À Helena

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Olá minha irmã. 

Espero que esta te encontre bem. Tem alguns anos que estou me protelando em lhe escrever essas palavras. Na verdade desde que eu tinha 10 anos e descobri o real motivo de meu pai não voltar todos os dias pra casa. Graças a TV eu soube que existiam homens que traiam suas esposas com outra mulher. Por algum tempo achei que meu pai tinha outra. Até que me caiu a ficha: minha mãe era a outra. Não digo que não passei vergonha na escola na época de dia dos pais por ter uma boa lábia e saber mentir desde cedo. Mas passei alguns apertos. 

Passaram os anos e tudo que consegui foi seu nome e uma foto de quando você era criança, com uns 4 ou 5 anos. Agora deve ter seus vinte anos... nossa, imagino suas burradas e fico querendo te consolar (mesmo que eu não seja assim com ninguém). A verdade, minha irmã, é que a vida foi injusta conosco e eu mal espero a hora de te encontrar e fugirmos para algum lugar distante. Até a próxima carta. 

Com amor, Alice.

A última carta que dedico à você

sábado, 10 de outubro de 2015

Há tempos não lhe escrevo, eu sei. Entretanto, essa manhã eu vi um pássaro colorido repousar na minha varanda enquanto eu inalava a velha fumaça de sempre e talvez a presença ilustre daquela bela ave tenha me feito pensar que você também precisa voar. Eu não tenho deixado você voar, sei disso também, sei que de alguma forma ainda mantenho você presa a mim. Sei que quando falo com você tiro um pouco da sua vida. Sei que quando conto sobre meus dias você ainda tem aquele sentimento de cansaço e incapacidade diante dos meus grandes desafios e quedas. Sei que sua indiferença é uma defesa para que não acabe me amando outra vez, porque me amar é duro demais. É pesado demais. É sofrimento demais. Você sempre soube e ainda assim insistiu por muito tempo. Até me ferir... E feriu de uma forma que eu jamais conseguirei descrever. Eu tentei gritar pra você que você estava me machucando e que tudo estava caminhando para que entrássemos em um túnel fechado, mas você não ouviu. Aconteceu, você caiu, você me quebrou da forma mais intensa. Você me quebrou depois de ter me mudado e me moldado exatamente para você. Para te pertencer, essa é a parte que mais dói. Eu achei que nunca te perdoaria. Achei que nunca fosse passar, mas passou. A dor foi embora. A mágoa foi embora. Eu sei que machuquei você também, mesmo com o seu consentimento de querer e não querer ao mesmo tempo estar comigo e aceitar tudo o que eu era. Eu sei, sweetie. Hoje eu sei. Nós nos ferimos e eu teria força suficiente para manter o nosso pacto de ficar ao lado mesmo que não fosse como duas pessoas apaixonadas. Mesmo que fosse pra ver você se apaixonar por outras pessoas e criar seu próprio mundo, mas você não tem. Esse é o seu pior defeito: achar que consegue lidar com coisas que no fim, não consegue. Somos pessoas mais parecidas do que pensei.
O fato é que você nunca vai conseguir realmente ser feliz enquanto eu estiver presente na sua vida. Enquanto eu aparecer pelas frestas desse muro chamado tempo. Eu decidi deixar você partir.

Eu decidi te libertar. Você me amou. Eu nunca realmente retribui todo aquele amor, porque eu não posso dar algo que não tenho, entende? Mas eu fui absurdamente, inegavelmente e insanamente apaixonada por você, porém esse também não era o sentimento predominante. O que eu sempre senti desde o primeiro momento, foi dependência. Eu dependia de você. Eu só tinha você. Ninguém me amava tanto quanto você me amava e é uma honra saber que já fui amada por alguém. Eu apaguei o seu número da agenda. Eu não vou mais procura-la. Hoje eu te deixo voar. Hoje eu posso dizer que é amor, porque amor é perdoar. Amor é deixar ir se for o melhor. Amo de uma forma amena, fraternal.

Eu gostaria de te fazer um último pedido: quando você lembrar de nós, por favor, não pense nas brigas. Não pense nas mágoas. Nas minhas idiotices. Não pense no monstro que eu me tornei dentro da sua mente.
Quando lembrar de nós, por favor, repito, POR FAVOR, lembre-se apenas dos nossos momentos bonitos. Lembre-se do dia em que te dei uma estrela, ela sempre será sua. Lembre-se do dia em que fomos ao parque e você gravou aquele vídeo comigo onde eu não queria mostrar o rosto, mas estávamos felizes. Lembre-se dos beijos sabor creme dental antes de dormir. Lembre-se das minhas mãos enfaixando seu joelho enquanto ele doía. Lembre-se de você beijando meus olhos enquanto eu chorava. Lembre-se das coisas engraçadas, como o dia em que aquele louco seguiu a gente e bateu na traseira do meu carro. Lembre-se da minha cara de brava e você segurando o riso. Lembre-se também das nossas invasões à casa vazia aqui do lado e dos abraços cheios de amor. Lembre-se de me perdoar e se perdoar pelo que fizemos conosco e jamais se esqueça do quão linda a nossa história foi. Choramos sim, mas tivemos êxtase. Tivemos sonhos. Planos e sorrisos. Muitos sorrisos.
Lá na frente, quando lembrar, faça o mesmo que farei. Lembre de nós como algo cheio de descobertas e fogos de artifício na nossa juventude. E, mais do que qualquer outra coisa: lembre-se de ser feliz todos os dias.
Espero de coração que fique bem.


Pela última vez, porém a primeira que digo com certeza, espero que o vento leve esse meu sussurro ao seu ouvido:


Eu te amo.