Ouro — Parte 2
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 23:00Ouro — parte I
sábado, 6 de abril de 2019
Postado por Amelie às 05:39[TW: Dependência química.]
-
— Sabe que não é assim que vai resolver isso. Você não vai encontrar nada, Hel, e não vai sair daqui. Conversa comigo. — Disse Janaína a Helena tentando esconder o tom angustiado e assustado por ver a amiga em tamanho surto.
Helena passou por Janaína como se não tivesse ouvido uma palavra. Tremula, voraz, quase em transe, seguia revirando os bolsos de todas as calças e casacos que encontrava em busca de alguns trocados, uma cópia das chaves ou quem sabe um celular. Um celular seria útil. Talvez alguém pudesse passar algo pela fresta da janela do banheiro, já que Janaína ficaria atenta à janela da cozinha. Mas era utopia demais acreditar que Janaína marcaria tamanha bobeira. Estava esperta desde a última overdose. Era cuidadosa em excesso. "O jeito seria esperar Janaína cair no sono ou ir em um daqueles encontros misteriosos dela e então dar uma escapada rápida, só mais um vez não faria tão mal" pensou Helena ao tirar três notas de vinte reais do bolso de uma velha camisa xadrez no fundo do armário, a qual mal lembrava da existência. Seus olhos brilharam ao contemplar as notas. Helena sentia o corpo doer e arrepiar constantemente. Três notas que naquele momento apareceram como vislumbre de um alívio imenso.
Instintivamente, saiu andando rumo a porta quando Janaína a segurou pelo braço.
— Enlouqueceu?!
— Jana, meu corpo tá doendo...
— Hel, a gente veio pra cá pra você ficar livre disso. Lembra há quanto tempo voce tá... qual é o termo? Limpa! E eu estou tão orgulhosa de você! A gente começou a deixar a porta da sala aberta durante o dia enquanto eu estou acordada, você pode fumar seus cigarros no jardim, pintar seus quadros lá fora, confiança, lembra?
— Eu sei, Jana, eu sei, olha... Eu tô vomitando, não aguento isso. Não tô conseguindo, ok? Meu corpo tá fodido e eu tô com calafrios o tempo todo e...
— E não importa, Helena Vincent! Você não vai sair daqui, você precisa ser forte. Você é forte e sabe disso.
— "Não importa"? Foi isso que eu ouvi? — indagou Helena, olhando fixamente Janaína nos olhos enquanto seu braço continuava preso.
— Hel, para com isso. Você entendeu o que eu quis dizer.
— Eu acho que você que não entende...
— Helena... Vem, vamo deitar, ver alguma coisa na TV assim no meio da tarde... — Janaína tentou arrastar Helena pelo braço.
— Janaína, tira a mão de mim. — Respondeu Helena, inesperadamente, ríspida, fria e distante.
Janaína engoliu seco. Não disse mais palavra alguma, apenas concedeu o pedido de Helena. Aproximou-se da porta e girou a chave cuidadosamente, devagar, enquanto observava Helena por cima do ombro.
Helena acendeu um cigarro ao abrir a garrafa de vinho que a família de Janaína guardara por gerações. Uma das poucas coisas que Janaína carregava do passado. Helena sabia, mas não parecia pensar. Não parecia ser a Helena. Era o mesmo corpo, o mesmo cabelo despontado no ombro recém tingido de preto. Os pés sobre outra cadeira. Fumava enquanto bebia no gargalo mesmo o vinho.
Janaína tentou conter as lágrimas, raramente chorava mas ver Helena não sendo Helena era suficiente para fazer seu coração transbordar. Rapidamente, escondeu-se no banho e permitiu que as lágrimas caíssem. Implacáveis.
Chorou pelo que acabara de acontecer.
Chorou por não entender o motivo de ter mantido aquela garrafa por todos esses anos.
Chorou por lembrar constantemente de seus pais nas ultimas noites.
