Para sempre sua.

sábado, 28 de abril de 2012

Amor, resolvi mandar todas as cartas que guardei por anos, e junto dessa, que será a última. Perdoe-me pela covardia de me esconder atrás de palavras que jamais pude pronunciar, atrás de atitudes e fatos que nos separaram e dividiram o amor que outrora foi tão único e ardente. Imagino que você esteja me odiando por nunca ter te procurado após aquele dia. Dia deplorável, me arrepio apenas de lembrar. Eu não queria ter dito nada daquilo, mas foi preciso. Eu sinceramente espero que você entenda, porque, bem, não tenho muito tempo. Tenho muitas lembranças suas, foram dois anos majestosos, dois anos que me salvaram a vida. Mas errei com você, pois fui injusta. Fiz o que jamais poderia ter sido feito. E sinto-me, por isso, a pior criminosa possível! A mulher mais indigna de ter o seu amor, e o tive, por isso aceito seu ódio. Devo aceitar. Não sei se para o meu crime existe perdão... O filho que eu estava esperando, era verdadeiramente seu. Aliás, hoje ele é um menino lindo, terça-feira completará cinco anos, (sinto um frio na espinha por imaginar esse dia que para mim será sempre tão distante), e ele anseia por te conhecer... Eu fiz tudo errado, me perdi nos meus medos. Mas nunca ousei te substituir, saiba que nosso filho só tem um pai, e é o destinatário dessa carta. Ele te admira, amor, assim como eu admiro. E ele te ama, sempre pergunta quando poderá te conhecer... E é por isso que busquei coragem e segurei minhas feridas para te escrever definitivamente. Como eu disse, não tenho muito tempo. Acho que você vai gostar de conhecer o seu príncipe. Não sei como está a sua vida agora, se existe alguém... Mas espero que não deixe nosso filho. Não por mim, mas por ele. E que me perdoe, eu sou indigna e injusta demais por ter afastado seu bebê de você. Por ter acabado, matado, massacrado o nosso amor da forma que fiz. E pior, por estar te contando por meio de uma carta! Eu gostaria de poder te encontrar, mas não quero que me veja da forma que estou... Acabada, envelhecida. Meus 27 anos retratam uma mulher bem mais velha, por causa de algo que nunca tive coragem de te contar. Eu deveria ter sido justa e não ter me envolvido com você. Mas me envolvi e só tive noção do que estava fazendo, quando já te amava. E quando você me pediu em casamento, percebi que eu não poderia fazer aquilo contigo. Eu tinha apenas mais um ano de vida. Minha gravidez era de risco. Mas os médicos erraram... Descobriram um tratamento novo e cá estou eu, após cinco anos, com nosso filho brincando no tapete da sala, te escrevendo mais uma carta - pra dessa vez ser enviada. Não tive coragem de te procurar para retirar tudo que eu havia dito e feito, mas tudo era mentira e foi mais fácil aceita-las como verdades... “O filho não era seu, eu tinha muita vida pela frente, eu não poderia me casar com você, e era favorável que você me esquecesse definitivamente ou, ao menos, que me deixasse em paz.” Após aquele dia, eu desejei morrer a cada manhã. Maldita doença! Nunca souberam ao certo o que era, mas souberam que eu não teria tempo. E bom, como eu já disse várias vezes aqui, hoje eu realmente não tenho. Meu estado de saúde realmente degradou. Toda noite tenho passado mal, meu filho tem ficado com minha mãe para não me ver assim. Hoje retornei do hospital, onde fiquei nos últimos dois dias. Voltei para a casa por não haver mais o que fazer, e se é para esperar a tão soberana morte, que eu a espere aqui, em casa, e que cumpra a missão de te dar ao menos uma vez, a chance de saber que foi amado. Verdadeiramente amado, com toda minha força, com toda minha vontade de viver. Que foi a esperança e a salvação que há muito não tive e que me deu o melhor presente que eu poderia ter, e a este dei o seu nome. Você me fez mãe, me fez mulher, realizou todos os meus sonhos de uma vez. Quis passar a vida comigo, mas eu fui cruel. Talvez mais cruel do que a minha própria doença, essa que me acaba com os dias, essa que me faz perder as noites de sono, essa que me arranca brutalmente a vida e o chão. E eu te dei adeus, mas minha vontade era de te abraçar comigo e não te deixar ir... Espero que você tenha uma família, e que nessa tenha espaço para o pequeno Samuel. Espero que você de alguma forma tenha boas lembranças minhas, eu jamais quis te magoar, embora tenha feito. Pedi para que minha mãe te entregasse as cartas quando eu não estivesse mais aqui, eu não suportaria encontrar você e olhar dentro dos seus olhos, e saber que seria a sua última lembrança minha. Então, se você a estiver lendo agora, quando se sentir pronto, pode ligar para o número dentro do envelope desta carta. É da minha mãe, e ela lhe apresentará o Samuel. Espero que você esteja pronto até terça feira, para que a tristeza dele ter me perdido seja substituída pelo ganho que será ter você. Bom, se você sentir meu cheiro ao cerrar os olhos, saiba que eu realmente estive aí, te abracei, e parti. Para além da vida, além de todos. E lembre-se, eu nunca deixei de te amar.

 Da eternamente sua, 
      Eduarda.

1 comentários:

Ivana disse...

Extraordinário