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Voando

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Quando eu era criança eu tinha um passarinho amarelo
Eu não entendia que ele precisava voar
Ele sempre comeu muito menos que os outros pássaros livres e acredito que daí tenha vindo a expressão
"Comer feito passarinho".
Quem disse isso pela primeira vez devia criar um pássaro numa gaiola.
Os outros pássaros lá fora comiam tanta coisa que jogavam pra eles e o meu pássaro...
Ele mal comia.
Ele também cantava muito mais alto que os outros pássaros. Ele cantava o tempo todo
E eu podia jurar que ele estava feliz.
Eu admirava suas notas inalcançáveis
Uma vez pensei em abrir a gaiola e deixar ir
Talvez tenha sido o dia em que realmente o amei. Hoje sei.

Mas ele cantava e era feliz

Ele cantava porque era feliz, afinal
Que dedução estúpida!

Quando fazia calor demais, colocavam um pote com água pra ele se molhar
Quando o tempo era frio,jogavam uma pequena manta sobre sua gaiola e
eu tinha tanta certeza que era suficiente
porque mesmo que a manta o privasse da luz do dia e talvez nem o aquecesse como esperavam, ele continuava cantando.

Hoje eu sei que meu pássaro via os outros pássaros voando e sentia que era uma ave estúpida
que tinha asas em vão
porque nunca pôde voar.

Hoje eu sei que seu canto era agonia
Que seus agudos eram tão altos quanto o desespero de estar só e preso em uma pequena gaiola.

Quando ele morreu, eu o enterrei na minha alma.
Morreu acreditando que um dia poderia voar como os outros
Com os outros
Morreu em uma manhã fria com os olhos congelados para o céu azul de inverno.

Morreu só.
E antes de morrer
Cantou.

Confissão

terça-feira, 15 de março de 2016

Darling,

Eu quero que você saiba que eu gosto de ficar ao seu lado. Eu não digo, eu faço de conta que tanto faz, mas cada segundo ao seu lado me preenche mais e mais. Nós gostamos de Nutella, de cappuccino e chocolate quente no inverno. Nós gostamos de pisar em folhas secas por causa da textura e do som que elas fazem. Nós gostamos de chocolate de ovomaltine. Nós temos dependência pelas estrelas. Nós gostamos da insanidade e não nos importamos com o que vão pensar. Nós somos uma pessoa dividida em duas.

E na real nós nunca saberemos se eu pareço com você ou você comigo.
Não esquece aquele beijo demorado na bochecha, foi a minha forma discreta de dizer "eu te amo".


Corrosivo

sexta-feira, 27 de março de 2015

O que você faria se soubesse toda a verdade? Se soubesse um dia sonhei que seu veneno se juntava ao meu, o que diria? O que faria se um dia eu resolvesse te contar que por trás de cada ofensa no fundo quero dizer "MEU amor"? O que você faria se soubesse que quando eu me afasto, quando grito, quando sou rude na verdade é só medo de lidar com tudo? Você sabe o quanto tudo me assusta. Você sabe melhor do que eu.
Qual seria a sua reação se eu te dissesse que os seus olhos atraem os meus e me prendem a você? Não quero gastar o meu tempo ao seu lado, não quero ficar tão perto, não quero nem por um segundo confessar que você é tudo o que eu tenho de mais bonito. Não quero te contar que não sei medir o que sinto e diante de tudo isso, acho que nem preciso dizer o que realmente existe por trás de cada "te odeio", não é?
Então te odeio, te odeio muito. Te odeio tanto que até dói. Te odeio de uma forma que dói te ver indo embora, sempre. Te odeio a ponto de ficar triste por saber que você não me odeia de volta. Te odeio, com todas as minhas forças, eu odeio você.

E só para que você saiba: esse ódio todo me consome, dia após dia. E a culpa? É toda NOSSA!

