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Reencontro - parte II

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

TW: Esse texto não é indicado para pessoas sensíveis que sofrem com crises devido a traumas, pois o conteúdo pode servir como gatilho para novas crises intensas.
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A lua chamava a atenção naquela noite cheia de estrelas e luzes nas ruas. Estava fora daquele quarto. Finalmente, mais perto de casa do que nunca... sem saber exatamente se ainda tinha um lar, se seria recebida, mas tudo bem, ainda tinha alguém la. Sem caronas dessa vez. Sem identidades falsas, não precisava ser a Clara aquela noite. Apenas Helena. A mesma fodida Helena de sempre.
Tinha gente à minha volta, bares e música. Risadas, conversas e pela primeira vez em muito tempo, não temi nada. Respirei fundo.
Liberdade.
Senti liberdade. Eu, Helena, a filha das estrelas caminhando coberta por elas.

Sorri de canto. Entrei em um bar. Hora da festa.

Sentei em uma mesa perto da janela, eu não queria deixar de olhar a movimentação, a noite, não queria pensar em mais nada além daquele momento. Pensei em pedir uma dose de uísque, lembrei que estava há muito tempo bebendo coisas amargas. Pedi um vinho. E outro. E outro. E outro.
Percebi que um rapaz do outro lado do bar me olhava e sorria de um jeito tímido. Ruivo. Cabelo comprido. Há quanto tempo eu não me permitia? Retribui o sorriso. Ele veio até mim.

— Está esperando alguém? Posso sentar? Não quero atrapalhar...

— Tudo bem, pode ficar — respondi,um pouco sem jeito — tô sozinha.

Ele sorriu da forma mais covarde que eu já vi alguém sorrir.
Começamos uma longa conversa sobre música, ele também tocava piano, ouvia Björk, criava lagartas e comentou sobre algumas tatuagens. Seu nome era Lucas.

— Desculpa a falta de atenção, Lucas, meu nome é Helena, igual o da minha mãe.

— Você tem o nome da sua mãe? Ela deve gostar disso.

— Na verdade eu nunca vou saber. Ela morreu quando nasci. Meu pai colocou o nome em mim como forma de homenagem, senão eu teria algum nome gringo como meus irmãos. Meu pai é inglês.

Engoli seco quando me dei conta de que havia contado parte da minha história pra um estranho... ou pra alguém que não fosse a Janaína. Lucas perguntou se eu estava bem ao notar meu longo silêncio. Eu pedi dois shots de tequila. Precisávamos apagar essa pequena parte da noite.
Os dois shots logo se tornaram seis. Lucas puxou a minha mão com empolgaação e me levou até um canto um pouco escondido do bar, virou um pino de cocaína sobre a mesa e separou em finas e longas carreiras. Olhei, estagnada.

— Ei, Helena, tá tudo bem. Vamos nos divertir. Dançar como se o amanhã não existisse. A lua está linda lá fora. Você está quase com sono. Não precisa ter medo.

A forma como Lucas falava era firme e confiante. Não hesitei mais. Senti minhas narinas e minha gengiva ficando dormentes. Achei a sensação engraçada. Meu coração batia mais rápido. De repente, eu tinha super poderes. Não tinha medo de absolutamente nada.
Lucas e eu saímos de fininho do bar sem pagar a conta.
Corremos pela rua como duas crianças, rindo, atravessamos uma avenida, paramos perto de outros bares, um estacionamento e um pequeno beco. Gargalhamos. Ele deu um leve toque no meu ombro exclamando "HELENA NÃO ME PEGAAAAA!" E correu em direção ao beco.
Eu ri.

— Lucas, esqueci de perguntar a sua idade, mas presumo que não tenha mais de doze, acertei?

Ele não respondeu. Estava levando a sério a brincadeira, talvez. Comecei a procurar. Não havia luz no beco. Belo esconderijo.
Fui surpreendida por alguém me encostando na parede.

— Te peguei!

— Caralho, Lucas, que susto!

Ele acariciou meu rosto. Nos beijamos. Ele me beijava intensamente, juntava o corpo dele ao meu, cada vez mais. Suas mãos exploravam minha pele, ele descia os lábios pelo meu rosto, queixo, pescoço... Abri os olhos. Senti meu coração subindo pela garganta. Eu não estava mais confortável.

— Lucas... Ei... acho que não vai rolar.

Ele continuava, segurou meu corpo com mais força, colocou as mãos por debaixo da minha blusa. Tentei falar de novo.

— Lucas, para! EU NÃO QUERO, ME SOLTA!

Ele colocou a mão no bolso, foi até o meu ouvido e disse baixinho "Helena, querida, não corta o clima." Senti algo frio se aproximando do meu pescoço. Era o canivete que Lucas havia tirado do bolso.

Meus lábios ficaram mudos.
Meu corpo ficou estático.
Minhas blusa, rasgada.

"Hora da morte" pensei. É claro que o vislumbre de alegria plena não me cabia também. É claro que isso teria um preço alto. Que ilusão estúpida acreditar que eu sairia ilesa disso! A felicidade era para os bons e eu nunca, nem de longe fui boa ou coisa parecida. Nunca sequer vali a pena. Lucas rasgava minhas roupas e a lâmina fazia pequenos cortes em meu corpo enquanto eu pensava que se talvez eu não tivesse vindo ao mundo, minha mãe estaria viva, meu pai fosse um homem melhor, Lilian estaria com alguém que realmente a amaria sem se entupir de antidepressivos. Minha existência era um erro que deveria ser corrigido. Ou que toda essa desgraça fosse punição do Universo pelo meu impulso interno de sobreviver. Estúpida Helena. Maldita Helena.

