O Infinito de Schrödinger
domingo, 30 de junho de 2019
Postado por Amelie às 01:55Só que você veio.
Novamente, VOCÊ veio.
Você me disse que eu podia te ligar a qualquer hora da madrugada.
Você ofereceu suas mãos para me guiar no escuro com as luzes totalmente apagadas... Céus, eu nunca provara tamanha insanidade antes! Eu te quis! Como quis!
Eu gostava de brincar com as estrelas.
Eu gostava da multidão.
Gostava dos risos...
... mas o que era tudo isso perto de fechar os olhos e imaginar seus braços estendidos à minha frente em uma imensidão escura e vazia?
Apenas você e eu.
Assustador. Desafiador. O suficiente pra deixar tudo de lado e confiar, permitir
Me entregar.
As luzes se apagaram.
O mundo se calou.
Estávamos a sós.
estendi a mão, toquei seus dedos, você estava lá.
Sabe bem o quanto sou desconfiada.
Dei os primeiros passos de olhos fechados em sua direção, tudo era tão vazio que só era possível ouvir o eco. Mudei de ideia.
" - Vem você primeiro! Se joga nos meus braços! Eu te pego!"
Pude ouvir você engolir a seco.
Fiquei parada. Esperei. Você ofegou. Demorou a se decidir, mas começou a andar. Você veio. Mais rápido. Um pouco mais rápido. Quando percebi, estava correndo. Estendi os braços e você se jogou neles.
Te segurei forte. Estava em êxtase. Você confiava em mim.
Permanecemos ali, por alguns instantes em silêncio sentindo o momento, o tremor do corpo, a adrenalina, o pulsar do peito, a respiração ofegante... mal sabíamos o que pensar. Eu queria te beijar, confesso.
Talvez você também quisesse. Preferi não arriscar.
Você foi chegando perto do meu rosto, meu coração desacelerou. Senti minha pele gelar. Internamente, implorei pra você parar (por não saber o que faria em seguida), embora meu corpo gritasse para que você continuasse e fosse intenso.
Seus lábios tocaram o canto da minha boca. Alguém te chamou e você sumiu. Pela primeira vez eu estava sozinha no meio do nada. Lá estava eu, confusa e sem saber onde estava, o que tinha feito e sem me dar conta de que já havia começado o meu caos: ali comecei a esquecer quem eu era.
Perdida, lembrei que ainda tinha o cheiro das árvores, da poluição dos carros e a companhia das estrelas no céu. Respirei fundo. Não consegui notar meu olfato. Algo estranho no meu nariz... eu estava para chorar? Olhei para o céu em busca das estrelas, queria convida-las para brincar.
O céu estava vazio. As lágrimas vieram e em pouco tempo tornaram-se incessantes.
Sentei-me ao chão, apoiei os cotovelos sobre os joelhos, debruçada e chorei como não chorava há muito tempo.
A imensidão ao meu redor havia se tornado uma compacta caixa preta. Sem muito espaço. Sem saída. Sem rastros seus. Eu estava ali, presa e em pânico.
Chorei até adormecer.
Acordei com meu celular vibrando, era você. Me chamou por um apelido carinhoso. Que houvera? E aquela voz que havia te levado pra longe? Onde estava? Subitamente, você apareceu ao meu lado dentro da caixinha e sentou-se comigo. Contou-me segredos. Eu ri quando você me falou sobre suas manias na época de escola. Você riu quando contei das roupas que eu costumava usar. Discutimos sobre metafísica. Falamos sobre buracos negros, sobre galáxias e vidas em outros planetas. Conversamos sobre viagem no tempo, sobre séries antigas, sobre comédias românticas e aquele show que todo mundo tinha ido, exceto a gente. Conversamos a madrugada toda e então você precisou ir, mas não chorei dessa vez. Você prometeu voltar no outro dia.
Tomei uns dois ou três comprimidos e esperei que o dia passasse. De qualquer forma, eu só precisava te ver outra vez.
Eu não percebia, mas aos poucos eu não notava mais a caixa, não notava a escuridão ou o isolamento. Eu não notava mais nada que não fosse você.