Chorou por não entender mais o que estava acontecendo.
Janaína chorou por talvez nunca ter conseguido entender a si mesma e nunca ter se permitido transbordar daquela forma. E já nem sabia mais o que lavava seu rosto: se a água do chuveiro ou as tantas lágrimas incontroláveis. Soluçava.
Chorou por Helena.
Helena.
Não podia perder tanto tempo no banheiro. Quase uma hora havia se passado. Saiu enrolada na toalha com o rosto inchado torcendo pra que Helena não perguntasse nada naquele momento... E ela não perguntaria.
Helena estava dormindo na cama de Janaína abraçada com o pato de pelúcia que havia ganhado de Janaína há tantos anos atrás.
Uma última lágrima de alívio correu pelo rosto de Janaína. "Vai ficar tudo bem" "vai ficar tudo bem" a moça dos cabelos cor de ouro repetia mentalmente de forma incessante enquanto apertava os olhos, quase que como uma oração.
"Minha filha, até o ouro passa pelo fogo pra ser refinado." Janaína lembrou da frase que sua avó costumava dizer. Essa fase lhe queimava o peito.
Talvez fosse só fogo refinando o ouro.
Girassol
sábado, 16 de março de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 12:33Loba
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
Postado por ~ Lu ~ às 22:12Nota rápida (this is war)
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Postado por Amelie às 05:02Há bombas explodindo lá fora e eu posso ver
Pelas janelas da minha casa
Pelas janelas da minha alma também
Ando por um campo minado
O som ensurdece aos outros
Meu corpo está sendo constantemente mutilado pelas explosões
Alguns dos meus membros estão dilacerados
Não sinto.
Estou dormente demais pra sentir
Porque aqui dentro — de casa e dos meus tímpanos — ecoa alto o blues que coloquei pra tocar quando abri minha última garrafa de vinho
Tudo ainda está entorpecido
Minha velha carcaça
Meu encéfalo também
E que bênção é a ignorância!
Santificados sejam os tolos, pois não sabem a dádiva que desfrutam por exercer inocentes sua tolice, livres da culpa, isentos de saber as consequências de seus atos
Santos sejam
Bem aventurados aqueles que vivem no piloto automático
Cuja existência é livre e sem necessidade de propósito
Abençoados sejam aqueles que rastejam como vermes sobre a terra
Porque medíocres por medíocres, esses não conhecem a amargura de questionar a própria razão.
O mundo ainda explode
As mulheres gritam enquanto suas crias antes barulhentas, agora silenciam eternamente em seus braços
As ruas são rubís preciosos de jovens almas
Rubís
Olhe suas mãos, suas roupas penduradas no banheiro
Até mesmo seus travesseiros
Note, todos nós temos mais sangue fora das veias a vista do que deveríamos
Respira fundo.
Sente o frio.
A morte é fria
Vazia
Solitária
Every creature on earth dies alone
Você deveria ter visto esse filme
Agora nem dá tempo
Aquela casa em chamas afinal...
Não é a tua?
O início do fim - parte I
sábado, 24 de setembro de 2016
Postado por Amelie às 15:58Instintivo
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Postado por Amelie às 14:07"Sempre gostei de biologia, particularmente eu achava a cadeia alimentar muito interessante. Os insetos se alimentavam de outros insetos. Os animais pequenos eram devorados por animais maiores e os seres humanos, por sua vez, se alimentavam dos animais e também devoravam uns aos outros."
Era só mais uma quarta-feira de chuva onde eu normalmente ficaria em casa vendo série policial, lendo ou tocando piano enquanto o pequeno Mik tentaria escalar meu colo a fim de alcançar as teclas. Mik é meu meio irmão caçula, filho de meu pai e Lilian. Diferente de Peter que não tinha lá grandes semelhanças comigo, Mik tinha chamas na pupila. O mesmo tom que as vezes lembrava mel, as vezes avelã avermelhado tanto nos cabelos quanto nos olhos. Fato que deixava Lilian ligeiramente furiosa, tanto o apego de Mik por mim quanto suas semelhanças físicas... É que eu lembrava a grande rival de Lilian: a falecida Helena Rosália. Sim, outra Helena. Por coincidência, minha mãe.
