Grito Silencioso

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Era noite, mais uma noite fria e escura. Eu andava com mais três amigos maconheiros de longa data. Passavamos em frente a casas grandes e elegantes com muro baixo. Pensei por uns instantes que era arriscado andar fumando maconha por lá, devia ter ronda policial o tempo todo. Meus amigos riam, Mike já estava bêbado, em uma brincadeira boba de jogar um isqueiro para o Rafa, acabou deixando o isqueiro cair dentro de uma das casas grandes. Quem reclamou foi o Derick, que era dono daquela porcariazinha que segundo ele, custava mais de trezentos reais. Os três discutiam enquanto eu permanecia em silêncio com as mãos nos bolsos da blusa. Era assim que eu curtia as minhas brisas, em silêncio.
Como um isqueiro podia ser tão caro? Era bonitinho, parecia uma miniatura de pistola. Tinha o nome de alguma marca gravada em ouro no cano. Quando se "puxava" o gatilho o fogo aparecia. Era possível também regular a intensidade do fogo ou usar o isqueiro como lanterna. Ainda assim achei que 300 reais era muito dinheiro.
 Derick começou a choramingar e discutir com com o Mike. Rafa não sabia de que lado ficar. Não demorou pra virar uma confusão. Nenhum dos três queria pular na casa e recuperar o tal isqueiro caro. Decidi fazer esse favor ao caçula do grupo. Respirei fundo e olhei para a casa, o muro não era tão baixo. Não entendi como Mike poderia ter deixado algo cair lá dentro sem ter a intenção de fazer isso. Bem, o muro alto não seria problema. Sempre fui acostumada a escalar muros, subir em árvores e lugares altos. Por sorte havia uma árvore na calçada cujos galhos davam acesso ao jardim da casa. Planejei rapidamente como faria, tomei fôlego e subi na árvore. Quando estava na ponta de um galho, a vista da casa me assustou. O jardim era enorme. A casa era grande, mas parecia morta. Havia uma espécie de córrego no jardim, justamente onde imaginei que o isqueiro havia caído. O corrego era um declive que levava a uma portela que deveria ser o porão. Droga, a porcaria do isqueiro deve ter escorregado por lá. A luz do porão estava acesa, estranho. Se houvesse alguém na casa, no mínimo chamariam a polícia. Eu não estava mais com drogas e nem pretendia roubar, talvez passasse a noite na cadeia, tanto faz. Saltei no jardim. A queda foi um tanto alta. Procurei o isqueiro pelo jardim, A iluminação era péssima. Não estava lá. Olhei para o córrego, logo fui até a portinhola do porão, as luzes apagaram. 
Sinto como se tivesse tido um lapso de memória naquele momento, não sei o que aconteceu, quando me dei conta já estava no meio do porão que não era bem um porão. Tinha cara de piso subterrâneo de fábrica. Tinha cheiro de açougue. Estar lá me causava arrepios. Não era hora pra ser covarde, eu precisava ir embora rápido. Passar a noite na cadeia pela segunda vez na semana não era uma boa ideia.
Levantei e dei alguns passos por aquele lugar, mal conseguia me concentrar no motivo de estar lá. Odiei o Mike, o Derick e até o Rafa por alguns segundos. Eles deveriam ser homens o suficiente pra ir atrás daquela porcaria.
 Tropecei em algo, caí. Inclinei a cabeça tentado saber no que tinha tropeçado. Antes que eu olhasse, ouvi uma voz macia e levemente infantil:
- Oi!
Arrepiei. Era uma garota, certamente. Já imaginei a polícia chegando e fazendo varias perguntas. O Derick era menor de idade. Céus, eu não devia ter entrado lá! Tentei me explicar:
"- Oi! É... Ãn... Olha, não é o que você está pensando, eu não vim aqui roubar nada. Um amigo deixou um objeto cair aqui e só vim procurar mas já estou indo embora." - Apoiei as mãos no chão para levantar, olhei para trás. Era uma garota. Ela estava sentada com os braços em volta dos joelhos me olhando com um sorriso fraternal. Seus cabelos eram curtos, seguiam o nível do rosto. Loiros e extremamente lisos. Ela era tão branca e magra que chegava a assustar. Usava uma regata cinza grande e suja e um short com bolsos rasgados que ficava largo nela. Aquelas roupas eram velhas. Não entendi por quê uma garota que morava em uma casa tão grande usaria roupas tão velhas. Que seja, eu precisava ir embora. Me levantei pedindo desculpas e dizendo que estava de saída, ela me interrompeu segurando a barra da minha calça enquanto eu passava por ela. Que gesto infantil! Quantos anos ela teria? Doze? Treze talvez?
- Tudo bem, você não precisa ir embora agora. - ela mostrou um sorriso amarelo com um olhar de quem implora por atenção. - Eu não vou chamar ninguém. Fica aqui. - Ela puxou a barra da minha calça com mais força. A situação começou a me deixar nervosa. Quando eu olhava para ela, sentia pena. Que diabos estava acontecendo ali?