O tempo passou tão rápido e à medida que você sumia, eu descobria que não havia nenhuma luz aqui.
Tudo bem, você voltaria depois.
E quando partiu outra vez, percebi que também não sabia por onde você saía.
Não há janelas ou portas.
Não que eu possa ver.
Talvez só você saiba e me faça crer que até o oxigênio vem de você.
Mas tudo bem, porque você volta e então respirar será simplesmente imperceptível e automático.
Só não demora muito pra voltar, tá?
É que de um tempo pra cá as tuas idas são cada vez mais longas e a gente já não conversa
Não posso mais te falar das estrelas, como vou te falar delas se não as vejo há anos?
Não sinto mais você respirar do meu ar de quem conhece o infinito
Talvez por isso te vejo cada vez menos...
E como vou saber do infinito se tudo aqui é tão limitado? Nem do cheiro das árvores me lembro!
E notei agora, estou em dúvida
A caixa está ficando pequena?
Ou eu cresci?
Não tenho como saber...
Me diz você.
Ouro — Parte 2
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 23:00Ouro — parte I
sábado, 6 de abril de 2019
Postado por Amelie às 05:39[TW: Dependência química.]
-
— Sabe que não é assim que vai resolver isso. Você não vai encontrar nada, Hel, e não vai sair daqui. Conversa comigo. — Disse Janaína a Helena tentando esconder o tom angustiado e assustado por ver a amiga em tamanho surto.
Helena passou por Janaína como se não tivesse ouvido uma palavra. Tremula, voraz, quase em transe, seguia revirando os bolsos de todas as calças e casacos que encontrava em busca de alguns trocados, uma cópia das chaves ou quem sabe um celular. Um celular seria útil. Talvez alguém pudesse passar algo pela fresta da janela do banheiro, já que Janaína ficaria atenta à janela da cozinha. Mas era utopia demais acreditar que Janaína marcaria tamanha bobeira. Estava esperta desde a última overdose. Era cuidadosa em excesso. "O jeito seria esperar Janaína cair no sono ou ir em um daqueles encontros misteriosos dela e então dar uma escapada rápida, só mais um vez não faria tão mal" pensou Helena ao tirar três notas de vinte reais do bolso de uma velha camisa xadrez no fundo do armário, a qual mal lembrava da existência. Seus olhos brilharam ao contemplar as notas. Helena sentia o corpo doer e arrepiar constantemente. Três notas que naquele momento apareceram como vislumbre de um alívio imenso.
Instintivamente, saiu andando rumo a porta quando Janaína a segurou pelo braço.
— Enlouqueceu?!
— Jana, meu corpo tá doendo...
— Hel, a gente veio pra cá pra você ficar livre disso. Lembra há quanto tempo voce tá... qual é o termo? Limpa! E eu estou tão orgulhosa de você! A gente começou a deixar a porta da sala aberta durante o dia enquanto eu estou acordada, você pode fumar seus cigarros no jardim, pintar seus quadros lá fora, confiança, lembra?
— Eu sei, Jana, eu sei, olha... Eu tô vomitando, não aguento isso. Não tô conseguindo, ok? Meu corpo tá fodido e eu tô com calafrios o tempo todo e...
— E não importa, Helena Vincent! Você não vai sair daqui, você precisa ser forte. Você é forte e sabe disso.
— "Não importa"? Foi isso que eu ouvi? — indagou Helena, olhando fixamente Janaína nos olhos enquanto seu braço continuava preso.
— Hel, para com isso. Você entendeu o que eu quis dizer.
— Eu acho que você que não entende...
— Helena... Vem, vamo deitar, ver alguma coisa na TV assim no meio da tarde... — Janaína tentou arrastar Helena pelo braço.
— Janaína, tira a mão de mim. — Respondeu Helena, inesperadamente, ríspida, fria e distante.
Janaína engoliu seco. Não disse mais palavra alguma, apenas concedeu o pedido de Helena. Aproximou-se da porta e girou a chave cuidadosamente, devagar, enquanto observava Helena por cima do ombro.
