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Schorodinger

domingo, 12 de abril de 2020

De repente eu estava vendo Helena limpando a cozinha e nada mais fazia sentido, olhei minhas mãos, meus dedos mexiam mas eles não pareciam meus, corri os olhos pelo braço até ver que eles estavam conectados ao meu corpo. Mas então...? Poderia ser sonho. Afinal a comida não teve gosto de nada. O som da rua parecia muito mais distante do que realmente era. Vou acordar. Me belisquei fechando os olhos, afinal se estiver dormindo vou ter que abrir os olhos.

Abri os olhos e tudo continuava igual. Devo estar em uma crise de despersonalização de novo. Foda-se. Tanto faz, ultimamente todo que eu queria era estar morta. Claro que não posso deixar transparecer isso pra Hell, mas... eu estou completamente esgotada. Sem a menor força pra continuar tudo isso aqui. 

Não. Não posso pensar nisso. Me levantei da mesa dizendo que iria tomar banho e ouvi um "de novo?", um fio de cabelo molhado tocou minha nuca. Então vou dar uma volta de carro. Não. Lembrei do pesadelo da noite passada. Era a mesma cena do acidente, só que quem dirigia era eu e no banco do passageiro estava Helena. No banco de trás uma voz de criança me chamou pelo nome. Na hora que virava o espelho para ver quem era eu via a mim mesma e, no movimento de tentar me virar inteira para ver quem era sentia meu pescoço estralar com tanta força que acho que foi ali que morri dentro do sonho.

Curioso pensar como uma merda de um sonho tinha estragado meu dia a tal ponto. O corpo tremia tão sutilmente que nem mesmo quem pegue minha mão sentiria. Eu estava me afogando em mim mesma, de novo. Raposa, jogue uma boia. Raposa? Não conseguia senti-la. Não... não... não me deixe aqui sozinha, não agora. Não... me tira daqui... anda... Não.

Abri os olhos. Estava no chão. Helena do meu lado, olhar preocupado. A raposa respirava aliviada. A cabeça latejando o corpo inteiro mandando espasmos como se falassem "dedos do pé, câmbio", "canela, câmbio". Tentei levantar e Hell me segurou.

- Calma, devagar... - Aos poucos ela me ajudou a sentar - Ta tudo bem? Você me assustou.

- O que... aconteceu?

- Eu tava dormindo - Só agora notei que ela estava com uma camiseta grande - Ouvi um barulho, não te vi na cama e vim ver o que estava acontecendo...

- E o que - A cabeça girou inteira, quase caí de volta, respirei fundo - Aconteceu?

- Não sou CSI... mas apostaria que tem relação com aquela garrafa vazia e lembranças ruins... mas vem cá.

Nada fazia sentido. Talvez fosse o que ela falava. Talvez ainda estivesse dormindo e daqui a pouco acordaria. Ao levantar senti o fio de sangue escorrer da perna. Que merda tinha acontecido aqui?

- Hell... eu...

- O que foi... - Ela viu minhas costas, ao que parece eu tinha caído em cima de outra garrafa igualmente vazia e que agora não tinha mais sua forma original - Puta merda Jana... vem cá, vou dar um jeito nisso.

De repente eu estava a caminho do banheiro e foi impossível não lembrar do dia que quebrei um copo na palma da mão. Foi um sentimento semelhante. Com cuidado sentia Helena tirar minha blusa e com a habilidade de quem já faz isso faz anos ir tirando caco por caco das minhas costas. O corpo pendeu para frente, não conseguia me sustentar em pé ou nem mesma de joelho. 

Cada pedaço de vidro que saía era mais uma confirmação de que eu não sentia absolutamente nada. Quis dizer para Helena me deixar ali e ir cuidar da vida dela. Talvez eu tenha dito pois notava nas palavras dela um tom de choro. Eu não entendia nada que ela falava, parecia outro idioma, às vezes ela parecia cantar. Me lembrei do dia que nos conhecemos naquela biblioteca. Acho que cada pensamento meu estava saindo pela boca pois a ouvia dizer para ficar calma. Sem perceber tudo foi escurecendo, escurecendo e eu apaguei.