O tempo parou.
Vi duas mulheres saindo de um bar longe indo na direção do estacionamento que era próximo ao beco. Não sei explicar, mas isso me destravou, ao menos parcialmente.

— Lucas... Me ouve. Isso vai ser melhor se você souber o que eu sei fazer... — tentei forjar um tom safado com o resto de coragem que ainda tinha em mim.

Ele me soltou aos poucos, fui até ele, até o pescoço dele. Explorei os pontos fracos. Não era tão difícil descobrir. Por dentro, eu estava quebrada, ele porém, estava entregue. Entregue o bastante pra deixar as mãos frouxas. Imbecil. Peguei o canivete rápido e quando ele esperava o "gran finalle", cravei o canivete em sua coxa e corri. Corri como nunca antes. Corri em direção àquele estacionamento. Corri enquanto as lágrimas mal me deixavam enxergar. Minha visão turva só me permitiu ver um carro de porta aberta com duas mulheres. Saltei pra dentro gritando:

— LIGUEM O CARRO, FUJAM, RÁPIDO, POR FAVOR, AQUI NÃO É SEGURO! Rápido... Por... favor...

Notei minha voz perdendo força.
Meu corpo também.

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Meu corpo balançava e meus joelhos ardiam. Eu ainda estava de olhos fechados, não podia estar em uma ambulância outra vez. Estaria deitada, mas não estava. Claramente eu estava sentava em algum carro, um cinto me prendia. Tive medo de abrir os olhos e notar a figura que estaria ao meu lado.
Havia tido um sonho estranho do qual me lembrava vagamente, mas acho que sonhei com...  Puta merda, que dor de cabeça! Respirei fundo. Senti um perfume familiar. Muito familiar. Respirei fundo novamente tentando esticar o corpo levemente quando ouvi a voz mais suave que eu poderia ouvir naquele momento:

— Helena?

Não. Impossível.

— Helena? Ei, não consegue mais falar? Puta merda, devia ter te levado em algum hospital.

Virei o rosto pro lado da janela. Não podia acreditar.

— Jana, você tem isqueiro aí?

— VAI SE FODER, HELENA, VOCÊ SOME POR MAIS DE UM ANO, DESMAIA TODA MACHUCADA NO MEU CARRO DO NADA E A PRIMEIRA COISA QUE ME PEDE É UM ISQUEIRO?

— Também senti sua falta, Jana. — Disse enquanto explorava o porta-luvas. — Eight? Sério? Desde quando você fuma? Pelo menos achei um isqueiro. — Debochei ao acender um Carlton.

— Eu não fumo, você sabe. Isso é da Lob...Helena, você não deveria fumar no meu carro. Para de mudar de assunto, Hel, o que aconteceu? Porra, você sumiu sem sequer dar certeza se voltaria e eu não desacreditei, não deixei de esperar por isso um único dia. Você estava assustada, machucada e ainda tá suja de sangue. Dá pra falar?

— Jana... Eu... Eu não sei, eu acho que... — as palavras não saíam, não importa o quanto eu tentasse. Tudo estava ali. As marcas, as dores. Lembranças correndo tão rápido a ponto de me deixar tonta, mas algo maior estourava no peito. Algo que transbordava. Um longo choro veio. Choro seguido de soluços. Incontrolável em meio a dezenas de pedidos de desculpa.

— Ei, minha pequena, tudo bem. Tudo bem. — Janaina segurou minha mão, sua mão esquerda permanecia no volante — Eu te encontrei. Você me encontrou. Vou te proteger. Estamos juntas agora. Vamos ter tempo. Não vou mais te soltar. Nunca mais. Eu nunca mais vou soltar a sua mão. — Jana deixou cair alguma lagrimas enquanto me olhava daquela forma tão terna, sorrindo. — Eu te amo, Helena Vincent.

Sorri entre as lagrimas e apertei com força a mão de Janaína.
Estávamos na estrada e ainda longe bem de casa, mas eu sabia: já tinha encontrado meu lar.

Reencontro

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

TW: transtorno de estresse pós traumático. A leitura desse conto não é recomendada caso você tenha vivido um trauma recente. A escolha entretanto fica a seu caráter. Os escritores não se responsabilizam pelo conteúdo uma vez que há aviso prévio. Em caso de TEPT, procure ajuda!

