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Ao outro lado do Oceano

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

 Metrópole...


Não sei que dia é hoje, podia pegar o celular e ver, mas, não importa, mesmo eu tendo aprendido que cartas começam com o local e a data. Mas, não importa que dia é ou deixa de ser, importa o dia que estiver com esse pedaço de papel entre as mãos.


Não é doido que, mesmo com a tecnologia imensa que temos hoje eu tenha mandado uma carta que deve ter levado algumas semanas pra chegar? Acho legal isso, o envelope com as bordas verde-e-amarelo foi uma invenção da Europa pra quando mandassem uma carta para outro país saberem que aquela era pro Brasil... mas acho que já sabia disso e nem é por esse motivo que escrevo.


Escrevo essas linhas sentada no chão, entre várias bolinhas de papel das versões anteriores da mesma carta que não consegui concluir, que estava ficando ruim, que minha letra estava feia... confesso que já deviam fazer uns bons anos que não escrevia nada à mão. Normalmente escrevo listas de compras e alterações nos trabalhos que estou fazendo, coisa de poucas palavras.


A verdade é que tem algumas semanas que estou com esse pensamento recorrente na cabeça, que estou tentando voltar algumas casas no nosso Jogo da Vida para entender o quê aconteceu, em que jogada as coisas ficaram estranhas. Nem nossa conversa no aplicativo explica o que aconteceu, porque um dia estávamos falando e do nada... paramos.


Faço um mea culpa porque eu também não procurei, não cutuquei mais, porém... não o fiz por achar que ia ser chata, odeio me sentir o fardo de alguém, por isso, assim como você, acabo me calando enquanto espero um sinal de que posso voltar a puxar papo.


Lá fora chove torrencialmente já fazem uns dois ou três dias e tudo que eu penso é como queria algum alento. Antes que pergunte eu e Dominic estamos bem, o problema é que... não tenho com quem dividir coisas banais, pra quem mandar um áudio de vinte minutos, às três horas da manhã falando de um cliente ruim, de uma pessoa estranha que vi no mercado, de como passei a odiar a chuva nesse lugar quase tanto quanto odeio os dias de sol... 


Escrevi tanto que parece que minha tendinite voltou, por isso vou me abreviar e perguntar, com toda a sinceridade e sem nenhum tom de cobrança ou maldade: o que aconteceu com a gente? Sinto saudades nossas.


Com um amor saudoso,

J.

Schorodinger

domingo, 12 de abril de 2020

De repente eu estava vendo Helena limpando a cozinha e nada mais fazia sentido, olhei minhas mãos, meus dedos mexiam mas eles não pareciam meus, corri os olhos pelo braço até ver que eles estavam conectados ao meu corpo. Mas então...? Poderia ser sonho. Afinal a comida não teve gosto de nada. O som da rua parecia muito mais distante do que realmente era. Vou acordar. Me belisquei fechando os olhos, afinal se estiver dormindo vou ter que abrir os olhos.

Abri os olhos e tudo continuava igual. Devo estar em uma crise de despersonalização de novo. Foda-se. Tanto faz, ultimamente todo que eu queria era estar morta. Claro que não posso deixar transparecer isso pra Hell, mas... eu estou completamente esgotada. Sem a menor força pra continuar tudo isso aqui. 

Não. Não posso pensar nisso. Me levantei da mesa dizendo que iria tomar banho e ouvi um "de novo?", um fio de cabelo molhado tocou minha nuca. Então vou dar uma volta de carro. Não. Lembrei do pesadelo da noite passada. Era a mesma cena do acidente, só que quem dirigia era eu e no banco do passageiro estava Helena. No banco de trás uma voz de criança me chamou pelo nome. Na hora que virava o espelho para ver quem era eu via a mim mesma e, no movimento de tentar me virar inteira para ver quem era sentia meu pescoço estralar com tanta força que acho que foi ali que morri dentro do sonho.

Curioso pensar como uma merda de um sonho tinha estragado meu dia a tal ponto. O corpo tremia tão sutilmente que nem mesmo quem pegue minha mão sentiria. Eu estava me afogando em mim mesma, de novo. Raposa, jogue uma boia. Raposa? Não conseguia senti-la. Não... não... não me deixe aqui sozinha, não agora. Não... me tira daqui... anda... Não.

Abri os olhos. Estava no chão. Helena do meu lado, olhar preocupado. A raposa respirava aliviada. A cabeça latejando o corpo inteiro mandando espasmos como se falassem "dedos do pé, câmbio", "canela, câmbio". Tentei levantar e Hell me segurou.

- Calma, devagar... - Aos poucos ela me ajudou a sentar - Ta tudo bem? Você me assustou.

- O que... aconteceu?

- Eu tava dormindo - Só agora notei que ela estava com uma camiseta grande - Ouvi um barulho, não te vi na cama e vim ver o que estava acontecendo...

- E o que - A cabeça girou inteira, quase caí de volta, respirei fundo - Aconteceu?

- Não sou CSI... mas apostaria que tem relação com aquela garrafa vazia e lembranças ruins... mas vem cá.

Nada fazia sentido. Talvez fosse o que ela falava. Talvez ainda estivesse dormindo e daqui a pouco acordaria. Ao levantar senti o fio de sangue escorrer da perna. Que merda tinha acontecido aqui?

- Hell... eu...

- O que foi... - Ela viu minhas costas, ao que parece eu tinha caído em cima de outra garrafa igualmente vazia e que agora não tinha mais sua forma original - Puta merda Jana... vem cá, vou dar um jeito nisso.

De repente eu estava a caminho do banheiro e foi impossível não lembrar do dia que quebrei um copo na palma da mão. Foi um sentimento semelhante. Com cuidado sentia Helena tirar minha blusa e com a habilidade de quem já faz isso faz anos ir tirando caco por caco das minhas costas. O corpo pendeu para frente, não conseguia me sustentar em pé ou nem mesma de joelho. 

Cada pedaço de vidro que saía era mais uma confirmação de que eu não sentia absolutamente nada. Quis dizer para Helena me deixar ali e ir cuidar da vida dela. Talvez eu tenha dito pois notava nas palavras dela um tom de choro. Eu não entendia nada que ela falava, parecia outro idioma, às vezes ela parecia cantar. Me lembrei do dia que nos conhecemos naquela biblioteca. Acho que cada pensamento meu estava saindo pela boca pois a ouvia dizer para ficar calma. Sem perceber tudo foi escurecendo, escurecendo e eu apaguei.