Requiém de uma tempestade

domingo, 30 de março de 2014

Abri os olhos antes das nove da manhã. Não era o horário que eu acordava frequentemente, mas o sono simplesmente desapareceu. Perdi alguns minutos do meu tempo enrolada nos edredons observando as cores do meu céu. Há tempos meu universo era aquele quarto onde quase tudo era branco e marfim. Sentei na poltrona próxima à janela, abri as persianas, vi que o sol bradava lá fora. Haviam crianças brincando na pracinha em frente ao prédio. Invejei-as. Senti falta de quando a vida ainda tinha sabor de algodão-doce. Senti falta de quando eu ainda conseguia sentir conforto ao ser aquecida pela luz do dia ou deitar na grama dando forma às nuvens no céu.
Eram memórias distantes. Tudo o que eu passei a conhecer era sobre solidão. Descobri que a dor tinha som. Som de choro. Som de chuva. Som de música instrumental, quase como Clair De Lune. Em seus casos mais extremos, eu também poderia dizer que o som da dor se parecia com "Moonlight Sonata" de Beethoven. A tristeza tinha o mistério e profundidade da obra "The Crow" de Van Gogh. Que talvez, sofrer também fosse uma arte das mais masoquistas e sádicas ao mesmo tempo. Descobri que o poeta vive de sua angustia, dela vende e dela mantém-se vivo. E que bela ironia manter-se vivo quando tudo de mais humano em você já morreu! Artistas não fazem sentido tal como nada conhecido na existência faz sentido.
Que é o amor se não as flores jogadas sobre o túmulo de quem já desistiu de si próprio? Que é o amor, se não o último floco de neve quando o inverno acaba? Que é o amor, se não apenas um rastro de esperança mal guardada?
A vida é líquida e corre por entre os vãos dos dedos sem que ninguém perceba.
"Luz! Luz! Mais luz!" e de Goethe, faço essas também minhas palavras. Embora o quarto fosse claro, todo acúmulo de sentimentos me cegava. "Luz", gritava o espírito de Goethe assim como meu espírito grita. Mais luz.

Desde que você partiu.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Vez por outra sinto um alívio por você não estar tão presente, você certamente odiaria a vida que tenho levado. Lembro de um dia ter criticado você por uma música do Nirvana que você cantarolou no telefone. Eu sempre achei Kurt Cobain um idiota e, olha que bela contradição: Hoje eu entendo a idiotice dele, ao menos um pouco. Ou acho que entendo. Passei a noite ouvindo um acústico do Nirvana. Lembro do trecho da carta suicida de Kurt Cobain quando ele escreveu: "Devo ser um daqueles narcisistas que só dão valor às coisas depois que elas se vão. Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança." Engraçado. Me identifiquei. Sou assim. As vezes me sinto até egoísta. Em um outro trecho a carta diz: "Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a me sentir mal." Eu sempre me entrego a tudo até com as forças que não tenho. Uso de tanta intensidade que frustro a mim e aos outros.

Você não gostaria de ver o quão grogue estou agora, ou enquanto tocava violão há uns dez minutos atrás. Você odiaria ver o quanto tenho sido auto-destrutiva. Odiaria o bar que eu frequento e odiaria ver a forma indecente como eu sorrio pro garçom enquanto bebo. Odiaria o meu tom de voz quando peço mais gelo no whisky, ou o meu tom de voz quando peço a quarta dose. Você odiaria ouvir o som do copo batendo na mesa. Odiaria ver um cigarro aceso entre meus dedos. Odiaria me ver voltando pra casa quase cambaleando e odiaria ainda mais me ver deitada no chão por horas olhando pro teto. Mas eu sei que nada te deixaria com tanta raiva quanto me ver fazer isso todos os dias e saber o quanto eu choro depois de tudo. E choro por mesmo depois de três anos, não ter parado de tomar aquele monte de comprimidos tarja preta. Eu te prometi, não consegui, mas olha, eu diminuí a dose. Lembro de quando você me disse: "São três da tarde e você está tomando CINCO comprimidos pra dormir. Você tem noção do grau de depressão em que chegou?" Não, amor, definitivamente eu não tinha. Se eu soubesse que você iria embora tão cedo, eu teria passado mais tempo acordada. E eu teria me empenhado mais em ser algo bom na sua vida, mas sabemos que não fiz. Não fui. Eu tentei, como aquela vez em que comecei a procurar emprego porque a gente queria casar, revirei todas as faculdades da cidade pra te ajudar com a transferência, mas nenhuma faculdade nessa maldita cidade tinha o seu curso... Agora tem. Eu poderia dizer que isso é bom, porque eu quero cursar a mesma coisa que você cursava, mas não é. Você não está aqui. Essa cidade poderia explodir que eu nem me importaria.

