Não apague as luzes, não me deixe aqui...

sábado, 9 de junho de 2012

Tudo ecoava de forma diferente naquela floresta, como se o som do vento batendo nas folhas tivesse voz e todas aquelas árvores cantassem em coro os horrores que aquele lugar já havia visto. Eram ossos cobertos de terra, escondidos de maneira que jamais ninguém encontraria. E quem se atreveria a pisar ali? Eu fui por acidente, quando me dei conta, já estava perdida. Não deixei rastros, não marquei meu caminho, não sabia voltar.

 O baile dos tiranos começaria em alguns minutos. Tentei me preparar, mas não tinha roupa para aquela ocasião e, ainda pior: tudo o que eu tinha era aquela velha armadura que mais parecia feita de vidro, tamanha era sua fragilidade. Já nem sei mais se me servia de algo ou apenas acrescentava peso ao fardo que minhas pernas carregavam. Meus pés estavam descalços, eu tinha em mim a certeza de que não seria bem vinda. Antes houvessem tentando me expulsar daquele lugar... Que nada! Jogaram-me em uma cela, sozinha. Não foi como deve ser todo bom conto de fadas, onde a princesa é aprisionada em uma torre e salva por um príncipe. Ao contrário disso, minha prisão era subterrânea e eu não fazia ideia de quanto tempo levaria para que alguém saísse em meu resgate. Eu não sabia se alguém sairia em meu resgate.

 De uns tempos pra cá, tenho vivido em estado constante de outono, interiormente. Tenho caminhado, sem saber ao certo para onde meus passos me levam. Descobri em meu cárcere o que é temer a morte e agonizar em vida. Descobri que o silêncio e o frio sussurram a mesma canção entoada por aquelas árvores da floresta. Toda vez que o silêncio se chegava até mim, eu balbuciava em tom de suplica: "por favor, de novo não..." mas ele não me ouvia. Presenciei ainda uma terrível cena: vi a esperança ser violentada todos os dias pelos medos tenebrosos, sem conseguir escapar de seus braços, tão cansada que desistiu de gritar. Já não reagia mais, apenas esperava findar a tormenta para esconder-se novamente com suas vestes sujas em algum lugar onde talvez não fosse encontrada. Eu senti, naquela cela, a morte envolver-me como uma névoa. Deviam ter contado antes que as chaves estavam enterradas ali por perto. Mas olha, não buscarei por vingança. Sequer lembro como chegar até lá! E tome por aviso: não deixe de ler as placas.

2 comentários:

Lu disse...

"... não leia ouvindo Portishead - Small" sábio conselho!

Agora... dizem que eu tenho habilidade em transportar o leitor pra cena... é minha cara sócia, você tem tanto talento quanto eu! Se não mais!

Thata B. disse...

De chefe a sócia... adoro. Eu devia ter colocado o aviso da musica no inicio...