Trocava de canal: futebol. Foda-se. Meu pai conseguiu desenvolver em mim verdadeira repulsa por canais de esportes e esses comentaristas babacas. Além do público que não é lá muito imprevisível: aqueles caras que tem todo um estoque de cerveja na geladeira e se limita a coçar as bolas no sofá da sala enquanto a esposa revira páginas de pesquisa na internet com a busca "como agradar o marido". Tsc. Deprimente. Lembrava tanto meu pai e Lilian. Ele era um bom marido até certo ponto, mas quando decidi ir embora, por mais que Lilian não conseguisse disfarçar seu repúdio por mim, era visível o quão depressiva ela estava. As gavetas tinham caixas e caixas e prozac, exodus, sertralina... o que mais ela tentaria pra levantar o ânimo? Cheguei a ouvir sem querer ela chorar no telefone dizendo que se sentia um lixo. Nem auto-estima a mulher tinha mais. Será os filhos? Peter já tinha quase dez anos... mas Mik? Sequer tinha completado um ano quando parti. O corpo de Lilian mudou depois do nascimento do Mik, mas... Não. Meu pai ainda era um inglês. Não se deixaria levar por tamanha futilidade. Ou sim? Não seria improvável se tratando de um Stewart. Merda. Minha cabeça outra vez estava a mil. Outra vez mudei de canal. E de novo. E de novo. Nem olhei pra tela, agora minha mente estava presa em Mik, meu caçula. Lembrei da última vez em que fiquei naquela casa e tentei ver como um lar. Estava tocando piano, Mikael puxava a barra da minha calça tentando escalar, ele gostava de pressionar as teclas, espacialmente as pretas. Peter era um garoto magrelo, extremamente branco como eu, tinha até umas olheiras. Cabelos lisos negros, ou quase. Era calado. Lia Edgar A. Poe e Goethe, como eu. Ao contrário, não comentava. Peter parecia aquelas crianças que haviam sofrido um trauma e ficaram mentalmente sequeladas. Porra, eu não devia ter rido disso. Ainda tem vinho no frigobar? Em todo esse tempo eu não pensei nem por um minuto neles. Exceto no olhar de Mik. O olhar dele é diferente de tudo. Mik não é como meu pai, nem como Lilian ou Peter. Não conheci minha mãe para comparar. Já Mik...  tem os cabelos loiros em um tom que quase lembram fogo e seus olhos acompanham a cor do cabelo. Seu olhar queima tudo o que ele olha. Atravessa tudo. É como se ele visse através da pele, através do tempo e das circunstâncias. Tão pequeno e tão conectado a mim.
A TV estava de fato entediante tanto como aquele lugar — que convenhamos, em muito tempo era o mais limpo, tranquilo, seguro e decente que já estivera. Ao menos tinha certeza de já não estar mais tão longe de tudo.
Definitivamente, é hora de descer desse quarto e beber, sair de mim. Minha cabeça permanecia sobrecarregada.
Levantei da cama, calcei os velhos coturnos que não me acompanhavam há pouco tempo e vesti a jaqueta jeans que fugiu comigo e permaneceu comigo e possui tantos rasgos e marcas quanto eu. Marcas. Meu olhar ficou perdido por alguns segundos, tenho certeza disso, minha mente voou. Senti meu corpo sendo arremessado ao chão. Senti peso sobre mim. Senti cheiro de mato, de suor, de álcool, meu corpo doeu novamente. Estremeci. Apertei os olhos com força, deixei uma lágrima cair. Lembrei daquela mão áspera em direção ao meu rosto... meu celular sinalizou uma nova mensagem. Abri os olhos, respirei fundo. Malditas crises estranhas, outra vez! Olhei para o celular enquanto minhas mãos ainda estavam trêmulas. Era Janaina. Acendi um cigarro. "Helena Vicent Stewart, onde caralhos está você?" Eu vou ligar pra ela. Eu juro. Mas antes eu vou esquecer tudo o que vivi. Antes deixarei Clara perdida dentro de alguma garrafa ou algum cobertor. Antes reencontrarei Helena.

À ninguém

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pra começar digo que é o fim. E que essa carta diz respeito ao nada e destina-se a ninguém. A aceite bem ou a aceite mal. (Com quem eu falo senão comigo?). Contradigo-me no instante em que digo sem saber o que estou a dizer. Me interrompo quando ouço no rádio a minha música tocar (sim, é minha, pois foi feita para mim e só eu a sei cantar e canto), voltando (sem interrupções) eu me interrompo a todo momento porque preciso. Porque falar através de palavras (ora, não sabe que sem palavras também se pode falar?) requer tamanho esforço que me cansa. Por isso me interrompo. Me interrompo porque quero (sobre)viver.
Me interrompo quando passo roupas que não passo. Quando me olho no espelho e não me compreendo. Quando me invadem os pensamentos que já me ausentaram. Me interrompo quando vejo o invisível e não o compreendo. Me interrompo quando me espanto. E me espanto. Sou assim mesmo: espantada e espantosa.
Mas também há em mim certa coragem que me impulsiona muitas vezes à lugar nenhum. Mas me agrado porque o lugar nenhum também é algum lugar.
Admiro as forças que falam e que movem. O espanto é uma força que faz mover ou faz estatizar. Pouco fico estática, geralmente me movo. O espanto é assim, assustador, porque é potente em travar. Não gosto de travas. Nada que prenda o riso o choro a poesia. Porque só se levanta quando cai. Mas de tanto cair a gente se segura, eu sei. Segura-se forte para que não caia. É legítimo: segure-se! A força que existe em nós é nossa e nos move e dá força pra se segurar.
Tanta graça há na vida que nunca estamos sozinhos. Ah, a solidão. Às vezes só na multidão e na multidão só. De fato estamos sozinhos. Paradoxo complexo e insatisfatório. Ou satisfatório, tanto faz.
Quem teme a solidão não merece ter companhia. Porque se não suporta estar apenas consigo mesmo não consegue ter o outro. Quem teme a companhia não merece ter solidão. Porque não suporta o outro e pouco deve se suportar.
Logo que me veio a vontade de escrever essa carta que diz respeito sobre o nada - como já disse - cogitei tratar-se de uma carta de amor. Se eu houvesse prometido isso, você provavelmente estaria se perguntando onde está o amor aqui. Mas te digo mesmo que eu não tenha prometido e que você não tenha se perguntado: o amor está em tudo por aqui. Sendo assim, a carta poderia dizer respeito ao amor. Mas limitaria a carta - talvez - e talvez também limitasse o amor.
O amor está em tudo, até no nada. E ao direcionar a carta à ninguém, ela pode se direcionar à qualquer um. Apesar de que não sei se devo afirmar isso (já afirmei) porque generalizar demais às vezes é mau. Quem fala muito geralmente não diz nada. Mas concordo que o nada é algo.
E direcionando a carta a ninguém direciono a mim.
Pensando bem, essa carta poderia chamar-se de algo genial que pensei e ao mesmo tempo que pensei esqueci.

