ao fardo que minhas pernas carregavam. Meus pés estavam descalços, eu tinha em mim a certeza de que não seria bem vinda. Antes houvessem tentando me expulsar daquele lugar... Que nada! Jogaram-me em uma cela, sozinha. Não foi como deve ser todo bom conto de fadas, onde a princesa é aprisionada em uma torre e salva por um príncipe. Ao contrário disso, minha prisão era subterrânea e eu não fazia ideia de quanto tempo levaria para que alguém saísse em meu resgate. Eu não sabia se alguém sairia em meu resgate.

 De uns tempos pra cá, tenho vivido em estado constante de outono, interiormente. Tenho caminhado, sem saber ao certo para onde meus passos me levam. Descobri em meu cárcere o que é temer a morte e agonizar em vida. Descobri que o silêncio e o frio sussurram a mesma canção entoada por aquelas árvores da floresta. Toda vez que o silêncio se chegava até mim, eu balbuciava em tom de suplica: "por favor, de novo não..." mas ele não me ouvia. Presenciei ainda uma terrível cena: vi a esperança ser violentada todos os dias pelos medos tenebrosos, sem conseguir escapar de seus braços, tão cansada que desistiu de gritar. Já não reagia mais, apenas esperava findar a tormenta para esconder-se novamente com suas vestes sujas em algum lugar onde talvez não fosse encontrada. Eu senti, naquela cela, a morte envolver-me como uma névoa. Deviam ter contado antes que as chaves estavam enterradas ali por perto. Mas olha, não buscarei por vingança. Sequer lembro como chegar até lá! E tome por aviso: não deixe de ler as placas.

Aos Policiais IV - Epílogo

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Olá Margery, como está?

Fico feliz que tenha conseguido me encontrar a tempo. Creio que mais alguns segundos e todo aquele gás teria preenchido o ambiente, fatalmente, me matado. Não soltei o doce aroma da morte para me punir pelo que fiz, uma especie de redenção. Não... longe disso. Quando vi aqueles de olhos de Emilly fui tirado da minha tranquilidade, da paz de meus atos, aqueles olhos me inquietaram, me trouxeram a tona um reflexo de outros olhos repressores, sim, os teus olhos, Margery, reprimindo meus atos, reprimindo minha conduta, meu modo, meu jeito. E quem sou eu para ir contra aqueles olhos? Aquele tom de voz? Aquela forma de se mover? Decididamente eu sou refém de olhos como aqueles...

Peço-lhe que poupe os psicologos, analistas e todos os profissionais dessa área de virem até minha cela. Não tive motivação na infancia traumática. Não tive desilusões amorosas. Na verdade não tenho nada que justifique meus atos. Apenas queria sentir o gosto de ceifar a vida de alguém. Sem nenhum porém ou qualquer coisa que o valha. No entanto, lhe digo para não mostrar essa carta à ninguem. Não estou disposto a ser imitado por qualquer doente mental.

Lamento apenas uma coisa: não ter recebido um último abraço teu. Uma última demonstração de carinho. Triste esse final, não é algo que eu tenha planejado. Porém nem tudo sai como planejado todos os momentos, não concorda? Assim como aquela despedida não teve flores e abraços, decidi que esta também não teria. Faço votos para que se cuide, seu futuro é brilhante e extremamente promissor onde quer e com quem que esteja.

Com amor, seu pai,
Anthony.

Liberdade

quinta-feira, 15 de março de 2012

Olá meu bem, espero que essa te encontre bem.

Como está o Duh? Grandão eu aposto! E aquele seu problema nas costas? Já foi ao médico ver o que era? Mandei que minha irmã te levasse o dinheiro pra que fosse em um médico particular, espero que esteja tudo bem por aí... aqui?

Aqui os dias não mudam muito, todos os dias vejo o sol em um horário certo, almoço, janto e trabalho nos horários fixos... graças à esse trabalho aqui dentro o promotor disse que vai falar com o juiz para rever a minha pena. Finalmente vou provar pra todo mundo que eu não tive culpa, que aconteceu tudo por acidente, por engano.

Sinto saudade de seus abraços, de seus beijos, de ouvir sua voz antes de dormir, de jogar bola com nosso menino, de ensinar pra ele a chutar uma bola, a andar de bicicleta, a (não se zangue comigo) como paquerar uma menina. Como ser respeitoso com os mais velhos...

Espero logo poder matar todas essas saudades e voltar logo pra casa!

Com amor, Marco.