Acordei em um sobressalto assustando tanto Helena quanto a raposa. O ar nos pulmões não vinha em quantidade, podia sentir o coração acelerado, as palavras voavam pela minha cabeça como se fossem pássaros enfurecidos. Não sentia nenhuma dor. A morena me perguntou o que foi, perguntei da noite passada. Nada de anormal. Ela deve estar querendo me privar das lembranças... passei a mão nas costas e nada. mas o que? Nada mais estava fazendo sentido. Caí de volta na cama. Tentar dormir pra ver se acordo em um mundo menos pior. Ótimo.

Entropia

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Não tem como dizer o que acontece. Pode ser um pico de stress, um ápice de riso, qualquer situação, quando você vê a sensação de estar sonhando está lá. Pode parecer confortável não ser atingido por nada, mas não é, é sufocante. Não vou dizer que é a pior sensação da vida porque já senti coisa pior. Mas é angustiante, você não sabe se vai conseguir parar, quando vai passar, se vai passar.

É uma defesa do cérebro antes de acontecer algo pior, penso que deveria durar pouco, acredito que pra maioria das pessoas dure segundos, seja imperceptível, mas pra mim acaba durando horas, dias, semanas. Arrisco dizer que já durou meses um tempo atrás. Arrisco porque afeta a memória e, quando penso nisso, tento ter lembranças antigas e tenho uma, com uns onze pra doze anos, estava em uma churrascaria e tenho a imagem de ter virado pra minha mãe e dito "tô com a impressão que estou sonhando", é só um flash, uma cena de, no máximo, cinco segundos.

Depois disso é um grande campo branco. Não lembro de mais nada. Minto, pra não dizer que não lembro de absolutamente nada eu tenho mais flashes de cinco segundos nos anos que se seguiram. Um no banheiro, um na escola... de resto não tenho nada. As coisas que alego ter passado ou é coisa que todo mundo passou, história que alguém disse que passei ou coisa que eu invento. Aprendi a inventar boas histórias sobre meu passado.

Se isso ficasse só no passado mais remoto maravilha, porém não é o que anda acontecendo. Todas as lembranças de anos recentes acabam se tornando algo branco, vazio. Ou, pra não perder completamente nada, ficam aqueles flashes. E o mais foda é que, de uns dois anos pra cá, começou a ficar mais intenso. Graças à internet descobri um possível nome pra isso: despersonalização.

Não gosto de usar muleta de doença, mas caso eu realmente tenha essa eu não sei o que fazer. Não sei como agir, não sei pra onde ir ou pra quem pedir ajuda. Houve uma época que eu conseguia sair das crises mais intensas provocando dor física. Hoje não funciona mais, é como se fosse uma pedra caindo numa lagoa: faz as ondas e logo volta tudo ao normal. Quase como se meu cérebro buscasse uma entropia. Entropia. Vou chamar isso aqui de entropia.

Nada é real. Ou é? Tem dias (como hoje) que eu vou acordar de um coma ou algo parecido lá nos onze anos. Só que acho que minha cabeça não é tão inventiva a ponto de criar tantos anos a frente... se bem que ela criou segundos de anos. Merda. Não sei mais o que fazer. E ninguém vai ter a resposta. Quando perguntarem o que é eu prefiro dizer que não é nada ao ter que explicar tudo isso... até porque ninguém vai entender mesmo. Então eu prefiro pegar, mentir tudo e pronto, ainda está funcionando.

Não. Não está. Sim. Eu estou em total conflito. E não é entre personalidades, é entre eu e eu. É diante de um espelho imaginário. E nesses momentos eu tenho a nítida impressão de que eu não existo e os versos de Pessoa (sempre ele e sempre esses versos!) me vem: Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo.

Já não sei mais sobre o que estou escrevendo. Eu devia estar trabalhando, mas zero ânimo de trabalhar. Amo meu emprego, mas nos últimos dias tudo tem sido um grande nada. E aí a urgência de fazer algo que marque, que seja realmente diferenciado fervilha. Mas eu não posso fazer e, quando vejo, o dia passou e não fiz nada. De novo. Talvez esse campo vazio de lembranças seja justamente por isso, por eu nunca ter feito nada. E Pessoa vem de novo.

Girassol

sábado, 16 de março de 2019

"Isso não vai dar certo" pensou Helena se levantando com a maior sutileza felina que ela tinha dentro de si. Quando girou o trinco da porta temeu que Janaína pudesse ter acordado. Não, ela tinha no semblante uma exaustão que não achava justo em um rosto tão bonito. Caminhou pela casa com meias nos pés sem se importar se as sujaria a tal ponto que teria de se desfazer delas.

Quando chegou à porta da cozinha que dava acesso para a varanda dos fundos notou que a mesma estava trancada e que a chave não estava ali. O excesso de zelo de Janaína lhe irritava às vezes. Não queria sair pra usar droga, só queria ver o céu. Por sorte a janela da cozinha não tinha grades como as demais então, em pouco menos de um minuto estava do lado de fora ouvindo aquele som abafado da cidade debaixo de um céu estrelado. Não era tão estrelado quanto na sua viagem... com algum esforço levou uma das espreguiçadeiras para o pequeno gramado, tomando cuidado para não atropelar as hortaliças que Janaína plantou.

Céu estrelado. Hortaliças. Insônia. Se lembrou de uma menina, na verdade uma jovem mulher que conheceu. Corpo pequeno, magra, pouco peito, pouca bunda, pernas magras. Sempre com vestido ou saias longas e blusas de alça. Sempre pra mostrar o quão magra era. Lembrando agora Helena quase a relacionou com hippies. Mas ela morava em uma casa pequena, bem aconchegante alguns quilômetros da cidade. Lá tinha uma horta com tomates, pepinos, alface, cebola, morango, laranja, limão, umas duas dúzias de galinha além de, vez por outra, pescar num riacho ali perto.

Helena chegou lá depois de passar dois dias na cidade e praticamente ser escorraçada de lá por ser de fora. Cidades pequenas eram uma merda. Foi quando viu aquela garota magricela, não mais que vinte anos, lhe oferecendo um suco verde. Uma sirene quase lhe tirou das lembranças. Era a primeira coisa, o  tipo refeição que tinha em quase uma semana. Havia roubado meia dúzia de laranjas no caminho até aqui e tomava água das bicas que encontrava estrada afora. Quando acordou a segunda noite na praça a polícia local perguntava quem era. Ora se dizia viajante, ora se dizia em uma jornada espiritual... mas naquele dia disse que estava só passeando pela região, que morava em uma cidade próxima e que havia se desencontrado de sua carona. Helena sempre teve uma habilidade sobre-humana para inventar histórias sobre si.