Não deixei de ser impulsiva, ainda sinto raiva com facilidade. Agora mesmo estou com raiva. Estou sóbria. Não sei mais estar sóbria e feliz ao mesmo tempo. Sempre achei feio mulher bebendo, falando palavrão e essas coisas. Hoje faço tudo o que sempre odiei. Simplesmente pra fugir dessa raiva que eu sinto por você ter morrido. Por eu não ter feito nada. Por eu ter perdido o meu tempo longe de você e por todas as vezes que brigamos. Você é um idiota. Não importa, você vai ser um idiota pra sempre, porque você enterrou a porra do meu coração com você. Sabe qual é a parte do dia que mais dói? Quando eu ligo para o seu número e aquela vagabunda da operadora do celular diz que "esse número de telefone não existe". Como não existe?! Há um ano atrás eu ficava 2, 3, 4 horas falando com esse número pra agora ouvir que não existe? Eu recebi mensagens que nunca apaguei desse número que agora, não existe. E eu faço isso todos os dias. Todos os dias eu ligo e tenho a esperança de você atender e dizer que era tudo uma brincadeira de mau gosto, mas a realidade sempre cai sobre mim como uma tempestade que estraga um domingo de sol na praia.

Desde que você se foi, nunca mais comi aquele doce que era o nosso favorito. Passei a torcer pro Atlético, porque você gostava do Cruzeiro. Eu faço pra te irritar, porque gosto de te imaginar torcendo o nariz pra mim ao me ver usando uma camisa do Atlético. Gosto de imaginar sua voz dizendo: "Não tenho namorada atleticana, sai daqui", gosto de pensar no beijo que roubaria.
Desde que você partiu, passei a beber aquela cerveja que você falava que era ruim. Eu sempre detestei cerveja, você sabe, mas bebo pra te contrariar. Bebo pra fazer birra. Faço tudo ao contrário do que você gostava, porque não quero lembrar que você gostava. Não vivo mais pra te agradar, não tenho mais nada que era nosso, você levou tudo junto e essa é a minha forma mais infantil de me vingar de você por você ter morrido. Droga. Eu não consigo mencionar isso sem chorar e sentir raiva. Eu sei que a culpa não é sua, mas eu te culpo mesmo assim, porque ter raiva de você é mais fácil do que confessar que as vezes choro de saudade e de dor por você ter me deixado aqui, por você não ter me levado junto. Esse mundo não é mesmo um lugar muito legal, não te merecia, eu sei. Mas eu não consigo mais pensar nessas coisas de casamento, de filhos, daqueles sonhos todos que a gente tinha e que apesar de parecer clichê, eu tinha certeza que seria diferente de tudo o que já passou por essa terra, porém você não conseguiu cumprir com a sua parte no acordo.

Quando alguém morre, quem fica aqui vivo geralmente faz as coisas que agradariam a pessoa que partiu. Eu não consigo. Eu faço o oposto de tudo, mas do meu jeito eu permaneço fiel. Quando me dizem pra te deixar "descansar em paz", eu recuso gritando. Por que eu deixaria? Você não me deixa descansar em paz. Você não me deixa amar ninguém da forma que eu amei você. Não me deixa sonhar mais com futuro. Não me permite criar expectativas de nada. E isso tudo sem dizer uma única palavra, somente por ter partido.

Eu não disse que te amava antes de você partir. Eu te liguei só pra te ouvir e fiquei muda, eu queria ter dito que te amava, se eu soubesse que era a última vez que estava ouvindo a sua voz, eu teria dito, mas eu não disse. Acho que vou carregar isso pra sempre. Tanto faz. Odeio você. Odeio muito. Se eu pudesse te trazer de volta a vida, faria isso pra te espancar até você não aguentar mais. Céus! Eu ia te arrebentar, cara! Mas não posso. Então vou seguir como der, levando a minha vida "meio punk, meio grunge", como você mesmo dizia. E se não der, ficarei estagnada no tempo. Acho que é exatamente isso que tenho feito. Não tenho muitas certezas hoje em dia.

Esse é o adeus que eu não pude te dar.