Lilian... Sempre histérica. Peter, sempre silencioso demais pra um garoto de nove oito anos. Meu pai, tentando ser um pai... eu acho. Não sei. Não sei onde andava a cabeça de meu pai. Sei que a minha estava cheia. Eu odiava ter dias iguais, odiava andar na linha e certamente eu morreria se não escapasse vez por outra. Recebi uma mensagem no celular "Saudades, gatinha. Espero que não esteja chateada. Um beijo daqueles" Era Dimitri. O cara por quem eu fui apaixonada todo o tempo de escola. Ficamos juntos até o começo do primeiro ano, quando ele era um cara legal, até ele começar a andar com... Não importa muito. Ainda estava chateada. Odiava a forma como ele falava comigo. Odiava o novo Dimitri, mas no fundo sempre achava que ia encontrar o meu Dim ao receber um beijo na testa depois de uma de nossas aventuras...
Resolvido: colocaria meu velho jeans, a jaqueta e o coturno. Um batom, soltar os cabelos e uma aparição surpresa talvez não fosse tão ruim.
Sai de casa com uma pequena garrafa de Coca-Cola em mãos. Sempre achei uma palhaçada isso de nomes escritos em embalagens, mas se fosse pra ter, então que tivesse o meu nome. A chuva não foi gentil comigo.
No primeiro toque de campanhia, a mãe de Dim apareceu no portão franzindo a testa como quem tenta ter certeza do que está vendo. Ela me encarou e logo soltou:
— Helena, é você mesma ou eu fiquei velha e gagá?
— A própria em carne e osso.
— Ora, menina, mas quanto tempo! — Ela me olhou de baixo pra cima — Você não muda mesmo, né? Continua usando essas roupas esquisitas de quem trabalha em cemitério.
Ri de canto enquanto ela abria o portão
— Também senti sua falta, Dona Débora.
Entrei e subi as escadas depressa, assim que cheguei na porta me deparei com Dim, suas pupilas estavam tão dilatadas que cogitei a hipótese dele ter acabado de usar cocaína.
— Helena Vincent.
— Dimitri Müller.
Não dissemos mais nada. Apenas ouvi o ruído da porta fechando devagar. Dim me segurou com força contra a parede e me beijou como se não beijasse ninguém há anos. Seus lábios corriam por meu pescoço e sua respiração ofegante ao meu ouvido me faziam corar. Eu poderia mergulhar naquele momento centenas de vezes incansavelmente. Não demorou mais do que cinco minutos até estarmos completamemte nus. Entreguei-me a Dimitri como nunca fizera antes. Pensei no cara em que amei. Sentia o sabor do vinho em seus lábios enquanto seu corpo estava completamente entrelaçado ao meu. Ele parecia sedento e eu gostava daquilo. Eu gostava da adrenalina que me trazia. Presos um ao outro, suas mãos tocavam as minhas, toquei seu rosto, Dimitri me encarou por alguns segundos como se fosse dizer algo mas pareceu engolir e simplesmente me prendeu pelo pulso com tanta força que seus dedos ficaram marcados em minha pele.
Outra de nossas aventuras se findou e o beijo na testa não veio. Encostei a cabeça em Dimitri. Acariciei levemente seu peito sentindo o relevo da tatuagem de lobo recém feita. Aquele momento foi curto. Senti vontade de chorar, mas felizmente estava cansada demais. Resolvi outra vez só deixar pra lá.