Foi quando a hippie interviu e disse que me "ajudaria". No caminho até a casa dela Helena soube que a moça magérrima não havia acreditado em uma só palavra mas que sabia que ela não era má pessoa, só estava em busca de algo maior que nem ela sabia o que era. Ao ser desmascarada assim Helena quis saber como ela sabia de tudo aquilo. "Porque eu já passei por isso. Aqui eu me encontrei... mas aqui não é o seu lugar.". Além de hippie ela tinha uns ares de bruxa. Como era de se esperar a casa não tinha grandes luxos, uma televisão antiga, um notebook com adesivos de viagem... era uma casa humilde mas muito confortável e cheia de girassóis.

Ali Helena aprendeu a lidar com a natureza, a ouvir o próprio corpo. A respeitar o tempo das coisas. Teve de aprender a esperar uma semente virar muda. Uma muda virar planta. Uma planta dar frutos. Os frutos amadurecerem. Os frutos maduros serem colhidos. Os frutos colhidos saboreados. Ficou quase dois meses lá. Por um instante sentiu saudade daquela paz. Mas sabia que não era pra voltar lá. Foi uma etapa vencida. Superada. Claro que planejava voltar e visitar um dia, mas primeiro tinha de cuidar de si. Ficou tanto tempo na estrada, deu tanta volta que se esqueceu que tinha aqui, com Janaína, tudo que precisava. Quando as estrelas começavam a sumir dando lugar a um ceu azul escuro que logo clareava ouviu a porta da cozinha destrancar. Ouviu um resmungar baixo vindo da porta e, logo em seguida, haviam duas espreguiçadeiras no gramado.

- Sabe, Hell - Janaína se deitou deixando o corpo relaxar sobre o móvel - Faz tempo que não vejo o nascer do sol.

- Na estrada eu via quase todo dia.

- Você fala pouco daqueles dias... - Janaína não falou como se cobrasse ou intimasse a amiga a falar - ... sente saudade da estrada?

- Um pouco - Helena respondeu olhando a amiga com o canto do olho esperando uma repreensão que não veio - Estava lembrando de uma moça que conheci... loira, bem magra, tinha a mesma mania tua de viver de saia longa, mora lá perto da fronteira com o Paraguai...

- Longe... - Janaína soltou um suspiro baixo - ... conta essa história.

E assim, até o sol subir vários graus céu acima Helena contou toda a história que havia relembrado horas atrás, sobre como a insônia, o céu estrelado e as hortaliças lhe lembraram da pequena que, provavelmente, nesse instante, estaria colhendo os morangos que Helena havia plantado e os vendia na cidade junto com duas dúzias de pés de alface, dez dúzias de ovos e, quem sabe até, um grande namorado pescado horas atrás. Ao fim da história Janaína se propôs a buscar pão enquanto Helena guardava as espreguiçadeiras. Concordou sem reclamar. Quando colocou os dois móveis dentro da varanda voltou ao canteiro onde hortaliças cresciam frondosas e, no meio delas, um girassol reinava absoluto. Lhe tocou com carinho e ternura enquanto, junto com uma lágrima solitária balbuciou:



- Obrigada... Isadora.

Loba

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Mandou um beijo com a palma da mão, agradeceu pela compania até agora e deu tchau fechando a câmera. Suspirou aliviada deixando o corpo cair na cama. Tirou a peruca rosa a jogando para o lado. De olhos abertos Érika viu o teto do quarto sujo. Qualquer dia tinha de limpar, se bem que esse cômodo aqui só precisava estar arrumado o que ela queria mostrar nas lentes - no caso a cama, uma parede com funkos que ganhou de presente e um grande quadro de uma pinup que achou em uma loja por um preço ridículo.


Várias vezes pensou em parar. Aquilo ali não era vida. O pior é que ela gostava, fora que era um puta complemento de renda. Se ficasse apenas como garçonete nos finais de semana não poderia manter o padrão de vida que seus filhos tinham. Terça, quarta e quinta tinha show marcado. Enquanto alcançou o celular chegou na mesma conclusão que sempre chegava: pelo menos não era prostituição na rua, ela apenas se mostrava na câmera e sempre com quem pudesse pagar mais. Em um mês bom tirava quase oitocentos dólares limpos. A maior parte ia para a casa e uma parte guarva para alguma aventura.


Claro que ela tinha um sonho secreto. Ainda se lembrava do dia que uma russa lhe pagou cinquenta dólares para ficarem conversando, bebendo e se mostrando na câmera. Pensar nisso lhe deixou molhada. Balançou a cabeça negativamente. Puxou do canto da cama a calcinha que havia jogado longe, o sutiã que estava no mesmo canto também foi vestido junto do robe de uma marca vagabunda que havia comprado na internet mas era bonito. Quase confortável.


Do armário atrás do notebook pegou a garrafa de tequila. A mesma que havia comprado para um show onde, a cada dez dólares, viraria uma dose. Bebeu quatro doses naquele dia, dormiu com a câmera aberta. Ainda tinham dois terços de garrafa. Por trabalhar no horário da Rússia e da Ásia sempre trocava o dia pela noite e agora não tinha um pingo de sono. Olhou o relógio. Duas e cinquenta e três. Pensou em Amanda, sua filha com Wellingtown, semana que vem ela faria seis anos e passaria a ir para a escola. Tobias ainda tinha seus dois anos. E pensar que oito anos atrás teve uma oportunidade de ir embora do país.


Abriu a garrafa arrancando a tampa com a boca. Pensou que plot twist azedo se tornou sua vida. Bebeu um farto gole para abafar esse pensamento. Resolveu colocar seu fetiche em dia. No seu idioma. Entrou na sala de bate-papo. Agradecia aos céus por elas ainda existirem. Sempre ficava na câmera contra outra câmera. Perdeu as contas de quantas em vez de uma mulher viu outra coisa. Lamentável.

Foi quando viu um nick diferente. Desde sempre se dizia a Loba Morena. E agora na sua tela surgia a Raposa Solitária. Será que haviam parentesco entre lobos e raposas? Não sabia e não estava com a menor vontade de pesquisar. Bebeu um gole curto dando seu já clássico olá. Quatro minutos depois a Raposa respondeu.