(Nem sempre é bom tomar conhecimento de um pensamento).


a carta que não sei escrever.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Estou há horas rabiscando palavras em uma folha em branco. Na medida em que as palavras surgem, as folhas somem. Porque não tenho nada que apague o que a caneta escreveu na folha em branco, assim como nada retira as marcas que tenho, nem desfaz os caminhos que a vida tomou.
Eu poderia riscar as palavras e continuar escrevendo, as árvores agradeceriam. Eu poderia escrever esta carta em um computador. Eu poderia simplesmente não escrever. Mas não, nada disso. Aqui estou insistentemente diante de uma janela fechada, lateral, no meu quarto de dormir; com uma caneca de café pra tentar me impedir de pegar no sono enquanto não termine de escrever.
Eu fiz uma promessa e só depois de prometer eu descobri o quanto é difícil manter a palavra. Mas não foi pra isso que comecei a escrever. Inicialmente eu queria falar sobre os dias de sol que tenho tido, sobre as tardes banhada no rio, sobre as noites olhando o céu estrelado no jardim que eu não tenho. Mas é, não tenho o jardim, nem o rio, nem os dias de sol.
Aqui tem feito frio e frio. Só frio. O dia é repleto de nuvem e as noites também. No trabalho (estou trabalhando!) as pessoas dizem que eu cheguei e trouxe o frio, e eu que pensei que gostaria disso, estou odiando.
Não sei se é pela falta de calor humano que eu nunca soube que gostava, ou se pela falta de felicidade na escolha que fiz. Eu achei que não sentiria saudades de casa, mas eu sinto saudade até dos meus vizinhos barulhentos.
Tá, isso é exagero e mentira. Eu sou dramática. Ainda sou dramática. Eu vim embora sem dó e nem piedade, com algum dinheiro que economizei por algum tempo. Larguei tanta coisa aí, que eu nem sei. Pior que eu nem queria vir, mas também não queria ficar aí e quando vi que existia a chance de sobreviver, não pensei duas vezes e aqui estou.
Eu deveria ter pensado melhor. A gente não deveria sobreviver apenas. Viver é bom, você sempre me dizia, mas como me afastei, não ouço mais isso e ninguém me faz acreditar que existe sol atrás dessas nuvens. Como dizia você, eu tenho muito que aprender.
Tenho recebido as cartas. Desculpa não responder. Ou não desculpe, eu não tenho certeza se me arrependo. Eu não sei o que dizer... Pra você ter ideia, estou aqui escrevendo e acho que estou falando demais e dizendo nada. Mas pelo menos você fica sabendo o que quer: eu estou bem.
Consegui um trabalho numa editora aqui perto (que ironia: eu numa editora). Fico levando papéis pra todo lado, pegando café, fazendo café. Nada interessante e também não tem o glamour dos filmes onde a mulher acorda atrasada, linda, corre e toma seu café na rua e chega no trabalho toda linda em seu salto alto. Eu tomo meu café em casa, porque o meu gasto inconsequente de dinheiro, como você tanto disse que iria me ferrar, me ferrou. Meu dinheiro começou a acabar, comecei a falir em terra estrangeira. Procurei trabalho e agora economizo. Pelo menos o dinheiro serve pra comprar uns congelados que estoco e pagar o aluguel.
A casa é pequena, seguem fotos como você havia pedido também. Não tem espaço aqui pra você.
Mentira, tem sim. Mas você é sábio e não vai largar tudo como eu fiz.
OK, desculpa. Fugi a carta inteira do meu objetivo. Eu não sabia ao certo que tinha um, mas agora eu percebi que estou fugindo. Eu já rabisquei sobre isso nas outras folhas... Sabe aquele assunto que você acha que precisa falar? Se estivéssemos perto um do outro eu veria nos seus olhos que não precisava falar nada, que você entendia, leria suas expressões e você as minhas. Mas estamos distantes. Distantes mesmo e não só fisicamente. Eu fiz questão de me afastar de você e de todos daí. Porque achei que assim me afastaria do meu maior problema: eu.
Achei que pegando aquele avião e descendo em terra desconhecida eu iria me tornar desconhecida de mim. Me enganei. E só agora no final dessa carta eu estou conseguindo realmente encontrar palavras pra dizer. Eu estou um pouco bem, sim, consigo viver os dias e valeu a pena ter vindo pra cá. Eu aprendi com isso que na vida é tudo ou nada. Você costumava dizer que eu era desequilibrada. Talvez esteja mais, mas se te consola, não me sujo com apenas um cigarro.
Não sei como finalizar essa carta. Não sei o que te dizer... Desculpa não ligar, não responder, não falar com ninguém, com nenhum de vocês.
Às vezes eu ligo para os meus pais. Eles disseram que meu irmão irá se formar. Você vai, né? Ele ficaria muito feliz. Você não é só meu amigo. E não precisa arrumar a minha bagunça.
Manda um beijo para a Camila, um abraço no João. Ah, e o Victor. Ah, Victor... O que dizer sobre ele? Não sei. Cole chiclete no cabelo de todas as namoradas que ele arrumar, por favor. Eu ainda amo vocês. E ainda odeio as namoradas do Victor (óbvio!).
E a você que me escreve com tanta frequência, sem desistir de mim: não desespere. Você tem a minha gratidão e o meu coração. 