Helena acendeu um cigarro ao abrir a garrafa de vinho que a família de Janaína guardara por gerações. Uma das poucas coisas que Janaína carregava do passado. Helena sabia, mas não parecia pensar. Não parecia ser a Helena. Era o mesmo corpo, o mesmo cabelo despontado no ombro recém tingido de preto. Os pés sobre outra cadeira. Fumava enquanto bebia no gargalo mesmo o vinho.
Janaína tentou conter as lágrimas, raramente chorava mas ver Helena não sendo Helena era suficiente para fazer seu coração transbordar. Rapidamente, escondeu-se no banho e permitiu que as lágrimas caíssem. Implacáveis.
Chorou pelo que acabara de acontecer.
Chorou por não entender o motivo de ter mantido aquela garrafa por todos esses anos.
Chorou por lembrar constantemente de seus pais nas ultimas noites.
Chorou por não entender mais o que estava acontecendo.
Janaína chorou por talvez nunca ter conseguido entender a si mesma e nunca ter se permitido transbordar daquela forma. E já nem sabia mais o que lavava seu rosto: se a água do chuveiro ou as tantas lágrimas incontroláveis. Soluçava.
Chorou por Helena.
Helena.
Não podia perder tanto tempo no banheiro. Quase uma hora havia se passado. Saiu enrolada na toalha com o rosto inchado torcendo pra que Helena não perguntasse nada naquele momento... E ela não perguntaria.
Helena estava dormindo na cama de Janaína abraçada com o pato de pelúcia que havia ganhado de Janaína há tantos anos atrás.
Uma última lágrima de alívio correu pelo rosto de Janaína. "Vai ficar tudo bem" "vai ficar tudo bem" a moça dos cabelos cor de ouro repetia mentalmente de forma incessante enquanto apertava os olhos, quase que como uma oração.
"Minha filha, até o ouro passa pelo fogo pra ser refinado." Janaína lembrou da frase que sua avó costumava dizer. Essa fase lhe queimava o peito.
Talvez fosse só fogo refinando o ouro.
Girassol
sábado, 16 de março de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 12:33Reencontro - parte II
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Postado por Amelie às 13:32TW: Esse texto não é indicado para pessoas sensíveis que sofrem com crises devido a traumas, pois o conteúdo pode servir como gatilho para novas crises intensas.
--
A lua chamava a atenção naquela noite cheia de estrelas e luzes nas ruas. Estava fora daquele quarto. Finalmente, mais perto de casa do que nunca... sem saber exatamente se ainda tinha um lar, se seria recebida, mas tudo bem, ainda tinha alguém la. Sem caronas dessa vez. Sem identidades falsas, não precisava ser a Clara aquela noite. Apenas Helena. A mesma fodida Helena de sempre.
Tinha gente à minha volta, bares e música. Risadas, conversas e pela primeira vez em muito tempo, não temi nada. Respirei fundo.
Liberdade.
Senti liberdade. Eu, Helena, a filha das estrelas caminhando coberta por elas.
Sorri de canto. Entrei em um bar. Hora da festa.
Sentei em uma mesa perto da janela, eu não queria deixar de olhar a movimentação, a noite, não queria pensar em mais nada além daquele momento. Pensei em pedir uma dose de uísque, lembrei que estava há muito tempo bebendo coisas amargas. Pedi um vinho. E outro. E outro. E outro.
Percebi que um rapaz do outro lado do bar me olhava e sorria de um jeito tímido. Ruivo. Cabelo comprido. Há quanto tempo eu não me permitia? Retribui o sorriso. Ele veio até mim.
— Está esperando alguém? Posso sentar? Não quero atrapalhar...
— Tudo bem, pode ficar — respondi,um pouco sem jeito — tô sozinha.
Ele sorriu da forma mais covarde que eu já vi alguém sorrir.
Começamos uma longa conversa sobre música, ele também tocava piano, ouvia Björk, criava lagartas e comentou sobre algumas tatuagens. Seu nome era Lucas.
— Desculpa a falta de atenção, Lucas, meu nome é Helena, igual o da minha mãe.