Mais um gole. Um trovão rompeu o céu madruguento anunciando uma tempestade. Comentou com a Raposa que disse ter ouvido o mesmo. Não deviam morar longe. Será que hoje teria coragem de ir até o fim? Bebeu um gole longo. A metade da garrafa já ficou para trás. Hoje ia ver até onde era capaz de ir.

Falaram sobre inúmeros assuntos até chegar ao ponto da curiosidade sobre quem era por trás. Dessa vez não estava pronta caso fosse um homem. Hesitou um instante. Não haviam homens tão interessantes acordados esse horário.

Carregando. Érika viu o próprio corpo refletido na imagem da própria câmera. Um segundo mais e apareceu o corpo da Raposa. Os fios loiros cobriam uma camisola simples de tom rosa-chá. Mais algumas frases e logo decidiram mostrar rosto. Érika tinha um rosto ovalado, olhos pequenos, boca estreita e nariz fino, tudo herdado de seu avô, que veio do Japão. A Raposa propôs um brinde. O brinde aceito ambas beberam fartos goles. A Loba tequila, a Raposa vodka.

Logo o calor - uma desculpa - as obrigou a despirem-se. Érika sentiu o corpo tremer. A respiração subiu, o sorriso fino ao ver o corpo extremamente normal da Raposa lhe trouxe planos. Agora era a hora de realizar aquele velho plano. Trocaram telefones.

Assim a Loba Morena voltou a ser Érika e, agora, a Raposa Solitária passou a se chamar Janaína. Uma ligação se fez para confirmar as identidades. Obviamente todo aquele sangue no álcool das duas trouxe uma proposta que ninguém sabe de onde surgiu. Mas terminou com Érika retorcendo os lençóis da cama bagunçando tudo. Os gemidos baixos para não acordar ninguém dos quartos vizinhos era abafado pelo travesseiro.

Silêncio. Depois de quatro minutos as vozes voltaram à chamada telefônica. Érika tomou a iniciativa, tinha que colocar todo aquele desejo para fora, aproveitar a oportunidade. Propôs um encontro para já, o dia seguinte. Final da tarde. Janaína aceitou propondo local público. Um shopping para depois decidirem para onde iriam.

A ligação acabou com Érika com um sorriso imenso. Já devia ter machucado o lábio de tanto que o mordiscou. Se levantou, arrumou o lençol, desligou o notebook e caiu na cama. Acordou no meio da tarde com Wellington a chamando. Ele sabia que ela ganhava dinheiro com a internet. Ela dizia que de madrugada era mais propício para trabalhar porque alguns dos clientes que prestava consultoria eram asiáticos. Sua meia verdade fazia sentido. Meia verdade. Meia mentira.

Limpou o quarto, cuidou das crianças. Pensou novamente em largar tudo. Mas a grana era boa demais pra abrir mão assim. Pegou o telefone. Centenas de mensagens que foram sumariamente ignoradas. Tudo aquilo não podia ter sido fogo-de-palha, enviou uma mensagem para Janaína confirmando o encontro.

Se sentia errada mentindo. Mas era preciso, não haviam empregos para mãe de duas crianças. Todo mundo achava lindo um par de filhos mas ninguém sabia o que ela e Wellington sofriam para cuidar. Quando já se dava por resignada, seu encontro havia ido por água abaixo a tela do pequeno aparelho com uma rachadura na tela na lateral superior esquerda acendeu. Sorriu de canto. Aos viventes da casa disse que tinha uma reunião na sede da empresa que ficava do outro lado da cidade e, por isso, frente às últimas luzes do dia, sairia rumo ao outro lado da cidade. Sozinha no quarto vestiu uma calça jeans normal, uma blusa preta do Nirvana, nos pés um all star baixo. Na bolsa levava, além do celular, chaves de casa, algum dinheiro e spray de pimenta uma muda de roupa íntima mais sensual, infelizmente conforto e sensualidade não passavam pelos mesmos departamentos nas fábricas de lingerie. Deu um beijo em todos e seguiu rumo a porta.

Já no portão respondeu que estava saindo, mesmo que faltasse mais de uma hora para a hora combinada. Aproveitaria para passar pela loja e ver qual era o preço daquele telefone que Amanda queria e depois shopping. Se bem que ia propor um bar de rock não muito longe dali.

Dia de realizar desejos.

Festa

segunda-feira, 30 de abril de 2018

- Acorda mais um dia, isso, vai, aguenta, viva, você sobreviveu. Mais um dia e outro e outro e mais um e quando viu já foi uma semana inteira, e outra semana e mais uma e passou um mês, você sobreviveu de novo. Cabe um parabéns aqui?

- Não sei, sobreviver é meio que um dever de todo mundo, então acho que não. Não?

- Não, se fosse sobreviver e se sobressair, aí sim mereceria uma parabenização, assim, só sobreviver sem mover muito mais coisas do que qualquer um moveria não seja passível de comemorar.

- Entendi. E quando se sobrevive em meio a inquietações e nuvens negras que soterram a existência e tiram toda a vontade de sobressair ou até mesmo de colocar aqueles velhos projetos em ação, quando se faz, ainda que o básico, por não conseguir sair desse vórtice, e quanto sobreviver, tendo uma voz doce que todo dia diz "pule" ou que, todo dia de manhã diz "pra que fazer tudo isso? Você vai aabar fracassando, frustrando as pessoas de novo e de novo e de novo, esse é seu destino", quando reagir aos estímulos é o máximo que se consegue fazer nos dias que passam todos iguais?

- Bem... aí acho que cabe alguma felicitação, afinal não se está deixando ser totalmente tragado pelas inquietações, reagir a estímulos faz com que as inquietações se calem, que essa voz cesse seu discurso.

- Elas sempre estão ali, naqueles dois segundos entre dar um enter e começar a próxima linha de texto, enquanto um software carrega, enquanto vai ao banheiro, na hora do almoço a voz se torna mais intensa, então se afoga em comida para ver se ela se cala, na hora do jantar a comida não é tão farta então se afoga em bebibda e só assim consegue sobreviver a mais um dia.

- Compreendo... então, se é assim, vamos celebrar.

- Com comida e bebida?

- Sim, comer e bebes, uma celebração completa, passe naquela loja e compre uns balões, encha-os e coloque alguns na parede, vai dar um ar renovado para a velha decoração, vamos comemorar todos os dias antes de dormir.

- Assim a comemoração vai parecer algo automatico, uma rotina...