Acordei em um sobressalto assustando tanto Helena quanto a raposa. O ar nos pulmões não vinha em quantidade, podia sentir o coração acelerado, as palavras voavam pela minha cabeça como se fossem pássaros enfurecidos. Não sentia nenhuma dor. A morena me perguntou o que foi, perguntei da noite passada. Nada de anormal. Ela deve estar querendo me privar das lembranças... passei a mão nas costas e nada. mas o que? Nada mais estava fazendo sentido. Caí de volta na cama. Tentar dormir pra ver se acordo em um mundo menos pior. Ótimo.

Festa

segunda-feira, 30 de abril de 2018

- Acorda mais um dia, isso, vai, aguenta, viva, você sobreviveu. Mais um dia e outro e outro e mais um e quando viu já foi uma semana inteira, e outra semana e mais uma e passou um mês, você sobreviveu de novo. Cabe um parabéns aqui?

- Não sei, sobreviver é meio que um dever de todo mundo, então acho que não. Não?

- Não, se fosse sobreviver e se sobressair, aí sim mereceria uma parabenização, assim, só sobreviver sem mover muito mais coisas do que qualquer um moveria não seja passível de comemorar.

- Entendi. E quando se sobrevive em meio a inquietações e nuvens negras que soterram a existência e tiram toda a vontade de sobressair ou até mesmo de colocar aqueles velhos projetos em ação, quando se faz, ainda que o básico, por não conseguir sair desse vórtice, e quanto sobreviver, tendo uma voz doce que todo dia diz "pule" ou que, todo dia de manhã diz "pra que fazer tudo isso? Você vai aabar fracassando, frustrando as pessoas de novo e de novo e de novo, esse é seu destino", quando reagir aos estímulos é o máximo que se consegue fazer nos dias que passam todos iguais?

- Bem... aí acho que cabe alguma felicitação, afinal não se está deixando ser totalmente tragado pelas inquietações, reagir a estímulos faz com que as inquietações se calem, que essa voz cesse seu discurso.

- Elas sempre estão ali, naqueles dois segundos entre dar um enter e começar a próxima linha de texto, enquanto um software carrega, enquanto vai ao banheiro, na hora do almoço a voz se torna mais intensa, então se afoga em comida para ver se ela se cala, na hora do jantar a comida não é tão farta então se afoga em bebibda e só assim consegue sobreviver a mais um dia.

- Compreendo... então, se é assim, vamos celebrar.

- Com comida e bebida?

- Sim, comer e bebes, uma celebração completa, passe naquela loja e compre uns balões, encha-os e coloque alguns na parede, vai dar um ar renovado para a velha decoração, vamos comemorar todos os dias antes de dormir.

- Assim a comemoração vai parecer algo automatico, uma rotina...

- Então só me resta dizer uma coisa...

- O que?

- Pule...

Garoa

domingo, 9 de abril de 2017

Costumava andar lado a lado com a solidão, segurava sua mão com força, tínhamos uma relação intensa de intimidade. Tanta foi a intensidade que ela desistiu de andar ao meu lado, quis dar um passo maior. Hoje vive dentro de mim, tem de mim tudo que sou. Deve ser isso o tal do amor.

Mefistófeles

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

É estranho escrever estas linhas. Sério. Eu já comecei esse tipo de carta tantas vezes que não posso me lembrar. Não sei nem se chego ao fim dessa, se a motivação que me colocou a pena à mão se manterá conforme redijo. Muito provavelmente a vontade e o desejo de partida sejam maiores do que a minha capacidade de me manter em pé.

Hoje provavelmente está sendo um dos piores do ano e por isso essa motivação. Não, não teve um grande acontecimento, algo que me fizesse querer desistir nessa altura. Nada demais, apenas a complexidade de tudo, a necessidade de manter tudo junto, de manter todas as marionetes presas aos dedos e de mante-las se movimentando. Explico: eu acredito que todas as coisas da vida são marionetes que controlamos. Na infância temos as marionetes de brincar e de estudar, depois vai aumentando a quantidade de fios, de marionetes... até tudo funcionar certinho muita gente se ferra. Entre elas eu.