Estou aqui desligada de mim, aprendendo alguma coisa, fugindo da vida.
Mas eu volto e arrumo a bagunça que fiz, não me esperem.

Com carinho, 
Marcela.

Vento da Mudança

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ele: Hoje pela manhã dei um beijo nela enquanto ela ainda dormia, peguei as chaves do carro e segui para o trabalho. O trânsito não facilitava o trajeto, como esperado. Era cedo, mas você deve saber como as grandes metrópoles funcionam: as avenidas podem parar a qualquer momento. E ali, entre aquele mar de carros, comecei a lembrar de quando a conheci. Permiti que a minha mente regressasse no tempo. Fizemos tantos planos! Eu era um rebelde-quase-totalmente-irresponsável, e acredito que ela ainda me olhe dessa forma, mas a verdade não é bem essa. Ela me mudou, me fez crescer. E eu ainda custo a entender como ela que é tão fina consegue aturar um moleque maltrapilho feito eu. Ela sempre foi tudo o que eu nunca soube ser, ela era completa, eu era só um cara que tocava bateria em uma banda. Quase fomos expulsos do prédio dois meses depois de ter alugado o apartamento. Foi ela quem resolveu os problemas com o síndico e se desculpou pelo barulho de música alta que toda noite incomodava os vizinhos. Eu nunca disse, mas eu sempre gostei de contrariar o que ela fala porque adoro as expressões e argumentos dela. Adoro ver a forma como ela levanta a sobrancelha esquerda e aperta o lábio antes de começar aqueles longos discursos cheios de palavras difíceis. Será que ela me via como mais um dos alunos que ela tinha que pôr na linha? Eu nunca vou saber. Como pode uma mulher tão linda ser tão inteligente? Se um dia tivéssemos uma filha, eu gostaria que fosse como ela é. 


Ela: Eu acordava com o beijo suave dele todos os dias de manhã. Sempre via o relógio e imaginava se ele não podia ter um emprego mais perto de casa. Embora ele não tivesse que esperar ônibus, metrô nem nada a vida não era tão simples. Ouvi ele tomar o café e sair. Ainda tinha mais alguns minutos antes de levantar e me arrumar para sair para o colégio. Uma onda de nostalgia me invadiu, ele era um rebelde, desses que saem berrando pela rua altas horas da madrugada apenas para acordar todos. Ainda o via como um menino, apesar do tempo que estávamos juntos. Pouco mais de dois anos. Suspirei tendo meus devaneios rompidos pelo despertador. Coragem, só falta oito aulas. Me levantei, o dia passava no automático. Na hora do almoço chequei se havia trazido o pedido de exame. A tarde colocaria uma pedra sobre essa dúvida que me assolava tanto e me deixava com o sono curto. O dia voou, estava com o envelope em minhas mãos. Abro aqui? Minhas pernas me guiaram até o ponto de ônibus. Não abriria nada dentro do ônibus de volta para casa, não bastasse segurar minha já bem pesada bolsa cheia de livros e provas para corrigir, ainda teria que segurar a outra bolsa e abrir um envelope. Só se eu fosse um octópode e, definitivamente, não era o caso. Ao chegar em casa tudo estava sereno, calmo, como eu havia deixado quando saí de manhã. Ignorei todo o trabalho doméstico para dar atenção àquele envelope. O abri checando meu nome, diversos termos técnicos, nome de médico, do exame, das probabilidades e da exatidão do mesmo. Quanto desperdício de papel. Somente na terceira folha é que o resultado se mostrava óbvio para o paciente. Não contive o riso, o choro, euforia, eu estava tão feliz que se explodisse minha felicidade inundaria não só esse cômodo como o planeta, o universo, a criação inteira. Em letras maiúsculas um único adjetivo após a palavra "Grávida".


Ele: - A luz verde do semáforo acendeu e as centenas de máquinas que me rodeavam saíram a minha frente. Deixei o carro morrer quando tive meus pensamentos interrompidos pelo som de uma nova SMS no celular. Era ela. Queria conversar. O que seria dessa vez? Mais reclamações do síndico? Havia muito tempo que eu não escutava música em um volume muito alto. Talvez o problema agora fosse os meus amigos. Ela nunca gostou muito deles, reconheço que os caras eram folgados e tinham mania de descer no elevador completamente bêbados mexendo com as senhoras idosas. Tentei me preparar para a bronca, dei partida novamente no carro e segui até o trabalho, o dia parecia inacabável. 