- Então só me resta dizer uma coisa...

- O que?

- Pule...

O bilhete no teu travesseiro

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Você dorme e eu te olho com uma vontade absurda de ter você, de sentir sua boca encostada no meu ouvido, de me juntar contigo assim sem avisar, mas penso que talvez isso fosse dado como quebra de contrato. Temos as nossas leis, vamos ao início. Coloquei meu coração na caixinha junto com a aliança e ele ficou lá, guardadinho. Te olho e te quero mesmo sem hoje ter muita certeza de quem você é, de quem eu sou, do que somos. Só quero. Sabe bem que sou assim. As vezes vou fazer manha e rolar pro lado esquerdo da cama só pra ver você se empurrar pra perto e me puxar de volta pela cintura. Pra sentir esse seu "vem cá ou eu te puxo pra mim". Precisa ser assim, as vezes você precisa me puxar, a maioria delas, mas eu vou.
Eu sempre vou.

Penteadeira

domingo, 23 de outubro de 2016

Olá pai, Lilian, jana...

Sei que vocês não vão me entender, que talvez queiram sair atrás de mim desesperadamente, que acham que eu não sou capaz de me virar sozinha. Talvez eu não seja. Mas convenhamos que chegou a hora daquela menina que, anos atrás, só dava problemas, correr atrás da sua vida. Correr atrás do que ela acha certo na vida e, assim, tentar reparar algum erro que possa ter deixado para trás. Somem essa carta à última e... mais ou menos entenderão o que fui buscar.

Pai e Lilian, sei que fiz um monte de coisa errada e agora estava tomando rumo na vida. Obrigado por me ampararem naquela fase difícil que, nem eu sei como, fui parar. Desculpe a quantidade de merdas que fiz, a quantidade de preocupações, de sofrimentos e outras coisas mais.

Janaína, pois então... não sei como dizer isso pra você. Mas precisei te dar o cano de novo. Não quis te esperar de manhã porque sei que, assim que chegasse, eu não iria querer sair. Sei que eu ia acabar enxergando minhas conquistas só mudando minhas atitudes e não mudando de ares. Acredito que vá dizer que ir embora assim é bobagem e tudo mais, mas uma hora vai entender.

No mais não vou escrever mais. Só peço que confiem em mim. Preciso desse tempo longe de tudo e de todos pra me achar, sabem? Quero ver quem é a Helena dentro desse corpo, dentro dessa mente. Não vou sumir e pretendo mandar cartas para vocês de tempos em tempos, quem sabe email, ligações... 

Só peço uma coisa: não tentem me encontrar. Não agora. Preciso desse tempo comigo mesma.

Com amor,
Helena.

O início do fim - parte I

sábado, 24 de setembro de 2016

Acordei em mais uma manhã de primavera com cara de outono. Abri os olhos e senti ao despertar uma inexplicável culpa. Era como se acordar mais um dia fosse um crime. Fechei os olhos novamente, as lágrimas aqueceram meus olhos de imediato, apertei as pálpebras e sem querer, molhei o travesseiro. Tentei engolir o choro e junto com o choro, tentei engolir aquele nó na garganta que há dias se fazia presente. Permaneci por mais alguns minutos imóvel na cama. Notei que ele não estava em casa ainda, logo em seguida vi a mensagem de que dele não apareceria tão cedo. Meu coração quase saltou do peito. Estar sozinha era tudo o que eu queria, em paralelo, também era tudo o que eu temia. O tempo passava em câmera lenta, como se tivesse sido colocado num conta-gotas daqueles que você precisa fazer um certo esforço pra pingar algo. Não demorou para que as velhas sombras viessem visitar. No começo eram sussurros, logo tornaram-se vozes imponentes decompondo o resto de razão e equilibrio que havia em mim. Peguei uma luva cirúrgica, usei como garrote, apertei bem usando a boca para puxar, minhas mãos estavam ocupadas procurando veias. Malditas veias, nunca aparecem quando preciso. Puxei o garrote improvisado com um pouco mais de força, senti um alívio doentio ao ver o sangue subir. Estava na veia, era só injetar lentamente e tudo começava a desaparecer. A visão ficou turva, os movimentos igualaram-se ao tempo. Eu também estava em câmera lenta. Não tive tempo de tirar a agulha do braço, ali mesmo sentada no chão com a seringa pendurada no braço, adormeci.

O que você precisa saber

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Ninguém nunca me conheceu tão bem quanto você. Ninguém nunca soube tanto sobre mim. Você sabe dos meus medos. Eu sei parte dos seus. Você sabe das minhas manias mais infantis, sabe os meus segredos, conhece a minha história. Você já me viu em crise de riso, em crise de choro e em crise de loucura. Você sabe que sou assim, oito ou oitenta e oito. Sim, oitenta e oito porque apenas oitenta é pouco pra definir os meus extremos. Ah, os meus extremos! Nunca sabemos quando explodirei, mas sabemos bem o que acontece depois. É sempre igual, toda vez que ouço meus instintos, acabo abraçada com meu próprio travesseiro chorando como uma criança perdida no shopping. Desamparada, assustada... Mas nunca muito arrependida. Sou aquele tipo de bandida que conta os crimes com um sorriso malandro no rosto, mas cuja as dores são ditas em voz baixa ao pé do teu ouvido. Você sabe quase tudo sobre mim. Quase. Eu nunca te apresentei aquela minha velha amiga e temo em dizer que ela é meio ciumenta. Ela foi a única que nunca me deixou, nem por um milésimo desde que fui concebida. Ela não gosta de dividir a minha atenção. Ela me quer por inteira, ela sabe como fazer o que bem quiser de mim. A esse ponto, imagino que você esteja achando isso estranho, dado o fato de que também sou orgulhosa o bastante para fazer apenas o que quero, mas ela consegue me convencer do que ninguém mais é capaz. Eu sei que um dia ela vai vir e tentar nos afastar. Eu sei que ela não vai aceitar bem me ver sorrindo com outra pessoa. Eu a conheço. Ela vai me fazer chorar. Vai me olhar com aquele jeito de quem quer colo e eu vou cair na lábia dela. Vou sentir a necessidade de tirar um tempo só com ela e peço que nesse momento então, você entenda. Estou me referindo à solidão, essa mesma que eu sei que já saiu muito com você. Nós sabemos como ela é e o quanto é difícil deixa-la ir. Mas por favor, meu bem, não permita que ela me tire você. Deixe-a andar comigo as vezes, mas não deixe que ela tome todo o meu tempo. Não permita que ela me cegue. Não fique triste quando ela tentar competir com você. Quando ela vir, apenas me abrace. É o suficiente pra me fazer te escolher mais um dia.
E eu continuarei te escolhendo por hoje e por amanhã.