Não vou fazer aquele discurso de "ah como o sistema é mau" e de como tudo que nos cerca nos poda e nos impede de sermos o que queremos/podemos/vamos ser. E não venham dizer que "ah, mas ninguém pode correr pelos teus sonhos, você tem que se virar". A vida é linda em postagens de rede social onde "casal 'larga tudo' e viaja o mundo". Se fosse tão simples todo mundo fazia. E esse "tudo" que eles tinham era o que? A casa dos pais? Pff. A vida real, de quem ganha o suficiente pra existir e manter meia dúzia de pequenos vícios (pequenos e baratos) não comporta esse tipo de fuga. 

Mas não é disso que essa carta trata. Ela trata de mim e do meu convívio constante com as minhas inquietas sombras. Se você, que está lendo, não conhece sugiro ler Fausto, do Goethe e Dom Casmurro, do Machado de Assis. Mefistófeles cada dia que passa vem com um discurso cada vez mais afiado e mais convincente. Não é uma carta suicida ou coisa que o valha, mas é uma carta que, caso aconteça algo, vocês já saberão o que aconteceu, o que me tirou a pena das mãos, o que me "libertou". E não venham com aquele papinho de "ah, mas suicidas vão pro inferno" porque eu não acredito nisso, não sou ateia (existe esse termo?), mas também não acredito nessa bobagem de céu e inferno. O "algo superior" que existir deve ser alguma forma alienígena com tecnologia/capacidades cognitivas superior à nossa. Ou isso ou as coisas do próprio universo como "tempo" ou "gravidade". Mas nada de deus sentado num trono de nuvens ditando as regras como uma criança mimada jogando the sims.

Enfim, como em tudo nos últimos tempos, me perdi e acabei falando coisas além do objetivo inicial da carta que era uma carta em tom de despedida. Não vou me matar (pelo menos não tão logo, ainda tenho algumas coisas penduradas que gostaria de resolver), mas vou passar a me isolar mais e mais até que não sobre muita coisa ou ligação com as pessoas. E se isso parecer um pedido de socorro abafado por uma doença sem cura. Touchê. Você entendeu o espirito da coisa. Quem quiser vir tentar me ajudar venha, mas venha disposto a ajudar de verdade, ajuda do tipo "fique bem, tão bonita e aí enfurnada num quarto" será rechaçada. No mais, até logo. Ou não.

Atenciosamente,
Helena.

O início do fim - parte I

sábado, 24 de setembro de 2016

Acordei em mais uma manhã de primavera com cara de outono. Abri os olhos e senti ao despertar uma inexplicável culpa. Era como se acordar mais um dia fosse um crime. Fechei os olhos novamente, as lágrimas aqueceram meus olhos de imediato, apertei as pálpebras e sem querer, molhei o travesseiro. Tentei engolir o choro e junto com o choro, tentei engolir aquele nó na garganta que há dias se fazia presente. Permaneci por mais alguns minutos imóvel na cama. Notei que ele não estava em casa ainda, logo em seguida vi a mensagem de que dele não apareceria tão cedo. Meu coração quase saltou do peito. Estar sozinha era tudo o que eu queria, em paralelo, também era tudo o que eu temia. O tempo passava em câmera lenta, como se tivesse sido colocado num conta-gotas daqueles que você precisa fazer um certo esforço pra pingar algo. Não demorou para que as velhas sombras viessem visitar. No começo eram sussurros, logo tornaram-se vozes imponentes decompondo o resto de razão e equilibrio que havia em mim. Peguei uma luva cirúrgica, usei como garrote, apertei bem usando a boca para puxar, minhas mãos estavam ocupadas procurando veias. Malditas veias, nunca aparecem quando preciso. Puxei o garrote improvisado com um pouco mais de força, senti um alívio doentio ao ver o sangue subir. Estava na veia, era só injetar lentamente e tudo começava a desaparecer. A visão ficou turva, os movimentos igualaram-se ao tempo. Eu também estava em câmera lenta. Não tive tempo de tirar a agulha do braço, ali mesmo sentada no chão com a seringa pendurada no braço, adormeci.

Instintivo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Sempre gostei de biologia, particularmente eu achava a cadeia alimentar muito interessante. Os insetos se alimentavam de outros insetos. Os animais pequenos eram devorados por animais maiores e os seres humanos, por sua vez, se alimentavam dos animais e também devoravam uns aos outros."