Logo Dim levantou colocando as calças e apertanto o cinto depressa. Ele jogou um olhar maldoso pra mim enquanto passava a língua no contorno dos lábios. Aquilo me fez lembrar os filmes de vampiros que eu assistia, quando o vampiro acabava de saciar-se com o sangue de alguém o ritual era o mesmo: passar a língua pelos lábios aproveitando até a última gota.
Eu então eu sabia que já não existia mais amor, nem mesmo consideração. Éramos apenas presas na cadeia alimentar um do outro. Éramos apenas lembranças de um passado que mais parecia um quadro desbotado na parede.
Exausta, adormeci.
À ninguém
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Postado por Jéssica às 21:55Me interrompo quando passo roupas que não passo. Quando me olho no espelho e não me compreendo. Quando me invadem os pensamentos que já me ausentaram. Me interrompo quando vejo o invisível e não o compreendo. Me interrompo quando me espanto. E me espanto. Sou assim mesmo: espantada e espantosa.
Mas também há em mim certa coragem que me impulsiona muitas vezes à lugar nenhum. Mas me agrado porque o lugar nenhum também é algum lugar.
Admiro as forças que falam e que movem. O espanto é uma força que faz mover ou faz estatizar. Pouco fico estática, geralmente me movo. O espanto é assim, assustador, porque é potente em travar. Não gosto de travas. Nada que prenda o riso o choro a poesia. Porque só se levanta quando cai. Mas de tanto cair a gente se segura, eu sei. Segura-se forte para que não caia. É legítimo: segure-se! A força que existe em nós é nossa e nos move e dá força pra se segurar.
Tanta graça há na vida que nunca estamos sozinhos. Ah, a solidão. Às vezes só na multidão e na multidão só. De fato estamos sozinhos. Paradoxo complexo e insatisfatório. Ou satisfatório, tanto faz.
Quem teme a solidão não merece ter companhia. Porque se não suporta estar apenas consigo mesmo não consegue ter o outro. Quem teme a companhia não merece ter solidão. Porque não suporta o outro e pouco deve se suportar.
Logo que me veio a vontade de escrever essa carta que diz respeito sobre o nada - como já disse - cogitei tratar-se de uma carta de amor. Se eu houvesse prometido isso, você provavelmente estaria se perguntando onde está o amor aqui. Mas te digo mesmo que eu não tenha prometido e que você não tenha se perguntado: o amor está em tudo por aqui. Sendo assim, a carta poderia dizer respeito ao amor. Mas limitaria a carta - talvez - e talvez também limitasse o amor.
O amor está em tudo, até no nada. E ao direcionar a carta à ninguém, ela pode se direcionar à qualquer um. Apesar de que não sei se devo afirmar isso (já afirmei) porque generalizar demais às vezes é mau. Quem fala muito geralmente não diz nada. Mas concordo que o nada é algo.
E direcionando a carta a ninguém direciono a mim.
Pensando bem, essa carta poderia chamar-se de algo genial que pensei e ao mesmo tempo que pensei esqueci.
(Nem sempre é bom tomar conhecimento de um pensamento).
Eduarda,
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Postado por Jéssica às 21:30Não sei descrever isso que estou sentindo agora. Queria que você pudesse me ver. Eduarda, você deveria saber que eu nunca poderia ser capaz de te odiar. Nem quando você me disse aquelas coisas tão terríveis eu te odiei. As coisas só não fizeram sentido.
Eu queria passar a vida do seu lado, não entendi como isso podia ser tão assustador pra você. E agora tudo faz sentido. Fico triste em saber que não estive do seu lado por esse tempo, você foi sempre tão forte e tão teimosa. Sua força sempre foi algo que eu admirei. E sua teimosia algo que eu detestei, e é justamente isso o que me irrita agora.
Duda, você fez tudo errado, meu amor. Eu queria estar com você nessa hora. Teria vivido os cinco anos mais felizes se tivesse vivido com você. Eu nem sei dizer como minha vida poderia estar diferente agora... Eu não queria que você tivesse passado por isso tudo sozinha.