PS: Se só "hoje e amanhã" parecer pouco, volte aqui amanhã e leia novamente. Continue fazendo isso todos os dias.


 Com amor,
tua.

À Helena

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Olá minha irmã. 

Espero que esta te encontre bem. Tem alguns anos que estou me protelando em lhe escrever essas palavras. Na verdade desde que eu tinha 10 anos e descobri o real motivo de meu pai não voltar todos os dias pra casa. Graças a TV eu soube que existiam homens que traiam suas esposas com outra mulher. Por algum tempo achei que meu pai tinha outra. Até que me caiu a ficha: minha mãe era a outra. Não digo que não passei vergonha na escola na época de dia dos pais por ter uma boa lábia e saber mentir desde cedo. Mas passei alguns apertos. 

Passaram os anos e tudo que consegui foi seu nome e uma foto de quando você era criança, com uns 4 ou 5 anos. Agora deve ter seus vinte anos... nossa, imagino suas burradas e fico querendo te consolar (mesmo que eu não seja assim com ninguém). A verdade, minha irmã, é que a vida foi injusta conosco e eu mal espero a hora de te encontrar e fugirmos para algum lugar distante. Até a próxima carta. 

Com amor, Alice.

Corrosivo

sexta-feira, 27 de março de 2015

O que você faria se soubesse toda a verdade? Se soubesse um dia sonhei que seu veneno se juntava ao meu, o que diria? O que faria se um dia eu resolvesse te contar que por trás de cada ofensa no fundo quero dizer "MEU amor"? O que você faria se soubesse que quando eu me afasto, quando grito, quando sou rude na verdade é só medo de lidar com tudo? Você sabe o quanto tudo me assusta. Você sabe melhor do que eu.
Qual seria a sua reação se eu te dissesse que os seus olhos atraem os meus e me prendem a você? Não quero gastar o meu tempo ao seu lado, não quero ficar tão perto, não quero nem por um segundo confessar que você é tudo o que eu tenho de mais bonito. Não quero te contar que não sei medir o que sinto e diante de tudo isso, acho que nem preciso dizer o que realmente existe por trás de cada "te odeio", não é?
Então te odeio, te odeio muito. Te odeio tanto que até dói. Te odeio de uma forma que dói te ver indo embora, sempre. Te odeio a ponto de ficar triste por saber que você não me odeia de volta. Te odeio, com todas as minhas forças, eu odeio você.

E só para que você saiba: esse ódio todo me consome, dia após dia. E a culpa? É toda NOSSA!

Requiém de uma tempestade

domingo, 30 de março de 2014

Abri os olhos antes das nove da manhã. Não era o horário que eu acordava frequentemente, mas o sono simplesmente desapareceu. Perdi alguns minutos do meu tempo enrolada nos edredons observando as cores do meu céu. Há tempos meu universo era aquele quarto onde quase tudo era branco e marfim. Sentei na poltrona próxima à janela, abri as persianas, vi que o sol bradava lá fora. Haviam crianças brincando na pracinha em frente ao prédio. Invejei-as. Senti falta de quando a vida ainda tinha sabor de algodão-doce. Senti falta de quando eu ainda conseguia sentir conforto ao ser aquecida pela luz do dia ou deitar na grama dando forma às nuvens no céu.
Eram memórias distantes. Tudo o que eu passei a conhecer era sobre solidão. Descobri que a dor tinha som. Som de choro. Som de chuva. Som de música instrumental, quase como Clair De Lune. Em seus casos mais extremos, eu também poderia dizer que o som da dor se parecia com "Moonlight Sonata" de Beethoven. A tristeza tinha o mistério e profundidade da obra "The Crow" de Van Gogh. Que talvez, sofrer também fosse uma arte das mais masoquistas e sádicas ao mesmo tempo. Descobri que o poeta vive de sua angustia, dela vende e dela mantém-se vivo. E que bela ironia manter-se vivo quando tudo de mais humano em você já morreu! Artistas não fazem sentido tal como nada conhecido na existência faz sentido.
Que é o amor se não as flores jogadas sobre o túmulo de quem já desistiu de si próprio? Que é o amor, se não o último floco de neve quando o inverno acaba? Que é o amor, se não apenas um rastro de esperança mal guardada?
A vida é líquida e corre por entre os vãos dos dedos sem que ninguém perceba.
"Luz! Luz! Mais luz!" e de Goethe, faço essas também minhas palavras. Embora o quarto fosse claro, todo acúmulo de sentimentos me cegava. "Luz", gritava o espírito de Goethe assim como meu espírito grita. Mais luz.

Confusão

domingo, 5 de janeiro de 2014

Olá, como estas?

Talvez essa seja minha última carta
. Hoje o dia foi estranho, as nuvens não sairam do céu e a chuva caiu sem parar. Pensei em você vendo os pingos refletivos na janela imaginei o que estaria fazendo pensei em te ligar, mas estou sem créditos. Claro que eu podia ir até a padaria na esquina e fazer a recarga, mas... deixa assim por enquanto. Enquanto escrevo essas linhas bebi uma garrafa de vinho vagabundo afim de saber como estas. Não fiz minhas resoluções de ano novo por considerar isso um costume um tanto quanto idiota, vou fazer o quê tiver que fazer e pronto. O resto decido no caminho.

Pensar nisso me fez sorrir de canto.Sei que também não gostava muito dessas coisas de planos de ano novo né? Pois é, a única coisa que resolvi pra mim nesse ano é que vou sair e correr mais atrás do que eu realmente quero e pronto. Aposto que pensou o mesmo, viu como eu ainda te conheço o suficiente? E acho que sabe que eu não tenho bem um motivo pra lhe mandar uma carta, já falamos o que tinhamos que falar. Queria entender às vezes porque, quando o assunto é coração, as coisas parecem tão lentas (ou tão rápidas) pra passar. Bem dizem que o tempo é um santo remédio. Acho que essa resposta ninguem nunca vai saber não é? A verdade é que, todo o amor que eu tinha, tenho, merda, não sei, eu... ah, você sabe, acabou se acomodando aqui dentro. Tudo se tranquilizou. Aquelas ondas que vinham pararam, vez por outra vem uma onda de ficar olhando as nuvens. Mas são só lembranças. Vez por outra as estrelas lembram as velhas mensagens nossas. Aposto que faz o mesmo até hoje.