Era só mais uma quarta-feira de chuva onde eu normalmente ficaria em casa vendo série policial, lendo ou tocando piano enquanto o pequeno Mik tentaria escalar meu colo a fim de alcançar as teclas. Mik é meu meio irmão caçula, filho de meu pai e Lilian. Diferente de Peter que não tinha lá grandes semelhanças comigo, Mik tinha chamas na pupila. O mesmo tom que as vezes lembrava mel, as vezes avelã avermelhado tanto nos cabelos quanto nos olhos. Fato que deixava Lilian ligeiramente furiosa, tanto o apego de Mik por mim quanto suas semelhanças físicas... É que eu lembrava a grande rival de Lilian: a falecida Helena Rosália. Sim, outra Helena. Por coincidência, minha mãe.
Lilian... Sempre histérica. Peter, sempre silencioso demais pra um garoto de nove oito anos. Meu pai, tentando ser um pai... eu acho. Não sei. Não sei onde andava a cabeça de meu pai. Sei que a minha estava cheia. Eu odiava ter dias iguais, odiava andar na linha e certamente eu morreria se não escapasse vez por outra. Recebi uma mensagem no celular "Saudades, gatinha. Espero que não esteja chateada. Um beijo daqueles" Era Dimitri. O cara por quem eu fui apaixonada todo o tempo de escola. Ficamos juntos até o começo do primeiro ano, quando ele era um cara legal, até ele começar a andar com... Não importa muito. Ainda estava chateada. Odiava a forma como ele falava comigo. Odiava o novo Dimitri, mas no fundo sempre achava que ia encontrar o meu Dim ao receber um beijo na testa depois de uma de nossas aventuras...

Resolvido: colocaria meu velho jeans, a jaqueta e o coturno. Um batom, soltar os cabelos e uma aparição surpresa talvez não fosse tão ruim.

Sai de casa com uma pequena garrafa de Coca-Cola em mãos. Sempre achei uma palhaçada isso de nomes escritos em embalagens, mas se fosse pra ter, então que tivesse o meu nome. A chuva não foi gentil comigo.
No primeiro toque de campanhia, a mãe de Dim apareceu no portão franzindo a testa como quem tenta ter certeza do que está vendo. Ela me encarou e logo soltou:
— Helena, é você mesma ou eu fiquei velha e gagá?
— A própria em carne e osso.
— Ora, menina, mas quanto tempo! — Ela me olhou de baixo pra cima — Você não muda mesmo, né? Continua usando essas roupas esquisitas de quem trabalha em cemitério.
Ri de canto enquanto ela abria o portão
— Também senti sua falta, Dona Débora.
Entrei e subi as escadas depressa, assim que cheguei na porta me deparei com Dim, suas pupilas estavam tão dilatadas que cogitei a hipótese dele ter acabado de usar cocaína.
— Helena Vincent.
— Dimitri Müller.

Não dissemos mais nada. Apenas ouvi o ruído da porta fechando devagar. Dim me segurou com força contra a parede e me beijou como se não beijasse ninguém há anos. Seus lábios corriam por meu pescoço e sua respiração ofegante ao meu ouvido me faziam corar. Eu poderia mergulhar naquele momento centenas de vezes incansavelmente. Não demorou mais do que cinco minutos até estarmos completamemte nus. Entreguei-me a Dimitri como nunca fizera antes. Pensei no cara em que amei. Sentia o sabor do vinho em seus lábios enquanto seu corpo estava completamente entrelaçado ao meu. Ele parecia sedento e eu gostava daquilo. Eu gostava da adrenalina que me trazia. Presos um ao outro, suas mãos tocavam as minhas, toquei seu rosto, Dimitri me encarou por alguns segundos como se fosse dizer algo mas pareceu engolir e simplesmente me prendeu pelo pulso com tanta força que seus dedos ficaram marcados em minha pele.
Outra de nossas aventuras se findou e o beijo na testa não veio. Encostei a cabeça em Dimitri. Acariciei levemente seu peito sentindo o relevo da tatuagem de lobo recém feita. Aquele momento foi curto. Senti vontade de chorar, mas felizmente estava cansada demais. Resolvi outra vez só deixar pra lá.