Eu preciso dizer que nunca acreditei naquelas coisas que você disse... Foi um dia miserável aquele que era o mais importante da minha vida. Eu me senti o homem mais idiota e vazio. Cheguei em casa naquele dia e tomei um porre. Passei o mês inteiro tentando encontrar justificativa pra tudo. Tentei te procurar tantas vezes e quando você só me deu silêncio como resposta, eu desisti. Tinha meu orgulho e achava que você realmente não me queria mais. Eu via nos seus olhos o quanto me amava, mas preferi acreditar no que sua boca me dizia.
Hoje vejo o quanto fui tolo. Mas o que fazer? Eu não tinha o direito de quebrar o teu silêncio e invadir o teu espaço. Por isso me calei.
Passei meses e até os anos seguintes considerando uma visita sua, e confesso que a visita da tua mãe me pegou de surpresa. Cinco anos se passaram e eu não esperava mais nada, menos ainda a visita da sua mãe. Foi só vê-la pra saber que algo estava mal. E tudo estava mal. Peguei os embrulhos dela que estava com os olhos vermelhos, dei um abraço e ela só pediu que eu lesse tudo e a procurasse no final.
Na mesma hora subi pro apartamento e abri a primeira carta, a que estava separada das demais. Só consegui ler ela. E a minha vida nunca mais foi a mesma depois dali. Precisei de um tempo pra conter a emoção de sentir teu cheiro, de reviver todos os dois anos em segundos. De aceitar teu fim tão trágico. E o meu recomeço, já que eu tinha um filho e nunca tinha sido pai.
Eu não sei dizer, Eduarda, como estava a minha vida. Eu a vivia da maneira que achava bem. Saía com os amigos, alguns relacionamentos, nada sério. Emprego, casa. Rotina. Meio vazia, mas confortável.
Sua carta me arrancou um pedaço, mas também me permitiu recomeçar.
Obrigada por mesmo tarde ter me respondido... Eu ainda não li as demais cartas, essas que você passou escrevendo sem me enviar. E não sei quando vou ler, mas pretendo demorar bastante, quero de alguma forma fazer esses momentos durarem. Eu nem sei se estou pronto pra isso.
Eu não estava pronto pra aceitar o seu fim, mas é assim que são as coisas, não é? A vida é assim.
Quando tive coragem de sair quando terminei de ler a carta, tomei um banho e fui atrás da sua mãe. Ajudei a ela com as coisas que precisavam ser resolvidas... Fiz as coisas meio que mecanicamente. Tive a ajuda do nosso amigo João. Não tinha cabeça pra nada.
Até quando as coisas são terríveis, você consegue me surpreender... No meio dessa tristeza toda, ter visto aqueles olhos do moleque... Samuel, você o chamou, como é lindo. Ele tem teus olhos e o meu sorriso. Como pode ele ser tão a nossa cara assim? Quero ser o melhor pai do mundo. Queria tanto que tu pudesse ver tudo isso, Duda. Queria tanto que tudo tivesse sido diferente...
As coisas estão tão novas agora. A minha vida não está vazia mais. Você faz falta, como sempre fez, mas parece que alguma coisa nos liga agora. E eu tenho certeza que vem do Samuel. Parece que você está aqui o tempo todo, Eduarda. E fique, por favor.
Existem coisas que não couberam aqui. O meu amor não cabe aqui. Eu queria te enviar uma carta pra contar cada detalhe do nosso filho, queria te descrever exatamente cada sentimento que tenho, cada pedaço de mim deseja você inteira, mas eu sei que agora, de onde você tá, com certeza não precisa de nenhuma descrição... Eu vou encerrar isso aqui.
Espero ser um bom pai e que você me aprove.