Grito Silencioso

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Era noite, mais uma noite fria e escura. Eu andava com mais três amigos maconheiros de longa data. Passavamos em frente a casas grandes e elegantes com muro baixo. Pensei por uns instantes que era arriscado andar fumando maconha por lá, devia ter ronda policial o tempo todo. Meus amigos riam, Mike já estava bêbado, em uma brincadeira boba de jogar um isqueiro para o Rafa, acabou deixando o isqueiro cair dentro de uma das casas grandes. Quem reclamou foi o Derick, que era dono daquela porcariazinha que segundo ele, custava mais de trezentos reais. Os três discutiam enquanto eu permanecia em silêncio com as mãos nos bolsos da blusa. Era assim que eu curtia as minhas brisas, em silêncio.
Como um isqueiro podia ser tão caro? Era bonitinho, parecia uma miniatura de pistola. Tinha o nome de alguma marca gravada em ouro no cano. Quando se "puxava" o gatilho o fogo aparecia. Era possível também regular a intensidade do fogo ou usar o isqueiro como lanterna. Ainda assim achei que 300 reais era muito dinheiro.
 Derick começou a choramingar e discutir com com o Mike. Rafa não sabia de que lado ficar. Não demorou pra virar uma confusão. Nenhum dos três queria pular na casa e recuperar o tal isqueiro caro. Decidi fazer esse favor ao caçula do grupo. Respirei fundo e olhei para a casa, o muro não era tão baixo. Não entendi como Mike poderia ter deixado algo cair lá dentro sem ter a intenção de fazer isso. Bem, o muro alto não seria problema. Sempre fui acostumada a escalar muros, subir em árvores e lugares altos. Por sorte havia uma árvore na calçada cujos galhos davam acesso ao jardim da casa. Planejei rapidamente como faria, tomei fôlego e subi na árvore. Quando estava na ponta de um galho, a vista da casa me assustou. O jardim era enorme. A casa era grande, mas parecia morta. Havia uma espécie de córrego no jardim, justamente onde imaginei que o isqueiro havia caído. O corrego era um declive que levava a uma portela que deveria ser o porão. Droga, a porcaria do isqueiro deve ter escorregado por lá. A luz do porão estava acesa, estranho. Se houvesse alguém na casa, no mínimo chamariam a polícia. Eu não estava mais com drogas e nem pretendia roubar, talvez passasse a noite na cadeia, tanto faz. Saltei no jardim. A queda foi um tanto alta. Procurei o isqueiro pelo jardim, A iluminação era péssima. Não estava lá. Olhei para o córrego, logo fui até a portinhola do porão, as luzes apagaram. 
Sinto como se tivesse tido um lapso de memória naquele momento, não sei o que aconteceu, quando me dei conta já estava no meio do porão que não era bem um porão. Tinha cara de piso subterrâneo de fábrica. Tinha cheiro de açougue. Estar lá me causava arrepios. Não era hora pra ser covarde, eu precisava ir embora rápido. Passar a noite na cadeia pela segunda vez na semana não era uma boa ideia.
Levantei e dei alguns passos por aquele lugar, mal conseguia me concentrar no motivo de estar lá. Odiei o Mike, o Derick e até o Rafa por alguns segundos. Eles deveriam ser homens o suficiente pra ir atrás daquela porcaria.
 Tropecei em algo, caí. Inclinei a cabeça tentado saber no que tinha tropeçado. Antes que eu olhasse, ouvi uma voz macia e levemente infantil:
- Oi!
Arrepiei. Era uma garota, certamente. Já imaginei a polícia chegando e fazendo varias perguntas. O Derick era menor de idade. Céus, eu não devia ter entrado lá! Tentei me explicar:
"- Oi! É... Ãn... Olha, não é o que você está pensando, eu não vim aqui roubar nada. Um amigo deixou um objeto cair aqui e só vim procurar mas já estou indo embora." - Apoiei as mãos no chão para levantar, olhei para trás. Era uma garota. Ela estava sentada com os braços em volta dos joelhos me olhando com um sorriso fraternal. Seus cabelos eram curtos, seguiam o nível do rosto. Loiros e extremamente lisos. Ela era tão branca e magra que chegava a assustar. Usava uma regata cinza grande e suja e um short com bolsos rasgados que ficava largo nela. Aquelas roupas eram velhas. Não entendi por quê uma garota que morava em uma casa tão grande usaria roupas tão velhas. Que seja, eu precisava ir embora. Me levantei pedindo desculpas e dizendo que estava de saída, ela me interrompeu segurando a barra da minha calça enquanto eu passava por ela. Que gesto infantil! Quantos anos ela teria? Doze? Treze talvez?
- Tudo bem, você não precisa ir embora agora. - ela mostrou um sorriso amarelo com um olhar de quem implora por atenção. - Eu não vou chamar ninguém. Fica aqui. - Ela puxou a barra da minha calça com mais força. A situação começou a me deixar nervosa. Quando eu olhava para ela, sentia pena. Que diabos estava acontecendo ali?
- Olha... Eu preciso ir embora. Não posso ficar, nem sei o que você faz aqui embaixo... Garota.