Logo Dim levantou colocando as calças e apertanto o cinto depressa. Ele jogou um olhar maldoso pra mim enquanto passava a língua no contorno dos lábios. Aquilo me fez lembrar os filmes de vampiros que eu assistia, quando o vampiro acabava de saciar-se com o sangue de alguém o ritual era o mesmo: passar a língua pelos lábios aproveitando até a última gota.

Eu então eu sabia que já não existia mais amor, nem mesmo consideração. Éramos apenas presas na cadeia alimentar um do outro. Éramos apenas lembranças de um passado que mais parecia um quadro desbotado na parede.
Exausta, adormeci.

Querida Alice,

domingo, 27 de setembro de 2015

Antes de qualquer coisa, me desculpe se esse "querida" soar cliché ou irônico, é que eu não tenho a menor ideia de como começar uma carta. Eu queria que você soubesse que ando angustiada por não poder te ver. Faz falta o som da sua voz e o teu afago. A única coisa em que tenho pensado é em ver de perto o castanho dos teus olhos. Faz falta mexer no teu cabelo, bagunçar tudo e fugir rindo enquanto você corre atrás de mim. Alice, eu me sinto a continuação do livro que você não quis terminar de escrever. Você sabe que burlou as regras do destino e criou seu próprio mundo.
Toda manhã eu acordo, coloco um moletom e saio pra fumar. O primeiro cigarro do dia sempre é o melhor. Em seguida fico sentada, sozinha, pensando em nós. No tempo que perdemos e criando com uma expectativa ardente tudo o que vem pelo futuro. Eu não sei se devo te amar, entretanto creio que isso acontece antes que eu pense em evitar. Eu preciso te encontrar, Ali, eu preciso te levar pra conhecer essa cidade e o mundo todo. Eu preciso ter você por perto. Eu preciso de você, mais que qualquer coisa.
Espero ansiosamente por sua resposta.

Com amor,
Helena.

Requiém de uma tempestade

domingo, 30 de março de 2014

Abri os olhos antes das nove da manhã. Não era o horário que eu acordava frequentemente, mas o sono simplesmente desapareceu. Perdi alguns minutos do meu tempo enrolada nos edredons observando as cores do meu céu. Há tempos meu universo era aquele quarto onde quase tudo era branco e marfim. Sentei na poltrona próxima à janela, abri as persianas, vi que o sol bradava lá fora. Haviam crianças brincando na pracinha em frente ao prédio. Invejei-as. Senti falta de quando a vida ainda tinha sabor de algodão-doce. Senti falta de quando eu ainda conseguia sentir conforto ao ser aquecida pela luz do dia ou deitar na grama dando forma às nuvens no céu.
Eram memórias distantes. Tudo o que eu passei a conhecer era sobre solidão. Descobri que a dor tinha som. Som de choro. Som de chuva. Som de música instrumental, quase como Clair De Lune. Em seus casos mais extremos, eu também poderia dizer que o som da dor se parecia com "Moonlight Sonata" de Beethoven. A tristeza tinha o mistério e profundidade da obra "The Crow" de Van Gogh. Que talvez, sofrer também fosse uma arte das mais masoquistas e sádicas ao mesmo tempo. Descobri que o poeta vive de sua angustia, dela vende e dela mantém-se vivo. E que bela ironia manter-se vivo quando tudo de mais humano em você já morreu! Artistas não fazem sentido tal como nada conhecido na existência faz sentido.
Que é o amor se não as flores jogadas sobre o túmulo de quem já desistiu de si próprio? Que é o amor, se não o último floco de neve quando o inverno acaba? Que é o amor, se não apenas um rastro de esperança mal guardada?
A vida é líquida e corre por entre os vãos dos dedos sem que ninguém perceba.
"Luz! Luz! Mais luz!" e de Goethe, faço essas também minhas palavras. Embora o quarto fosse claro, todo acúmulo de sentimentos me cegava. "Luz", gritava o espírito de Goethe assim como meu espírito grita. Mais luz.