Eduarda... eu queria te dizer mais uma vez: eu te amo.
a carta que não sei escrever.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Postado por Jéssica às 22:27Eu poderia riscar as palavras e continuar escrevendo, as árvores agradeceriam. Eu poderia escrever esta carta em um computador. Eu poderia simplesmente não escrever. Mas não, nada disso. Aqui estou insistentemente diante de uma janela fechada, lateral, no meu quarto de dormir; com uma caneca de café pra tentar me impedir de pegar no sono enquanto não termine de escrever.
Eu fiz uma promessa e só depois de prometer eu descobri o quanto é difícil manter a palavra. Mas não foi pra isso que comecei a escrever. Inicialmente eu queria falar sobre os dias de sol que tenho tido, sobre as tardes banhada no rio, sobre as noites olhando o céu estrelado no jardim que eu não tenho. Mas é, não tenho o jardim, nem o rio, nem os dias de sol.
Aqui tem feito frio e frio. Só frio. O dia é repleto de nuvem e as noites também. No trabalho (estou trabalhando!) as pessoas dizem que eu cheguei e trouxe o frio, e eu que pensei que gostaria disso, estou odiando.
Não sei se é pela falta de calor humano que eu nunca soube que gostava, ou se pela falta de felicidade na escolha que fiz. Eu achei que não sentiria saudades de casa, mas eu sinto saudade até dos meus vizinhos barulhentos.
Tá, isso é exagero e mentira. Eu sou dramática. Ainda sou dramática. Eu vim embora sem dó e nem piedade, com algum dinheiro que economizei por algum tempo. Larguei tanta coisa aí, que eu nem sei. Pior que eu nem queria vir, mas também não queria ficar aí e quando vi que existia a chance de sobreviver, não pensei duas vezes e aqui estou.
Eu deveria ter pensado melhor. A gente não deveria sobreviver apenas. Viver é bom, você sempre me dizia, mas como me afastei, não ouço mais isso e ninguém me faz acreditar que existe sol atrás dessas nuvens. Como dizia você, eu tenho muito que aprender.
Tenho recebido as cartas. Desculpa não responder. Ou não desculpe, eu não tenho certeza se me arrependo. Eu não sei o que dizer... Pra você ter ideia, estou aqui escrevendo e acho que estou falando demais e dizendo nada. Mas pelo menos você fica sabendo o que quer: eu estou bem.
Consegui um trabalho numa editora aqui perto (que ironia: eu numa editora). Fico levando papéis pra todo lado, pegando café, fazendo café. Nada interessante e também não tem o glamour dos filmes onde a mulher acorda atrasada, linda, corre e toma seu café na rua e chega no trabalho toda linda em seu salto alto. Eu tomo meu café em casa, porque o meu gasto inconsequente de dinheiro, como você tanto disse que iria me ferrar, me ferrou. Meu dinheiro começou a acabar, comecei a falir em terra estrangeira. Procurei trabalho e agora economizo. Pelo menos o dinheiro serve pra comprar uns congelados que estoco e pagar o aluguel.
A casa é pequena, seguem fotos como você havia pedido também. Não tem espaço aqui pra você.
Mentira, tem sim. Mas você é sábio e não vai largar tudo como eu fiz.
OK, desculpa. Fugi a carta inteira do meu objetivo. Eu não sabia ao certo que tinha um, mas agora eu percebi que estou fugindo. Eu já rabisquei sobre isso nas outras folhas... Sabe aquele assunto que você acha que precisa falar? Se estivéssemos perto um do outro eu veria nos seus olhos que não precisava falar nada, que você entendia, leria suas expressões e você as minhas. Mas estamos distantes. Distantes mesmo e não só fisicamente. Eu fiz questão de me afastar de você e de todos daí. Porque achei que assim me afastaria do meu maior problema: eu.
Achei que pegando aquele avião e descendo em terra desconhecida eu iria me tornar desconhecida de mim. Me enganei. E só agora no final dessa carta eu estou conseguindo realmente encontrar palavras pra dizer. Eu estou um pouco bem, sim, consigo viver os dias e valeu a pena ter vindo pra cá. Eu aprendi com isso que na vida é tudo ou nada. Você costumava dizer que eu era desequilibrada. Talvez esteja mais, mas se te consola, não me sujo com apenas um cigarro.