— Você tem o nome da sua mãe? Ela deve gostar disso.
— Na verdade eu nunca vou saber. Ela morreu quando nasci. Meu pai colocou o nome em mim como forma de homenagem, senão eu teria algum nome gringo como meus irmãos. Meu pai é inglês.
Engoli seco quando me dei conta de que havia contado parte da minha história pra um estranho... ou pra alguém que não fosse a Janaína. Lucas perguntou se eu estava bem ao notar meu longo silêncio. Eu pedi dois shots de tequila. Precisávamos apagar essa pequena parte da noite.
Os dois shots logo se tornaram seis. Lucas puxou a minha mão com empolgaação e me levou até um canto um pouco escondido do bar, virou um pino de cocaína sobre a mesa e separou em finas e longas carreiras. Olhei, estagnada.
— Ei, Helena, tá tudo bem. Vamos nos divertir. Dançar como se o amanhã não existisse. A lua está linda lá fora. Você está quase com sono. Não precisa ter medo.
A forma como Lucas falava era firme e confiante. Não hesitei mais. Senti minhas narinas e minha gengiva ficando dormentes. Achei a sensação engraçada. Meu coração batia mais rápido. De repente, eu tinha super poderes. Não tinha medo de absolutamente nada.
Lucas e eu saímos de fininho do bar sem pagar a conta.
Corremos pela rua como duas crianças, rindo, atravessamos uma avenida, paramos perto de outros bares, um estacionamento e um pequeno beco. Gargalhamos. Ele deu um leve toque no meu ombro exclamando "HELENA NÃO ME PEGAAAAA!" E correu em direção ao beco.
Eu ri.
— Lucas, esqueci de perguntar a sua idade, mas presumo que não tenha mais de doze, acertei?
Ele não respondeu. Estava levando a sério a brincadeira, talvez. Comecei a procurar. Não havia luz no beco. Belo esconderijo.
Fui surpreendida por alguém me encostando na parede.
— Te peguei!
— Caralho, Lucas, que susto!
Ele acariciou meu rosto. Nos beijamos. Ele me beijava intensamente, juntava o corpo dele ao meu, cada vez mais. Suas mãos exploravam minha pele, ele descia os lábios pelo meu rosto, queixo, pescoço... Abri os olhos. Senti meu coração subindo pela garganta. Eu não estava mais confortável.
— Lucas... Ei... acho que não vai rolar.
Ele continuava, segurou meu corpo com mais força, colocou as mãos por debaixo da minha blusa. Tentei falar de novo.
— Lucas, para! EU NÃO QUERO, ME SOLTA!
Ele colocou a mão no bolso, foi até o meu ouvido e disse baixinho "Helena, querida, não corta o clima." Senti algo frio se aproximando do meu pescoço. Era o canivete que Lucas havia tirado do bolso.
Meus lábios ficaram mudos.
Meu corpo ficou estático.
Minhas blusa, rasgada.
"Hora da morte" pensei. É claro que o vislumbre de alegria plena não me cabia também. É claro que isso teria um preço alto. Que ilusão estúpida acreditar que eu sairia ilesa disso! A felicidade era para os bons e eu nunca, nem de longe fui boa ou coisa parecida. Nunca sequer vali a pena. Lucas rasgava minhas roupas e a lâmina fazia pequenos cortes em meu corpo enquanto eu pensava que se talvez eu não tivesse vindo ao mundo, minha mãe estaria viva, meu pai fosse um homem melhor, Lilian estaria com alguém que realmente a amaria sem se entupir de antidepressivos. Minha existência era um erro que deveria ser corrigido. Ou que toda essa desgraça fosse punição do Universo pelo meu impulso interno de sobreviver. Estúpida Helena. Maldita Helena.
O tempo parou.
Vi duas mulheres saindo de um bar longe indo na direção do estacionamento que era próximo ao beco. Não sei explicar, mas isso me destravou, ao menos parcialmente.
— Lucas... Me ouve. Isso vai ser melhor se você souber o que eu sei fazer... — tentei forjar um tom safado com o resto de coragem que ainda tinha em mim.