Inacabado

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais uma manhã entre tantas outras, onde eu sequer lembrava se tinha dormido ou não. A luz do sol entrava pela janela e transpassava as camadas finas de cortina branca estampada, cujos desenhos eram refletidos sobre a mesa da cozinha. Cozinha que lembrava cozinha de sítio, ou casa pequena interiorana. Devia ser cerca de sete horas da manhã. Eu me recordo de encarar o calendário-imã colado na geladeira e tentar lembrar sobre como eu tinha passado os dias anteriores. Doze meses, 366 dias. Ano bissexto. Os domingos eram marcados por tinta vermelha que inevitavelmente associei a sangue, que acreditei não estar mais correndo em minhas veias. Que associei a dor. Que associei a perda. Que associei a mim. Eu tinha me perdido e nada poderia doer mais do que isso. Que seja. Os sábados não tinham marcação especial, como se não houvesse nada de especial neles também. Será que dor tem limite? Porque se tiver, posso dizer que cheguei próximo, se não tiver chegado ao limite. Cheguei a ponto de desligar qualquer percepção sobre o ambiente a minha volta. Desliguei as minhas reações, desliguei a compaixão, desliguei o senso de justiça, desliguei tudo o que podia me trazer uma lágrima, e embora meu rosto estivesse molhado ao observar o calendário e buscar lembranças, eu posso lhe afirmar que não senti nada. Nem sei o porquê do choro. Meu corpo estava tão amortecido que eu poderia apanhar até a morte sem gritar. Acredito que aquela lágrima veio da ultima parte de mim que ainda podia sentir. Daquele lado escondido, como um estepe, em caso de querer retornar à vida. Era a minha ultima parcela de humanidade morrendo, mas antes, lamentando pela própria morte. Pela minha morte. Por um corpo que carregava um espirito sem vida. Era o luto ao perceber que a vida passava por mim, os dias se foram e se desfizeram como fumaça no ar. Passaram sem nada que os justificassem. Como se todo o tempo “vivido” até então, fosse perdido.

Astronauta de Mármore 2

domingo, 9 de dezembro de 2012

Mãe, espero que a senhora me perdoe, mas hoje eu pequei. Não sei se tenho mais salvação, todos os dias alguem aparecia com os "bang" pra nós aqui nesse buraco. Porém nos últimos dias pararam de trazer, não sei quem trazia, só sei que era bom, era cômodo, era até, prático. Podia jurar que vinha praticamente por mágica. Téo era quem trazia. Não me importava como, mas ele trazia para todos nós aqui embaixo. Só que ontem ele não conseguiu e me pediu ajuda pra conseguirmos mais, quem sabe até trocar esse buraco malcheiroso por um lugar mais limpo. Ontem, durante o efeito, eu vi algumas ratazanas comendo o pé de um colega de buraco. Não sei se isso foi minha imaginação ou aconteceu mesmo.

Assim que saí meus olhos arderam. Estava algumas semanas longe da luz do sol. Téo me entregou um embrulho e disse que eu só precisava mostrar pra pessoa e pedir o dinheiro que me dariam. Como eu estava praticamente neurótica sem aquilo em mim eu topei sem hesitar. Saí andando apressada, quanto antes eu fizesse o serviço antes eu teria a droga. Abri o embrulho... era uma faca dessas de cozinha toda enferrujada. Fiz o que Téo disse. Roubei a carteira e o celular de uma menina que não deve ter mais de 20 anos. Na hora me senti triunfante, vitóriosa, comprei e troquei tudo por elas. Em meia hora eu estava em um beco. Perfeito. Me senti o máximo sabia? Eu podia fazer tudo, era só balançar aquela faca na frente e pedir que me dariam o dinheiro!

Mas agora... agora que o efeito passou eu passei a me sentir terrivel. Como eu pude? Não sei quem é a pessoa que roubei, não olhei nem o rosto dela, não sei se era loira, morena, baixinha, alta, nem mesmo posso dizer se ela era menina ou idosa. Só sei que era mulher pela voz fina, irritante, dizendo "calma, não me mate...". Mãe, vem me salvar? Me tira daqui por favor. Nem que tenha que me matar, mas não quero mais fazer isso. Lá vem o Téo... é hora.