Ela: Olhei o relógio, ainda faltavam algumas horas para que ele viesse. Como eu contaria a notícia? Ele sempre foi irresponsável, desde os tempos que eu fazia faculdade até alguns meses atrás. Ele era um rebelde. Incontestavelmente rebelde e, talvez fosse por esse jeito - como dizia a minha mãe - um pouco "punk" que eu tenha me encantado. Maldita mania de contrariar tudo. Qual graça ele via nisso? De qualquer forma, o que realmente me preocupava era a dúvida: como ele se sentiria ao descobrir que seria pai? Todas as vezes que eu mencionava o assunto "filhos", ele torcia o nariz e mudava de assunto. Bem, havia um ser dentro de mim e eu não era a única responsável por isso. Ele tinha que saber o mais rápido possível. Como as mocinhas de novela contavam? Deixavam o mocinho saber, eles se abraçavam, choravam juntos e viviam felizes para sempre, era, normalmente o fim da novela. O mesmo vale para livros, filmes... Toda a história da literatura a descoberta - ou revelação - de uma gravidez era o fim do livro, que era o clássico "felizes para sempre". Porém quando era antes disso, sempre era um revés para a mocinha, que acabava ou expulsa de casa ou sofria tudo sozinha... Terrível. Mandei uma SMS dizendo que precisávamos conversar. Não tínhamos brigas haviam alguns meses, então a resposta dele foi como eu esperava "o quê aconteceu?". Chequei na minha bolsa, resolvi dar um pulo no mercado e fazer um belo de um jantar. E, enquanto as panelas expulsavam vapores me benzi, orei, fiz promessas... Essas coisas de menina que foi criada com mãe católica fervorosa. Tomei um banho. Deixei o envelope sobre a mesa, somente com a última folha, onde o resultado era óbvio. Deixei para entregar durante a sobremesa. Isso. Assim que ele chegou o encaminhei ao banho e servi a mesa. O coração veio a boca. E se eu sumisse com o envelope? Não. Sem covardice agora. Eu seria a primeira mocinha a sobreviver a uma gravidez no meio do livro e seguiria firme até o felizes para sempre.


Ele: Quando abri a porta do apartamento, joguei as chaves sobre a mesa e tirei aquele terno horrível que me obrigavam a usar. Soltei os cabelos, me recusava a corta-los, não existia empresa capaz de me fazer mudar o ponto de vista. Tomei um banho rápido e corri para a mesa, faminto e curioso, esperando pelo quê ela teria a dizer. Sequer cogitei a hipótese de perguntar a ela como fora o seu dia. Estava certo de que ela brigaria comigo e me diria que já é momento de crescer. Sentei a mesa, ela parecia nervosa, inquieta, eu diria. Nunca a tinha visto daquela forma. Será que era grave? Eu tentava perguntar algo e ela ficava calada. Engoli a comida sem nem saborear, pra ser honesto, nem lembro o que comemos. Só lembro das mãos dela completamente trêmulas vindo em minha direção, segurando um envelope. Respirei fundo. 


Ela: Nos sentamos para cear. Jantamos, ele ficou curioso sobre o quê eu tinha para contar. Trouxe a sobremesa, junto dela o envelope. Entreguei a ele. Minha pulsação disparou, empalideci completamente. No instante que ele abria o envelope meu coração parou. Ele abriu a folha. A respiração ofegou. A minha foi junto. Ele não teve palavras. As lágrimas escorriam dos olhos dele juntamente com um sorriso que eu já não via tinha algum tempo. A rotina sempre acabava com alguma coisa dos casais. Mas agora... Algo completamente fora da rotina. Nos abraçamos com a folha entre a gente. Ele alisava meus cabelos e me fazia juras de amor que eu respondia no mesmo tom, na mesma emoção, ou, como diziam meus alunos "na mesma vibe". Desejei que aquele momento durasse eternamente.


Ele: Naquela noite, descobri que a minha vida mudaria para sempre. Descobri que seria pai. Eu, que terminei o ensino médio por pressão dos meus pais, porque na verdade sempre quis ser músico. Eu, que nunca me importei muito com as coisas. Eu, que além de tocar bateria, a única outra coisa na qual me saía bem, era em jogar video game. Esse mané teria um bebê pra segurar nos braços. De imediato, levei um susto. Mas imaginei uma mãozinha pequena tocando a minha e me senti completo. Agora sim, éramos uma família. Hoje, Helena completa três anos. Ela é a garotinha de três anos mais linda que já vi. Ela tem os cabelinhos claros exatamente como os da mãe dela. E ela tem aquela mania de levantar a sobrancelha esquerda quando fica emburrada com alguma coisa. Como é que eu posso amar tanto um ser tão pequeno? Helena me ensinou sobre tudo. A minha filha me ensinou o que as empresas, a rotina e todo o cotidiano à minha volta tentavam me fazer esquecer. Minha esposa e eu costumávamos deitar debaixo da cerejeira em que nos beijamos pela primeira vez. Eu deitava no colo dela, e Helena apoiava a cabecinha sobre a minha barriga, então ficávamos nós três contando as estrelas e dando nome a elas. Ainda ontem, vi Helena vestida de bailarina me encarando com aqueles olhos verdes - que talvez seja uma das poucas coisas que ela herdou de mim - enquanto puxava minha camisa me chamando pra mostrar o que tinha aprendido. Eu vi a minha pequena das bochechas rosadas andando com a pontinha dos pés com as mãos sobre a cabeça. Naquele momento descobri que as vezes temos medo de que algo inesperado aconteça, medo a ponto de mudar de assunto toda vez que alguém tenta falar sobre. E aquele meu medo de ser responsável e cuidar, se transformou no presente mais bonito que alguém poderia receber. Eu só posso afirmar algo: se eu morresse amanhã, eu morreria sabendo que tive a melhor vida que qualquer um pode imaginar. Feliz aniversário, minha filha! Eu amo você.