Ele me soltou aos poucos, fui até ele, até o pescoço dele. Explorei os pontos fracos. Não era tão difícil descobrir. Por dentro, eu estava quebrada, ele porém, estava entregue. Entregue o bastante pra deixar as mãos frouxas. Imbecil. Peguei o canivete rápido e quando ele esperava o "gran finalle", cravei o canivete em sua coxa e corri. Corri como nunca antes. Corri em direção àquele estacionamento. Corri enquanto as lágrimas mal me deixavam enxergar. Minha visão turva só me permitiu ver um carro de porta aberta com duas mulheres. Saltei pra dentro gritando:
— LIGUEM O CARRO, FUJAM, RÁPIDO, POR FAVOR, AQUI NÃO É SEGURO! Rápido... Por... favor...
Notei minha voz perdendo força.
Meu corpo também.
-
Meu corpo balançava e meus joelhos ardiam. Eu ainda estava de olhos fechados, não podia estar em uma ambulância outra vez. Estaria deitada, mas não estava. Claramente eu estava sentava em algum carro, um cinto me prendia. Tive medo de abrir os olhos e notar a figura que estaria ao meu lado.
Havia tido um sonho estranho do qual me lembrava vagamente, mas acho que sonhei com... Puta merda, que dor de cabeça! Respirei fundo. Senti um perfume familiar. Muito familiar. Respirei fundo novamente tentando esticar o corpo levemente quando ouvi a voz mais suave que eu poderia ouvir naquele momento:
— Helena?
Não. Impossível.
— Helena? Ei, não consegue mais falar? Puta merda, devia ter te levado em algum hospital.
Virei o rosto pro lado da janela. Não podia acreditar.
— Jana, você tem isqueiro aí?
— VAI SE FODER, HELENA, VOCÊ SOME POR MAIS DE UM ANO, DESMAIA TODA MACHUCADA NO MEU CARRO DO NADA E A PRIMEIRA COISA QUE ME PEDE É UM ISQUEIRO?
— Também senti sua falta, Jana. — Disse enquanto explorava o porta-luvas. — Eight? Sério? Desde quando você fuma? Pelo menos achei um isqueiro. — Debochei ao acender um Carlton.
— Eu não fumo, você sabe. Isso é da Lob...Helena, você não deveria fumar no meu carro. Para de mudar de assunto, Hel, o que aconteceu? Porra, você sumiu sem sequer dar certeza se voltaria e eu não desacreditei, não deixei de esperar por isso um único dia. Você estava assustada, machucada e ainda tá suja de sangue. Dá pra falar?
— Jana... Eu... Eu não sei, eu acho que... — as palavras não saíam, não importa o quanto eu tentasse. Tudo estava ali. As marcas, as dores. Lembranças correndo tão rápido a ponto de me deixar tonta, mas algo maior estourava no peito. Algo que transbordava. Um longo choro veio. Choro seguido de soluços. Incontrolável em meio a dezenas de pedidos de desculpa.
— Ei, minha pequena, tudo bem. Tudo bem. — Janaina segurou minha mão, sua mão esquerda permanecia no volante — Eu te encontrei. Você me encontrou. Vou te proteger. Estamos juntas agora. Vamos ter tempo. Não vou mais te soltar. Nunca mais. Eu nunca mais vou soltar a sua mão. — Jana deixou cair alguma lagrimas enquanto me olhava daquela forma tão terna, sorrindo. — Eu te amo, Helena Vincent.
Sorri entre as lagrimas e apertei com força a mão de Janaína.
Estávamos na estrada e ainda longe bem de casa, mas eu sabia: já tinha encontrado meu lar.
Loba
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
Postado por ~ Lu ~ às 22:12Reencontro
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
Postado por Amelie às 05:21TW: transtorno de estresse pós traumático. A leitura desse conto não é recomendada caso você tenha vivido um trauma recente. A escolha entretanto fica a seu caráter. Os escritores não se responsabilizam pelo conteúdo uma vez que há aviso prévio. Em caso de TEPT, procure ajuda!