Cuide-se, se precisar, sabe onde me encontrar. Te amo, muito e tanto.

Eu.

à Astronauta de Mármore

sábado, 6 de julho de 2013

Olá, minha filha, espero que esta lhe encontre bem.

Quero que saiba que, apesar da demora em lhe encontrar, eu acabei conseguindo. Sei que fez muitas coisas erradas, sei que pesam algumas pendencias legais sobre você nesse momento, mas quero que saiba que, tanto eu quanto seu pai e sua irmã estamos do seu lado aconteça o que acontecer. Demoramos muito para te achar na rua. Foi demorado justamente porque as ruas estão cheias, são perigosas, mas felizmente te encontramos e agora fazem dois meses que obtivemos a vaga na clinica de recuperação. Os medicos dizem que é dificil dar qualquer parecer... mas tenho fé de que logo estaremos todos juntos comendo aquela lasanha que sei que adora. Sei que logo estaremos todos juntos novamente.

Sobre seus pecados... sei que Deus já te perdoou assim como eu perdoei. Não era culpa sua. Era culpa daquela porcaria que te deram. Deve estar pensando como te achamos não é? Suas cartas foram um alivio para mim, apesar das confissões que fazia nelas eu sabia que lá dentro daquele ser, daquela pessoa destruída por fora ainda vivia minha menina, minha Carolina, minha Carol, minha menina de cachinhos rebeldes. Baseamos nossa busca naquele rapaz que comentou, Téo. A familia dele também o procurava havia algum tempo. Viu minha filha? A menor das esperanças, a mais pequena luz que suas cartas escritas em letra tremida, em um pedaço de papel ordinário salvou duas pessoas. Você e o Téo, que a familia tratou de levar para uma clinica em Minas, que é de onde são os pais dele.

Enfim... esperamos que, depois de concluído seu tratamento possamos todos nos reunirmos. Eu, você, seu pai, sua irmã, o pai, a tia e o proprio Téo para comermos aquela lasanha que sei que vai me ajudar a fazer. Sei que vai.

Beijos minha filha, lhe esperamos ansiosos!

Fica com Deus, se cuida, nós te amamos muito.

manha de quinta

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Bom dia meu amor, eu sei que odeia acordar sozinha, mas tive que ir. Desfaz esse bico. Sei que no fundo vai entender. E sei que vai ficar bicuda o dia inteiro, ranzinza. Logo eu apareço de novo, de surpresa... ou, vai me ver, vou deixar o endereço atrás desse bilhetinho. Não venha correndo porque a casa está uma bagunça ainda e não bate o pé dizendo que não se importa porque sei que não gosta da bagunça e não ia sossegar enquanto não arrumasse até a última caixa e o último armário estivesse devidamente arrumado.

Agora franziu a testa. Que bosta que tive que sair e não pude ver sua birrinha... mas seria um crime imperdoavel te acordar meu amor. Não teriam avés-maria e nem padres-nossos capazes de aplacar minha pena por ter lhe acordado, ainda mais pra dizer que eu estava indo... odiaria ver seu sorriso da manhã virar um bico por eu estar indo. Claro que adoraria te ver bater o pé e reclamar porque eu me mudei, eu ia achar graça nisso... aliás, acho graça em você toda meu amor. Se não estou pior, é porque sei que está aqui comigo, dentro de mim, a cada instante. E daí que não pode responder as SMS por falta de saldo? Não ligo. Sei que lê e sei que manda suas respostas por nuvens, pela luz da lua e sei que me ouve conversar com a lua.

Fique bem que eu fico também. Lembra que o plano era ficarmos bem, lembra né? Quando menos esperar eu te faço mais uma surpresa, mas não toda hora se não te deixo mimada hahahaha

Te amo, muito e tanto, tanto e muito.

T(eh) amo.
~ Prê

Inacabado

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais uma manhã entre tantas outras, onde eu sequer lembrava se tinha dormido ou não. A luz do sol entrava pela janela e transpassava as camadas finas de cortina branca estampada, cujos desenhos eram refletidos sobre a mesa da cozinha. Cozinha que lembrava cozinha de sítio, ou casa pequena interiorana. Devia ser cerca de sete horas da manhã. Eu me recordo de encarar o calendário-imã colado na geladeira e tentar lembrar sobre como eu tinha passado os dias anteriores. Doze meses, 366 dias. Ano bissexto. Os domingos eram marcados por tinta vermelha que inevitavelmente associei a sangue, que acreditei não estar mais correndo em minhas veias. Que associei a dor. Que associei a perda. Que associei a mim. Eu tinha me perdido e nada poderia doer mais do que isso. Que seja. Os sábados não tinham marcação especial, como se não houvesse nada de especial neles também. Será que dor tem limite? Porque se tiver, posso dizer que cheguei próximo, se não tiver chegado ao limite. Cheguei a ponto de desligar qualquer percepção sobre o ambiente a minha volta. Desliguei as minhas reações, desliguei a compaixão, desliguei o senso de justiça, desliguei tudo o que podia me trazer uma lágrima, e embora meu rosto estivesse molhado ao observar o calendário e buscar lembranças, eu posso lhe afirmar que não senti nada. Nem sei o porquê do choro. Meu corpo estava tão amortecido que eu poderia apanhar até a morte sem gritar. Acredito que aquela lágrima veio da ultima parte de mim que ainda podia sentir. Daquele lado escondido, como um estepe, em caso de querer retornar à vida. Era a minha ultima parcela de humanidade morrendo, mas antes, lamentando pela própria morte. Pela minha morte. Por um corpo que carregava um espirito sem vida. Era o luto ao perceber que a vida passava por mim, os dias se foram e se desfizeram como fumaça no ar. Passaram sem nada que os justificassem. Como se todo o tempo “vivido” até então, fosse perdido.

Te odeio

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Te odeio quando acordo e vejo que não está na cama. Te odeio quando ouço barulho na cozinha e sei que está fazendo o café, odeio mais ainda ter que disfarçar que estou dormindo pra que me acorde, odeio - não muito - seu beijo com gostinho de pasta closeup. Odeio quando me fala aquele "bom dia" repleto de amor, todo meloso e adocicado. Odeio tudo ao espelho, assim como essa carta escrita na madrugada insone e deixada aqui, na mesa da cozinha, saiba que ela é assim, ao espelho, e avessa ao real motivo do ódio. Agora releia trocando os odeio por adoro/amo e venha repetir o café na cama de todos os dias. Não demora, te amo.