Escrito por Luís Mitzco e Thata Bastos.

Caro psiquiatra,

sábado, 28 de julho de 2012


São três e meia da madrugada e acho que sofro de insônia. Tive um dia corrido, fiz coisas e meu humor alterou dentro dos limites. Limites! Sempre estive com eles e sabe, às vezes, me questiono sobre quem eu sou... Quem sou eu, doutor? Será que sou meus comprimidos de tarja preta ou eu mesma? E “eu mesma”, quem é?
Aprendi desde cedo a resolver meus problemas com receitas que consegui em consultórios. Meus pais me levavam, pagavam caro, e eu estava então feliz, (era tudo que eu precisava, conforme me diziam as vozes). A droga que a sociedade aceitou.
Ao longo do tempo sofri repressões advindas destes comprimidos. Quando eu quis extravasar, deram-me balas que me fizeram dormir. Quando quis dormir, era preciso acordar. E agora só me resta um questionamento: Quem eu sou?
Direciono-te esta carta e confesso que não tenho outro alguém a quem direcionar. Me incomoda não saber quem sou. Sinto que nunca fui verdade, as fórmulas nunca me deixaram! Nunca permitiram que eu fosse quem eu quisesse.
Doutor, a sociedade não te aceita como você é, acabei de aprender isso. Tudo ficou mais claro agora, quando troquei os comprimidos por umas doses de conhaque. Sim, não tomei nenhum remédio hoje à noite. Não quero outro tratamento, nunca entendi de fato o que diabos eu tinha, afinal. E também não quero mais saber. Acho que desisto, doutor.
Não tenho orgulho de mim. Manipulada por fórmulas, nunca soube decerto quem eu era. E não há remédio que possa me dizer. Não quero alguém dizendo quando posso sorrir ou chorar. Não quero que me digam quais são meus limites, doutor. Quero testá-los.
Para finalizar, vale acrescentar que me sinto aliviada como nunca senti antes. De certa forma consegui dizer o que há muito guardei. Quero descobrir a resposta para o meu questionamento e deixar de somente existir. Agora já são quase quatro horas da madrugada e aumentarei a intensidade do meu som. Estou intensa, quero expressar isso. Vou beber os drinks que eu quiser, dançarei e cantarei. Pularei! Irei tocar o céu hoje, doutor.
Se vizinhos se incomodarem, provavelmente dirão que alguém do 303 está em surto. Suponho que virão me buscar com camisa de força, mas duvido que me encontrem aqui. Pois retoquei a minha maquiagem, me aprontei. Vou voar, doutor. Liberdade, finalmente.

Você e o seu consultório nunca mais me verão.
Adeus!

Geovana.

Ao nosso amor sujo, à nossa atraente loucura

sábado, 9 de junho de 2012



Saudade de receber você no início da noite alterado pelo seu verde tão natural, dos olhos e da planta. Que te fazia mais fora de si do que era de costume; sentava-se ao meu lado na varanda ou em praia deserta e conversávamos com música. De melodia em melodia: nossa paixão. E se eu quiser, ouso chamar de amor.
Amava te amar com meu corpo. Sentir o seu sobre o meu, seu respirar. Seu cheiro de planta queimada, seu hálito no meu, nosso calor. E nós alternávamos entre uma conversa e outra, um beijo e outro, uma música e outra, e palavras incompreensíveis, assuntos que não faziam sentido algum. Mas nós entendíamos e era a vida que eu quis. Procurando vaga uma hora aqui outra ali no vai e vem dos seus quadris. Ultrapassávamos a madrugada e ouvíamos o galo cantar.
Noite e dia, lingerie de renda preta. Noite e dia, pele branca. Noite e dia, o reflexo da lua no meu corpo. O som do galo a cantar, o mundo inteiro acordando; nós, porém, indo dormir.
Todo dia é dia, meu bem, e tudo em nome do amor!




Pro  Dia Nascer Feliz, Cazuza: música inspiração.