—
Trocava de canal: futebol. Foda-se. Meu pai conseguiu desenvolver em mim verdadeira repulsa por canais de esportes e esses comentaristas babacas. Além do público que não é lá muito imprevisível: aqueles caras que tem todo um estoque de cerveja na geladeira e se limita a coçar as bolas no sofá da sala enquanto a esposa revira páginas de pesquisa na internet com a busca "como agradar o marido". Tsc. Deprimente. Lembrava tanto meu pai e Lilian. Ele era um bom marido até certo ponto, mas quando decidi ir embora, por mais que Lilian não conseguisse disfarçar seu repúdio por mim, era visível o quão depressiva ela estava. As gavetas tinham caixas e caixas e prozac, exodus, sertralina... o que mais ela tentaria pra levantar o ânimo? Cheguei a ouvir sem querer ela chorar no telefone dizendo que se sentia um lixo. Nem auto-estima a mulher tinha mais. Será os filhos? Peter já tinha quase dez anos... mas Mik? Sequer tinha completado um ano quando parti. O corpo de Lilian mudou depois do nascimento do Mik, mas... Não. Meu pai ainda era um inglês. Não se deixaria levar por tamanha futilidade. Ou sim? Não seria improvável se tratando de um Stewart. Merda. Minha cabeça outra vez estava a mil. Outra vez mudei de canal. E de novo. E de novo. Nem olhei pra tela, agora minha mente estava presa em Mik, meu caçula. Lembrei da última vez em que fiquei naquela casa e tentei ver como um lar. Estava tocando piano, Mikael puxava a barra da minha calça tentando escalar, ele gostava de pressionar as teclas, espacialmente as pretas. Peter era um garoto magrelo, extremamente branco como eu, tinha até umas olheiras. Cabelos lisos negros, ou quase. Era calado. Lia Edgar A. Poe e Goethe, como eu. Ao contrário, não comentava. Peter parecia aquelas crianças que haviam sofrido um trauma e ficaram mentalmente sequeladas. Porra, eu não devia ter rido disso. Ainda tem vinho no frigobar? Em todo esse tempo eu não pensei nem por um minuto neles. Exceto no olhar de Mik. O olhar dele é diferente de tudo. Mik não é como meu pai, nem como Lilian ou Peter. Não conheci minha mãe para comparar. Já Mik... tem os cabelos loiros em um tom que quase lembram fogo e seus olhos acompanham a cor do cabelo. Seu olhar queima tudo o que ele olha. Atravessa tudo. É como se ele visse através da pele, através do tempo e das circunstâncias. Tão pequeno e tão conectado a mim.
A TV estava de fato entediante tanto como aquele lugar — que convenhamos, em muito tempo era o mais limpo, tranquilo, seguro e decente que já estivera. Ao menos tinha certeza de já não estar mais tão longe de tudo.
Definitivamente, é hora de descer desse quarto e beber, sair de mim. Minha cabeça permanecia sobrecarregada.
Levantei da cama, calcei os velhos coturnos que não me acompanhavam há pouco tempo e vesti a jaqueta jeans que fugiu comigo e permaneceu comigo e possui tantos rasgos e marcas quanto eu. Marcas. Meu olhar ficou perdido por alguns segundos, tenho certeza disso, minha mente voou. Senti meu corpo sendo arremessado ao chão. Senti peso sobre mim. Senti cheiro de mato, de suor, de álcool, meu corpo doeu novamente. Estremeci. Apertei os olhos com força, deixei uma lágrima cair. Lembrei daquela mão áspera em direção ao meu rosto... meu celular sinalizou uma nova mensagem. Abri os olhos, respirei fundo. Malditas crises estranhas, outra vez! Olhei para o celular enquanto minhas mãos ainda estavam trêmulas. Era Janaina. Acendi um cigarro. "Helena Vicent Stewart, onde caralhos está você?" Eu vou ligar pra ela. Eu juro. Mas antes eu vou esquecer tudo o que vivi. Antes deixarei Clara perdida dentro de alguma garrafa ou algum cobertor. Antes reencontrarei Helena.