- Sally. Meu nome é Sally. - Ela me corrigiu sorrindo. - Eu vou te contar. Não vá agora. Eu estou presa aqui. Não tenho como sair. - Chequei o "porão", havia várias portas, antes que eu questionasse, ela prosseguiu - Não posso sair daqui porque estou morta.
Eu ri alto e histericamente naquele momento. Que piada mais estúpida! As crianças de hoje devem assistir filmes demais. Quando me coloquei de pé, a portela que dava acesso a saída se fechou, assim, sozinha. Tremi. Já era loucura demais pra mim. O som da porta se fechando cortou o meu riso instantaneamente. Aquela droga devia ser mais forte do que eu imaginei. Jurei a mim mesma que não fumaria maconha por um bom tempo depois daquilo. Tentei me convencer de que era só uma badtrip e que logo iria passar. A menina puxou meu braço e me disse pra ficar quieta, caí sentada ao lado dela. Ouvi a voz de um homem.
- Sally! Sally, venha aqui querida. Não faça assim com o papai. Esqueceu que eu cuido de você e da sua irmã? Nós três somos uma família. Apareça. Sally!
Olhei para Sally. Ela estava encolhida do meu lado, apertando o meu braço e tremendo. Tentei puxar o braço enquanto falei baixinho:
- Ei, o seu pai vai chamar a polícia, eu preciso sair daqui!
- ELE NÃO É O MEU PAI! - Ela gritou. Fiquei pálida, olhei na direção do homem. Ele não ouviu. Como assim? Sally continuou
- Era meu padrasto. Pai da minha irmã mais nova. Ele matou a minha mãe pra ficar com isso tudo pra ele.
- O-o quê?! - gaguejei em choque - e por que você não chamou a polícia? Porque não conta a alguém?
- Estou contando pra você agora. Shhh! Presta atenção. - Ela colocou o indicador sobre meus lábios, em seguida apontando para o padrasto.
- Sally! Aí está você, sua travessa! - Não pude acreditar no que meus olhos viam. Era a Sally se aproximando do padrasto que a puxou pelo braço até uma das salas. Ela estava do meu lado, mas eu a via ali, a minha frente. - Você está no meu campo de memórias, por isso está vendo o que vivi - Ela justificou.
As cenas seguintes me matavam por dentro. O tal homem sentou-se em uma cadeira. Sally ajoelhou-se diante dele. Não. Eu não podia ver mais. A voz dele me dava nojo. - Faça isso direito dessa vez, sua pequena vadia! - Abracei Sally. Gritei um palavrão. O homem inclinou a cabeça e empurrou Sally enquanto subia as calças com a outra mão. Ela caiu, bateu a testa de uma forma que deixou um rastro de sangue na parede. O padrasto de Sally parecia furioso. Pegou um alicate e saiu atrás da menina. No instante em que gritei, tudo sumiu.
- Você imagina o que aconteceu depois, não é? - Sally perguntou me encarando conformada.
- Esse filho da puta te bateu? Foi assim que você morreu? - Eu percebi que meu rosto estava molhado.
- Não. - Ela deu um sorriso triste de canto. - Eu bem que gostaria de ter morrido aí, mas tinha 14 anos. Morri no meu aniversario de quinze anos. Desde então todos os dias é meu aniversario. O tempo nunca mais passou. Ninguém nunca ouviu meus gritos. Ele arrancou algum dos meus dentes. Disse que "atrapalhava o serviço".
Será que ela conseguia ouvir as palavras que saíam da própria boca? Senti vontade de vomitar. As coisas à minha volta foram escurecendo, minhas mãos e pés formigaram.
- Você está bem? - Sally me olhou com os olhos arregalados tocando o meu rosto.
- Se você está morta, por quê eu consigo te ver, te tocar e assistir tuas lembranças? - Jurei que fosse desmaiar ali.
- Você entrou no território de uma alma que morreu em segredo. Que carregou sozinha tanta dor sem nunca contar a ninguém. Que não tem quem pensou sequer em fazer justiça por ela.
Eu estava tonta demais pra discordar. Já tinha aceitado o fato de ter exagerado nas drogas. Eu só queria que passasse. Perguntei o que imaginei que fosse me tirar dali.
- Sally... Como você morreu?
Outra vez. Vi o maldito do homem jogar Sally no chão do porão enquanto alguma criança chorava ao fundo. Sally gritou. Ele rasgou as roupas dela. Ele a violentou. Em dado momento ela parou de gritar e apenas esperou que acabasse. Havia sangue no chão. Quando ele terminou, puxou Sally, nua mesmo. Pediu que fosse buscar álcool. Quando ela trouxe, ele deu uma bofetada em seu rosto que a fez cair em cima de suas roupas. Jogou álcool sobre ela e por todo aquele lugar...  Então acendeu um fósforo. Me senti no inferno. Sally segurou minha mão e disse "obrigada por ter me ouvido, já posso ir em paz." O espírito dela que estava ali comigo sumiu. Tudo o que restou foram as chamas e a fumaça que me sufocava enquanto eu gritava e chorava.
Acordei, minha roupa e meu travesseiro estavam molhados. Agradeci por ter sido um pesadelo. Chorei cerca de dez minutos. Coloquei os pés para fora da cama e pisei em algo. Era o isqueiro do Derick.