Para sempre sua.

sábado, 28 de abril de 2012

Amor, resolvi mandar todas as cartas que guardei por anos, e junto dessa, que será a última. Perdoe-me pela covardia de me esconder atrás de palavras que jamais pude pronunciar, atrás de atitudes e fatos que nos separaram e dividiram o amor que outrora foi tão único e ardente. Imagino que você esteja me odiando por nunca ter te procurado após aquele dia. Dia deplorável, me arrepio apenas de lembrar. Eu não queria ter dito nada daquilo, mas foi preciso. Eu sinceramente espero que você entenda, porque, bem, não tenho muito tempo. Tenho muitas lembranças suas, foram dois anos majestosos, dois anos que me salvaram a vida. Mas errei com você, pois fui injusta. Fiz o que jamais poderia ter sido feito. E sinto-me, por isso, a pior criminosa possível! A mulher mais indigna de ter o seu amor, e o tive, por isso aceito seu ódio. Devo aceitar. Não sei se para o meu crime existe perdão... O filho que eu estava esperando, era verdadeiramente seu. Aliás, hoje ele é um menino lindo, terça-feira completará cinco anos, (sinto um frio na espinha por imaginar esse dia que para mim será sempre tão distante), e ele anseia por te conhecer... Eu fiz tudo errado, me perdi nos meus medos. Mas nunca ousei te substituir, saiba que nosso filho só tem um pai, e é o destinatário dessa carta. Ele te admira, amor, assim como eu admiro. E ele te ama, sempre pergunta quando poderá te conhecer... E é por isso que busquei coragem e segurei minhas feridas para te escrever definitivamente. Como eu disse, não tenho muito tempo. Acho que você vai gostar de conhecer o seu príncipe. Não sei como está a sua vida agora, se existe alguém... Mas espero que não deixe nosso filho. Não por mim, mas por ele. E que me perdoe, eu sou indigna e injusta demais por ter afastado seu bebê de você. Por ter acabado, matado, massacrado o nosso amor da forma que fiz. E pior, por estar te contando por meio de uma carta! Eu gostaria de poder te encontrar, mas não quero que me veja da forma que estou... Acabada, envelhecida. Meus 27 anos retratam uma mulher bem mais velha, por causa de algo que nunca tive coragem de te contar. Eu deveria ter sido justa e não ter me envolvido com você. Mas me envolvi e só tive noção do que estava fazendo, quando já te amava. E quando você me pediu em casamento, percebi que eu não poderia fazer aquilo contigo. Eu tinha apenas mais um ano de vida. Minha gravidez era de risco. Mas os médicos erraram... Descobriram um tratamento novo e cá estou eu, após cinco anos, com nosso filho brincando no tapete da sala, te escrevendo mais uma carta - pra dessa vez ser enviada. Não tive coragem de te procurar para retirar tudo que eu havia dito e feito, mas tudo era mentira e foi mais fácil aceita-las como verdades... “O filho não era seu, eu tinha muita vida pela frente, eu não poderia me casar com você, e era favorável que você me esquecesse definitivamente ou, ao menos, que me deixasse em paz.” Após aquele dia, eu desejei morrer a cada manhã. Maldita doença! Nunca souberam ao certo o que era, mas souberam que eu não teria tempo. E bom, como eu já disse várias vezes aqui, hoje eu realmente não tenho. Meu estado de saúde realmente degradou. Toda noite tenho passado mal, meu filho tem ficado com minha mãe para não me ver assim. Hoje retornei do hospital, onde fiquei nos últimos dois dias. Voltei para a casa por não haver mais o que fazer, e se é para esperar a tão soberana morte, que eu a espere aqui, em casa, e que cumpra a missão de te dar ao menos uma vez, a chance de saber que foi amado. Verdadeiramente amado, com toda minha força, com toda minha vontade de viver. Que foi a esperança e a salvação que há muito não tive e que me deu o melhor presente que eu poderia ter, e a este dei o seu nome. Você me fez mãe, me fez mulher, realizou todos os meus sonhos de uma vez. Quis passar a vida comigo, mas eu fui cruel. Talvez mais cruel do que a minha própria doença, essa que me acaba com os dias, essa que me faz perder as noites de sono, essa que me arranca brutalmente a vida e o chão. E eu te dei adeus, mas minha vontade era de te abraçar comigo e não te deixar ir... Espero que você tenha uma família, e que nessa tenha espaço para o pequeno Samuel. Espero que você de alguma forma tenha boas lembranças minhas, eu jamais quis te magoar, embora tenha feito. Pedi para que minha mãe te entregasse as cartas quando eu não estivesse mais aqui, eu não suportaria encontrar você e olhar dentro dos seus olhos, e saber que seria a sua última lembrança minha. Então, se você a estiver lendo agora, quando se sentir pronto, pode ligar para o número dentro do envelope desta carta. É da minha mãe, e ela lhe apresentará o Samuel. Espero que você esteja pronto até terça feira, para que a tristeza dele ter me perdido seja substituída pelo ganho que será ter você. Bom, se você sentir meu cheiro ao cerrar os olhos, saiba que eu realmente estive aí, te abracei, e parti. Para além da vida, além de todos. E lembre-se, eu nunca deixei de te amar.

 Da eternamente sua, 
      Eduarda.

Ao túmulo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Hora errada, lugar errado. Alguns segundos e tudo estaria diferente.
Você veio até minha casa, onde me encontrou chorando. Perdida em minhas próprias idéias, nos meus medos, nas minhas falhas convicções. E você implorou mais uma vez pra eu não deixar as coisas daquele jeito, pediu perdão! E eu ignorei o amor latejante e fui orgulhosa. Uma briga feia. Um adeus. E você partiu... Seu carro acelerado, outro na contra mão bate em cheio em você, se eu tivesse menos orgulho e mais honra aos anos de amor, você estaria vivo comigo. Agora quem vive sou eu, mas vivo a sua morte todos os dias quando acordo.

Três anos, eu e você; dois anos, eu sem você. Eternamente te amarei.