Farmacodependencia

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quem me vê passar provavelmente pensa que se eu deixasse de existir, não faria a menor diferença. Tudo bem, as vezes também penso assim. Já perguntaram se eu tinha problemas com álcool ou usava drogas ilícitas, já fiz terapias e também me levaram a palestras que alertavam sobre os riscos da cocaína e do crack. Mas erraram. Diferente do que os estranhos pensam, não sou o tipo "nóia" que financia o tráfico, sou o "nóia" que contribui com o estado. Hipocondria não é o termo correto, pois não tenho medo de adoecer, eu tenho medo da vida. O nóia que usa as "drogas fornecidas pelo governo". O nóia que paga impostos. O nóia socialmente aceito. Sou o drogado da farmácia. Um drogado lícito. Um doente.

Devo dizer: na prática, é quase igual. Um viciado em cocaína sofre com a fissura e precisa a qualquer custo da droga pra evitar um surto. Eu vivo o mesmo. Não é o "pó", mas são os comprimidos. Sedativos e mais sedativos. Tive a fase da anfetamina, mas essa consigo controlar com mais facilidade. Psicotrópicos, bendiazepínicos... Eu poderia citar qualquer tipo de droga e explicar seus efeitos. Sou um viciado "consciente" - se é que isso existe. Eu sei que tantos remédios pouco a pouco começam a matar, mas não importa muito. No fundo nada importa. O vazio dentro de mim é maior do que a minha força pra lutar contra o vício. Não tenho paz, minha tranquilidade só aparece quando estou sedado. Sou covarde. Sou a vergonha da família, a sujeira escondida debaixo do tapete.

Agora mesmo estou "sóbrio" e olha só: não é uma boa ideia. Cá estou, expondo meus dramas publicamente. Lamentando. Antes que pense qualquer coisa, saiba que não sou um desocupado que precisava ter apanhado mais na infância, nem mesmo meu nome você sabe, então peço gentilmente: não me julgue. Não sei lidar com culpas e se você me acusar de qualquer coisa, terei que tomar mais comprimidos do que o habitual. Aprendi a não precisar de ninguém. Não preciso de amigos, não preciso de amores, não preciso. Só preciso das minhas fórmulas de equilíbrio.
Criei minhas próprias estratégias, minhas próprias fugas, aprendi também a puncionar veias, afinal, nas minhas piores crises eu não suportaria esperar o efeito dos remédios começarem. Demora demais. É bem mais rápido dissolver e injetar. Como você vê, não existe mesmo grande distinção entre a minha vida e a vida do drogadinho jogado em uma cracolândia. É o mesmo vácuo interno, a mesma prisão, o mesmo buraco, separados apenas por classes.

Não sei resistir, então prefiro viver como um zumbi. Amortecido, anestesiado, fora de mim. Prefiro não pensar em mais nada. Prefiro não sentir dor. Prefiro assim, estar 24 horas por dia completamente "drogado", porque sentir dói, e dor se alivia com remédio.


 Atenciosamente,
O "chapado" que está tentando sobreviver a mais um dia de abstinência.

Astronauta de Mármore

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mais um dia nesse buraco... são nesses momentos de lucidez, em que não estou com aquilo em mim, que me lembro aí de casa e que mais sinto saudades tuas, mãe. Sei que não sou a melhor de suas filhas (na verdade sei que devo ser a pior, aposto), mas, queria ter forças pra sair desse buraco fundo em que me enfiei, queria mesmo. Não é clichê de viciada. Sei que nada do que aconteceu conosco, do que aconteceu em nossa casa justificava o que acabei fazendo e onde vim parar, porém acabei dando aquele passo, aquela fuga na madrugada. Precisava sair. Sei que não vai me entender, que não vai me perdoar (e nem espero o contrario) mas, mesmo assim... eu gostaria do seu perdão um dia.

Os dias aqui não são fáceis, no meu buraco vivemos em mais de vinte, dos quais eu sei o nome de meia dúzia, dos quais eu conheço a história entrecortada de um ou outro. Consegui esse papel e caneta com um desses amigos, Téo, ele disse que achou na rua e trouxe pra cá... mas acho que a história não é bem essa, mas não vem ao caso agora. Já sinto meu corpo tremer, minha letra deve estar quase ilegivel agora, eu estou tentando me controlar mas não consigo mais, há muito perdi o controle sobre isso e, tem momentos que espero morrer logo, pois a cura parece algo distante demais.