Por Annelouise Amelie

Inacabado

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais uma manhã entre tantas outras, onde eu sequer lembrava se tinha dormido ou não. A luz do sol entrava pela janela e transpassava as camadas finas de cortina branca estampada, cujos desenhos eram refletidos sobre a mesa da cozinha. Cozinha que lembrava cozinha de sítio, ou casa pequena interiorana. Devia ser cerca de sete horas da manhã. Eu me recordo de encarar o calendário-imã colado na geladeira e tentar lembrar sobre como eu tinha passado os dias anteriores. Doze meses, 366 dias. Ano bissexto. Os domingos eram marcados por tinta vermelha que inevitavelmente associei a sangue, que acreditei não estar mais correndo em minhas veias. Que associei a dor. Que associei a perda. Que associei a mim. Eu tinha me perdido e nada poderia doer mais do que isso. Que seja. Os sábados não tinham marcação especial, como se não houvesse nada de especial neles também. Será que dor tem limite? Porque se tiver, posso dizer que cheguei próximo, se não tiver chegado ao limite. Cheguei a ponto de desligar qualquer percepção sobre o ambiente a minha volta. Desliguei as minhas reações, desliguei a compaixão, desliguei o senso de justiça, desliguei tudo o que podia me trazer uma lágrima, e embora meu rosto estivesse molhado ao observar o calendário e buscar lembranças, eu posso lhe afirmar que não senti nada. Nem sei o porquê do choro. Meu corpo estava tão amortecido que eu poderia apanhar até a morte sem gritar. Acredito que aquela lágrima veio da ultima parte de mim que ainda podia sentir. Daquele lado escondido, como um estepe, em caso de querer retornar à vida. Era a minha ultima parcela de humanidade morrendo, mas antes, lamentando pela própria morte. Pela minha morte. Por um corpo que carregava um espirito sem vida. Era o luto ao perceber que a vida passava por mim, os dias se foram e se desfizeram como fumaça no ar. Passaram sem nada que os justificassem. Como se todo o tempo “vivido” até então, fosse perdido.

Não apague as luzes, não me deixe aqui...

sábado, 9 de junho de 2012

Tudo ecoava de forma diferente naquela floresta, como se o som do vento batendo nas folhas tivesse voz e todas aquelas árvores cantassem em coro os horrores que aquele lugar já havia visto. Eram ossos cobertos de terra, escondidos de maneira que jamais ninguém encontraria. E quem se atreveria a pisar ali? Eu fui por acidente, quando me dei conta, já estava perdida. Não deixei rastros, não marquei meu caminho, não sabia voltar.

 O baile dos tiranos começaria em alguns minutos. Tentei me preparar, mas não tinha roupa para aquela ocasião e, ainda pior: tudo o que eu tinha era aquela velha armadura que mais parecia feita de vidro, tamanha era sua fragilidade. Já nem sei mais se me servia de algo ou apenas acrescentava peso ao fardo que minhas pernas carregavam. Meus pés estavam descalços, eu tinha em mim a certeza de que não seria bem vinda. Antes houvessem tentando me expulsar daquele lugar... Que nada! Jogaram-me em uma cela, sozinha. Não foi como deve ser todo bom conto de fadas, onde a princesa é aprisionada em uma torre e salva por um príncipe. Ao contrário disso, minha prisão era subterrânea e eu não fazia ideia de quanto tempo levaria para que alguém saísse em meu resgate. Eu não sabia se alguém sairia em meu resgate.

 De uns tempos pra cá, tenho vivido em estado constante de outono, interiormente. Tenho caminhado, sem saber ao certo para onde meus passos me levam. Descobri em meu cárcere o que é temer a morte e agonizar em vida. Descobri que o silêncio e o frio sussurram a mesma canção entoada por aquelas árvores da floresta. Toda vez que o silêncio se chegava até mim, eu balbuciava em tom de suplica: "por favor, de novo não..." mas ele não me ouvia. Presenciei ainda uma terrível cena: vi a esperança ser violentada todos os dias pelos medos tenebrosos, sem conseguir escapar de seus braços, tão cansada que desistiu de gritar. Já não reagia mais, apenas esperava findar a tormenta para esconder-se novamente com suas vestes sujas em algum lugar onde talvez não fosse encontrada. Eu senti, naquela cela, a morte envolver-me como uma névoa. Deviam ter contado antes que as chaves estavam enterradas ali por perto. Mas olha, não buscarei por vingança. Sequer lembro como chegar até lá! E tome por aviso: não deixe de ler as placas.