Não sei como finalizar essa carta. Não sei o que te dizer... Desculpa não ligar, não responder, não falar com ninguém, com nenhum de vocês.
Às vezes eu ligo para os meus pais. Eles disseram que meu irmão irá se formar. Você vai, né? Ele ficaria muito feliz. Você não é só meu amigo. E não precisa arrumar a minha bagunça.
Manda um beijo para a Camila, um abraço no João. Ah, e o Victor. Ah, Victor... O que dizer sobre ele? Não sei. Cole chiclete no cabelo de todas as namoradas que ele arrumar, por favor. Eu ainda amo vocês. E ainda odeio as namoradas do Victor (óbvio!).
E a você que me escreve com tanta frequência, sem desistir de mim: não desespere. Você tem a minha gratidão e o meu coração.
Estou aqui desligada de mim, aprendendo alguma coisa, fugindo da vida.
Mas eu volto e arrumo a bagunça que fiz, não me esperem.
Requiém de uma tempestade
domingo, 30 de março de 2014
Postado por Amelie às 19:57Eram memórias distantes. Tudo o que eu passei a conhecer era sobre solidão. Descobri que a dor tinha som. Som de choro. Som de chuva. Som de música instrumental, quase como Clair De Lune. Em seus casos mais extremos, eu também poderia dizer que o som da dor se parecia com "Moonlight Sonata" de Beethoven. A tristeza tinha o mistério e profundidade da obra "The Crow" de Van Gogh. Que talvez, sofrer também fosse uma arte das mais masoquistas e sádicas ao mesmo tempo. Descobri que o poeta vive de sua angustia, dela vende e dela mantém-se vivo. E que bela ironia manter-se vivo quando tudo de mais humano em você já morreu! Artistas não fazem sentido tal como nada conhecido na existência faz sentido.
Que é o amor se não as flores jogadas sobre o túmulo de quem já desistiu de si próprio? Que é o amor, se não o último floco de neve quando o inverno acaba? Que é o amor, se não apenas um rastro de esperança mal guardada?
A vida é líquida e corre por entre os vãos dos dedos sem que ninguém perceba.
"Luz! Luz! Mais luz!" e de Goethe, faço essas também minhas palavras. Embora o quarto fosse claro, todo acúmulo de sentimentos me cegava. "Luz", gritava o espírito de Goethe assim como meu espírito grita. Mais luz.
Leve
domingo, 10 de novembro de 2013
Postado por ~ Lu ~ às 01:18No fundo ele sabia que o romance com a Pianista duraria pouco. Durou o suficiente pra se tornar inesquecivel. O mesmo que havia acontecido com ela. Claro que ela era diferente. Era algo infinitamente maior, mais intenso, mais duradouro. Se ele fosse compositor comporia o réquiem agora. Mas não era. No máximo ele escrevia e desenhava, compor não era com ele. Deixou as chaves e o pão sobre a mesa. Esperou a casa perder a luz natural que trespassava a cortina. Em poucas horas deixou que as duas fossem. Pra pianista depois escreveria um e-mail lhe desejando sorte e tudo de bom e não esquecer de visita-lo quando voltasse. Para ela... para ela... subiu à laje vendo o sol sumir aos poucos e as nuvens adornando-o com uma coroa. Fechou os olhos, sorriu e, mentalmente escreveu uma pequena carta onde, resumidamente, despedia-se dela. Ao abrir os olhos se sentiu mais leve. Leve ao ponto de saber que ela, certamente, receberia a mensagem e ficaria e tiraria os pés do chão se deixando levitar, quem sabe até voar acima das nuvens. Assim como ele fazia agora. Leve de leveza, leve de beleza, leve com certeza, leve com clareza, leveza de leveza.






