Mãe;

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sinto falta de poder correr pro teu colo. Não há mais ninguém aqui além de mim. Não há para onde correr, não há lugar para onde eu possa fugir. É a velha história dos pensamentos repetitivos de pessoas dizendo: "Encare os problemas de frente." Que problemas? É só confusão e cansaço mental. Talvez realmente exista algum problema, mas não consigo encontrar agora. O som da chuva lá fora me faz querer ver as gotas na janela. Está confortável aqui, cobertores são sempre o melhor abrigo quando se quer ir embora. É bom sentir-se abrigado no frio, deve ser essa a sensação que eu tinha enquanto dormia no teu útero. É legal andar na rua e ver as pessoas andando quando faz muito frio, enquanto elas conversam, sai fumaça da boca delas. Você lembra, mãe? Eu sempre ria disso. Quando eu era pequena gostava de fazer isso, era a minha forma de ver se estava realmente frio. Eu abria a boca, se saísse fumaça estava frio. Eu ficava correndo pela casa usando meias e até esquecia que existiam sapatos. Eu odiava tênis, sandálias ou sapatos, gostava de me sentir livre, sempre gostei. Aí ficava andando de meias... Até você gritar: "TIRA ESSES PÉS DO CHÃO GELADO!" Se fosse agora eu usaria aquela frase básica que te deixaria irritada: "Mas se eu tirar os pés do chão, vou cair!" Ahh mãe! Herdei a sua ironia. Era só correr pro sofá, melhor ficar presa no sofá por horas assistindo o desenho do elefantinho do que ter que usar tênis. Argh! Sensação maldita de que meus pés estavam amarrados. Será que toda criança dos anos 90 usou allstar? É tão típico, todo mundo tinha um. Na escolinha, as mães amarravam o cadarço em volta do tornozelo das crianças, era engraçado. Eu não entendia o motivo disso, acho que era pro tênis não sair do pé, já que criança gosta de fazer estrepolias. Eu sempre gostei - sempre precisei -  ser livre, por isso eu ficava observando os passarinhos no jardim quando tinha quatro anos. Mãe, você se lembra quando eu olhava pra gaiola do passarinho que tinha em casa e ficava triste? É porque era ruim imaginar os outros pássaros voando livres pelo céu, as vezes vários juntos, e o pobre do passarinho da gaiola estava ali, sozinho, preso. Eu tinha só quatro anos, todo o meu mundo era limitado à uma casa, um quintal, uma árvore com balanço e um pequeno jardim. E agora, olha pra mim! As coisas começaram a mudar. O meu rosto no espelho não é mais o mesmo, minha maior alegria não é mais ir até o parque e conversar com outras crianças, porque hoje as crianças cresceram e elas aprenderam a ser indiferentes. Eu aprendi a sentir... na verdade, eu desaprendi. Hoje eu tenho motivos maiores pra chorar do que quando você me dava bronca por espalhar brinquedos pela casa ou por brincar com as suas roupas. Hoje você já não pode me pegar no colo quando eu sinto aquela dor presa na garganta... porque as vezes eu mal consigo falar sobre os motivos. Por que a gente fica tão bobo quando cresce, mãe? Eu sempre te ouvi dizer: "As pessoas crescem e ficam bobas." Você tinha razão. E eu só percebo que o tempo passou quando eu vejo o frio me trazer lembranças, e essas lembranças me trazerem lágrimas. A gente cria asas com o tempo, tenta voar, e um dia as asas quebram. A graça se perde também.
Mãe, quando eu te olhar e você ver tristeza em mim, não me pergunte o motivo, porque eu não vou te preocupar com as minhas dores. Apenas me abrace. Me faça sentir segura de novo. Apenas diga que está tudo bem. No fim, vai ficar tudo bem mesmo.

2 comentários:

Jéssica disse...

Tem um nó na minha garganta.

Thata B. disse...

Eu fico com um na minha também toda vez que vejo...