Calei-me

terça-feira, 8 de maio de 2012

De umas noites pra cá, tenho lido todas as cartas que escrevi mas nunca foram enviadas. Talvez por medo, talvez por orgulho, ou talvez pelo conteúdo ser tão dolorido. Todos os dias costumo dar uma folheada no passado antes de dormir, então percebi que aqui dentro o tempo parou. Meus relógios internos além de estarem sem pilha, estão quebrados também. Tudo está um pouco quebrado, um pouco fora do lugar...
Eu tenho tentado forjar alguma força na expectativa de que isso te traga pra perto e te mostre que eu consigo estar com você, mas penso que agi errado. Eu deveria ter deixado escapar aquele choro dizendo "não vá" enquanto estávamos ao telefone. Eu deveria ter dito que sem você o meu sorriso é a maior das mentiras, eu deveria ter dito! Sei que o amor deixa livre, mas acho que seria melhor ter te prendido a mim naquela época. É injusto deixar algo tão verdadeiro tornar-se apenas história. Nunca consegui aceitar.
Tentaram varrer os farelos de esperança dentro de mim, mas não resolveu. O problema é: quando a gente espera por algo que não acontece, esses farelos começam a virar cacos de vidro que vão cravar mais fundo a cada passo dado.
Queria mesmo que você ouvisse o meu coração tal como desejo ouvir o seu. Talvez ele te explicasse as coisas que eu nunca consegui expôr. Ele poderia deixar escapar essa frase que enterrei viva, esse algo que me é difícil até de escrever. Esse... esse "eu te amo".


 Provavelmente, mais uma carta que nunca terei coragem de te mostrar. 
O orgulho amarga a alma, mas o amor... este explode sem querer.

 eu   
amo 
  você 
pra sempre, como prometido.

O reflexo daquele rosto

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Você precisa ficar bem e ser forte, Leonardo. Faça isso por nós, meu amor." - Disse ela, sorrindo enquanto acariciava meu rosto. Ela é Ruby, minha atual companheira que muito me faz bem na maior parte do tempo, confesso que seria perfeito se eu não tivesse meus bloqueios...
Instantaneamente, ouvi um grito interno dizendo: "NÃO! Eu não quero." Era o meu coração relutando contra a minha mente.

Eu tentei dizer que a amava, tentei fazer com que isso soasse sincero, tentei fazê-la sentir-se segura enquanto estava em meus braços, tentei - e ainda tento - deixar esse amor crescer em mim. Nunca desejei vê-la chorando por atitudes minhas, só que os dias estão passando e o tempo não está cumprindo com a sua função de apagar as velhas memórias. O rosto de Elisa continua intacto em minhas lembranças, ainda posso ouvir o som de sua voz quando fecho os olhos. Ouço sua respiração leve... É como acreditar no irreal. Sinto-me vivendo em um mundo completamente paralelo, ela não está mais aqui. Eu preciso seguir com a minha vida, ouço isso o tempo todo, mas continuo preso ao passado. Continuo preso a ela.

Eu nunca quis tentar encontrar a Elisa nos abraços e beijos de Ruby. Não queria ter comparado as características, não queria ter tentado esconder a falta que eu sinto de Elisa no amor tão verdadeiro que Ruby tem por mim. Eu quero cuidar de Ruby, tal como ela merece. E que fracasso tenho sido! Se fosse Elisa me dizendo: "Fique bem por nós, Leonardo", talvez eu não esperasse mais do que dois minutos para começar a mudar e tentar ver as coisas por outro ângulo. Seria inconsciente, eu nem lembraria do quanto Elisa já me feriu, não me lembraria do quão sozinho ela costumava me deixar! Simplesmente o faria, sem questionar.
E quanto a Ruby? Ela sim merece toda essa dedicação. Ela merece o lado bom do Leonardo, como se todos os dias ela tentasse trazer à vida os fragmentos de ternura que Elisa pisou com a ponta do salto. Por Ruby eu não tenho vontade de ser outro, ou talvez até exista alguma vontade, mas não há força. Não há aquele "algo mais" que havia. Sinto-me doentio e masoquista. Ela não merecia apenas as minhas palavras, merecia ter o meu coração, porém esse há muito já partiu com outra.