Bodas de Prata

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Que dia é hoje? Alguém se lembra? "Quinta-feira", é o que ele diria e eu mais uma vez concordaria dizendo: "É... Quinta-feira." E guardaria o meu silencioso pesar.
Acordei essa manhã e vi que ao meu lado ainda adormecido, estava o homem com quem me casei há exatamente vinte e cinco anos atrás. Quando o conheci eu ainda era bem jovem e cobiçada. Tinha um bom emprego e dava os primeiros passos livre das correntes de minha infância e adolescência tão limitadas. Eu cresci sonhando apenas com liberdade. "Casar" nunca foi prioridade. Aí ele apareceu. Tentei desistir umas três ou quatro vezes, mas ele se atirava em frente ao meu carro, ameaçava suicídio e me tirava do trabalho, até que eu voltasse pra ele. Acreditei que ninguém me amaria como ele amava, então nos casamos em Novembro de 1987. Não posso mentir: quando casei, não o amava, mas tinha esperança de amar um dia. Três anos depois tivemos um casal de filhos gêmeos. Ele trabalhava 14 ou 15 horas por dia, as crianças choravam em tempo integral, foi questão de tempo até que eu estivesse submersa em uma depressão profunda. Ele perdeu o emprego na mesma época em que eu estava a ponto de tirar minha vida.

Chovia quando ele me encontrou prestes a engolir um punhado de chumbinho. Ouvia-se o som dos trovões e o choro dos bebês, como se não bastasse, lembro do rosto dele, empalidecido, me dizendo pra pensar nas crianças.
Ah, as crianças! Perdi as contas de quantas vezes encarei aqueles bercinhos implorando que eles crescessem logo e, que ao menos uma vez, pudessem cuidar de mim. Então me calei, acreditei que o tempo levaria aquela onda de desespero pra longe e finalmente as coisas ficariam mais calmas. Engano meu.

Logo ele voltou a trabalhar, os bebês foram crescendo, a vida seguia implacável. Eu ia a reuniões de escola, lavava roupas, preparava a comida, fazia curativos, dava remédios pra febre, apartava brigas, tudo sozinha. Não tinha mais "família", amigos ou passeios. Eu era mais uma dona de casa. De menina invisível a Cinderela. De Cinderela a robô. Não podia chorar na frente deles, quando as lágrimas apareciam, eu me trancava no banheiro, até que cansada de fugir, acabei deixando minhas emoções de lado. Sobrevivi, todo esse tempo, sobrevivi.

Vinte e cinco anos depois, o espelho me mostrava uma adolescente quase-morta, triste e com rugas. Acorrentada, mais uma vez. Meio sem rosto, meio sem identidade. Mais uma dona de casa, entre tantas outras. Logo eu, que apreciava tanto o ar da juventude! Nem parecia a mesma moça que há pouco mais de 25 anos atrás recebia vários convites pra jantar dos rapazes mais bonitos da cidade. Nem parecia a mesma garota que sonhava em ser bailarina e se apresentar para grandes plateias por todo o mundo. E nem me dou ao luxo de pensar como teria sido, talvez esses devaneios me tragam desgosto e arrependimento.

Mas e quanto àquele homem que acordou ao meu lado? Onde ele estava durante todos esses anos? Onde ele estava quando precisei me sentir humana? Quando as crianças gritavam a dor de um dentinho nascendo ou tinham febre alta, onde ele estava? Onde ele estava quando eu era consumida pela solidão dia após dia? Trabalhando, não é? Tudo bem, eu não posso reclamar. Pode ser que nem mesmo eu tenha o direito de murmurar, já faz tempo demais.
Eu só queria compartilhar a minha linda história de amor nessa data tão especial. Queria desejar um "Feliz 25 anos de casamento" a esse homem que acha que hoje é apenas mais uma quinta-feira e dizer que com o passar dos anos, passei a amá-lo. Não sei bem como é o amor, mas acredito que o amo. As vezes, senti estar dormindo com um estranho que talvez nem saiba lhe responder corretamente se você perguntar a ele a cor dos meus olhos.  E queria por fim, dizer que ainda lembro do ultimo "eu te amo" que ouvi da boca dele em Novembro de '87. Pois esse mesmo "eu te amo" que me fez acordar vinte e cinco anos seguidos ao lado dele, ainda que quase desconhecido.

Feliz Bodas de Prata, querido.

Aos céus.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Acordei às seis da manhã, meu corpo continuava cansado, minha mente estava dispersa e, pra ser honesta, ainda está. Os pensamentos pareciam embalar uma valsa desordenada. Na noite anterior, o escarlate reluzente naquela taça parecia meu próprio sangue que fora perdido na guerra de manter-me viva. Era quase o sangue que corria em minhas veias, como a vida que se perdera. Eram insanidades feitas em líquido fino, em seda que se bebe. Deixei dentro daquela taça de cristal, alguns pequenos planos e sentimentos em troca da minha lucidez e vigor. Selamos então nosso pacto com um beijo.

 Logo nas primeiras horas deste dia, observei um céu que anunciava tempestade e algumas árvores distantes. Aquele cenário parecia me encarar com pesar. Decerto, também se lamentava pelo estado decadente da humanidade. Como alguém que fala mas não é ouvido. Como quem brada com trovões, mas em seu interior, há uma criança inocente de olhos marejados, entregue ao abandono e ao esquecimento. O dia é acinzentado, sem brilho algum. Vivenciando o luto por um povo cego em dores. O céu me olhava e confiava me contar suas tristezas, como gritava o meu coração, choramingando pelas prisões às quais era entregue. Assim também suspirava a minha alma, trocando confidências e buscando conforto. Até o verde opaco das folhas tentava contar histórias, mas tudo e todos estavam amordaçados. Silêncio. Chore em silêncio.

 Inunda mesmo essa terra, tempestade. Eu entendo. Eu vi, Criador e criação, chorarem juntos sem nem saberem mais a quem pertenciam aquelas lágrimas. Era só chuva. Porque me foi contado em segredo que o sangue derramado sobre este solo é o vinho oferecido aos céus. Pois então, que choremos em nossa embriaguez. Depois o sol aparece por trás de uma nuvem qualquer, o céu fica mais claro e abre um sorriso singelo como quem diz: "Já passou". É... temos muito em comum.