Espero que Ruby consiga me consertar. Que Ruby me faça humano outra vez.

Sei lá, eu precisava colocar isso pra fora.

Já se tornou questão de sobrevivência.

terça-feira, 6 de março de 2012

Dia após dia tenho percebido o quanto eu preciso de você. Eu tento me distrair, dar uma volta, rir das piadas dos outros, tento fazer amigos, ir ao parque, caminhar, comer porcarias, viajar, mas nada resolve. Tudo é momentâneo, basta alguns segundos e eu me lembro de você. Não é mais apenas um desejo, isso se tornou necessidade, uma necessidade assustadoramente dolorosa por não poder ter. Precisar e não poder ter. Você é a minha impossibilidade, ao menos agora. Eu não entendo os motivos disso ter que acontecer justamente quando eu mais preciso da tua companhia. Nem é mais novidade, todas as pessoas que costumavam estar à minha volta cansaram de ouvir coisas a seu respeito, mas existem detalhes que nunca foram ditos. Os detalhes que só nós conhecemos. As pequenas abstinências que cada pedacinho de mim tem de você são horríveis, me fazem querer sair de mim por ser tão incompleta.

Amor, você se lembra daquela vez em que começou a gear? Lembro de te ver achando graça porque a ponta do meu nariz estava avermelhada. Nós estávamos naquela pracinha perto de um restaurante onde tocava tango e, pra variar, você tentava me tirar pra dançar a todo custo, seu maluco! Isso ainda me faz suspirar, confesso. Era o nosso jeito estranho de nos divertir. Te ver sorrindo feito criança quando descobre algo novo valia a pena.
Lembro-me também daquela noite chuvosa em que eu te disse adeus e pensei que você me deixaria partir. Como foi bom deparar contigo no portão da minha casa me roubando um beijo antes que eu pudesse proferir qualquer palavra! Aquela noite foi assim, sem muitas palavras, o fato de estar com você bastava. Éramos um. Nós sempre estávamos em sintonia, sempre deixamos os instintos falarem mais alto. Como se todo aquele amor atravessasse nossos ossos e saísse por nossos poros. Quando você estava tão próximo que eu podia sentir o seu coração e o meu sincronizados, pulsando no mesmo ritmo... era perfeito. Você tinha o dom de estar com o corpo sempre aquecido, mesmo no frio. Tão único!
Hoje me permiti recordar cada insignificância que é bonita pra mim enquanto escuto aquelas velhas músicas que eu costumava cantarolar enquanto lhe velava o sono.
Ah, meu amor! Eu tenho tanta urgência em ser sua outra vez, em deixar esse amor que aperta aqui dentro simplesmente explodir. Eu preciso que o som da sua respiração seja a única canção que embala tudo o que sinto. Como numa dança lenta de passos exatos... onde tudo se encaixa.
Eu tenho urgência em sentir a tua vida, deitar sobre o teu peito e ouvir o teu coração bater. Eu, que te amo tanto! Eu preciso me esconder na tua pele. Preciso sussurrar os meus segredos, preciso te dizer pra não ir embora, porque estar aqui sem você é o mesmo que não estar aqui.
Se fecho os olhos, lembro do toque dos seus dedos mapeando meu rosto com cuidado; lembro da brisa fresca daquele parque em que nos vimos pela primeira vez.
Só me lembro, afinal, passou...
O ruim é que aqui dentro nunca passa.
Eu amo você.

Era segunda-feira quando...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Lembra daquele primeiro abraço? Porque eu não esqueci. Eu estou aqui agora por causa dele. Talvez você reclame da sua falta de memória ou das minhas insanidades, talvez você não aceite os meus erros e talvez isso te faça acreditar que eu também não aceitaria os seus, mas que diferença faz? Nós somos assim. No fundo, eu sou exatamente igual a você. Posso dizer que não me importo, mas você conhece a verdade. Posso dizer que esqueci quando eu simplesmente não queria... Posso ser louca, você tem razão. 
Tão louca que continuo esperando chegar uma outra segunda-feira qualquer depois de um fim de semana completamente estranho para que eu possa te abraçar como se fosse a primeira vez. Pra que eu possa segurar a sua mão e dizer que vai passar. Pra poder chorar no teu colo. Pra viver tudo aquilo novamente e pra te pagar tudo o que eu devo, tipo aquela música que eu jurei te mostrar, mas nunca toquei. Como aquele passeio no parque perto da tua casa, e como todas as outras coisas que foram prometidas, mas não puderam acontecer. 
Não me cobre nada agora. Só me abrace, caso a saudade passar pela tua janela.