- Olha... Eu preciso ir embora. Não posso ficar, nem sei o que você faz aqui embaixo... Garota.
- Sally. Meu nome é Sally. - Ela me corrigiu sorrindo. - Eu vou te contar. Não vá agora. Eu estou presa aqui. Não tenho como sair. - Chequei o "porão", havia várias portas, antes que eu questionasse, ela prosseguiu - Não posso sair daqui porque estou morta.
Eu ri alto e histericamente naquele momento. Que piada mais estúpida! As crianças de hoje devem assistir filmes demais. Quando me coloquei de pé, a portela que dava acesso a saída se fechou, assim, sozinha. Tremi. Já era loucura demais pra mim. O som da porta se fechando cortou o meu riso instantaneamente. Aquela droga devia ser mais forte do que eu imaginei. Jurei a mim mesma que não fumaria maconha por um bom tempo depois daquilo. Tentei me convencer de que era só uma badtrip e que logo iria passar. A menina puxou meu braço e me disse pra ficar quieta, caí sentada ao lado dela. Ouvi a voz de um homem.
- Sally! Sally, venha aqui querida. Não faça assim com o papai. Esqueceu que eu cuido de você e da sua irmã? Nós três somos uma família. Apareça. Sally!
Olhei para Sally. Ela estava encolhida do meu lado, apertando o meu braço e tremendo. Tentei puxar o braço enquanto falei baixinho:
- Ei, o seu pai vai chamar a polícia, eu preciso sair daqui!
- ELE NÃO É O MEU PAI! - Ela gritou. Fiquei pálida, olhei na direção do homem. Ele não ouviu. Como assim? Sally continuou
- Era meu padrasto. Pai da minha irmã mais nova. Ele matou a minha mãe pra ficar com isso tudo pra ele.
- O-o quê?! - gaguejei em choque - e por que você não chamou a polícia? Porque não conta a alguém?
- Estou contando pra você agora. Shhh! Presta atenção. - Ela colocou o indicador sobre meus lábios, em seguida apontando para o padrasto.
- Sally! Aí está você, sua travessa! - Não pude acreditar no que meus olhos viam. Era a Sally se aproximando do padrasto que a puxou pelo braço até uma das salas. Ela estava do meu lado, mas eu a via ali, a minha frente. - Você está no meu campo de memórias, por isso está vendo o que vivi - Ela justificou.
As cenas seguintes me matavam por dentro. O tal homem sentou-se em uma cadeira. Sally ajoelhou-se diante dele. Não. Eu não podia ver mais. A voz dele me dava nojo. - Faça isso direito dessa vez, sua pequena vadia! - Abracei Sally. Gritei um palavrão. O homem inclinou a cabeça e empurrou Sally enquanto subia as calças com a outra mão. Ela caiu, bateu a testa de uma forma que deixou um rastro de sangue na parede. O padrasto de Sally parecia furioso. Pegou um alicate e saiu atrás da menina. No instante em que gritei, tudo sumiu.
- Você imagina o que aconteceu depois, não é? - Sally perguntou me encarando conformada.
- Esse filho da puta te bateu? Foi assim que você morreu? - Eu percebi que meu rosto estava molhado.
- Não. - Ela deu um sorriso triste de canto. - Eu bem que gostaria de ter morrido aí, mas tinha 14 anos. Morri no meu aniversario de quinze anos. Desde então todos os dias é meu aniversario. O tempo nunca mais passou. Ninguém nunca ouviu meus gritos. Ele arrancou algum dos meus dentes. Disse que "atrapalhava o serviço".
Será que ela conseguia ouvir as palavras que saíam da própria boca? Senti vontade de vomitar. As coisas à minha volta foram escurecendo, minhas mãos e pés formigaram.
- Você está bem? - Sally me olhou com os olhos arregalados tocando o meu rosto.
- Se você está morta, por quê eu consigo te ver, te tocar e assistir tuas lembranças? - Jurei que fosse desmaiar ali.
- Você entrou no território de uma alma que morreu em segredo. Que carregou sozinha tanta dor sem nunca contar a ninguém. Que não tem quem pensou sequer em fazer justiça por ela.
Eu estava tonta demais pra discordar. Já tinha aceitado o fato de ter exagerado nas drogas. Eu só queria que passasse. Perguntei o que imaginei que fosse me tirar dali.
- Sally... Como você morreu?
Outra vez. Vi o maldito do homem jogar Sally no chão do porão enquanto alguma criança chorava ao fundo. Sally gritou. Ele rasgou as roupas dela. Ele a violentou. Em dado momento ela parou de gritar e apenas esperou que acabasse. Havia sangue no chão. Quando ele terminou, puxou Sally, nua mesmo. Pediu que fosse buscar álcool. Quando ela trouxe, ele deu uma bofetada em seu rosto que a fez cair em cima de suas roupas. Jogou álcool sobre ela e por todo aquele lugar...  Então acendeu um fósforo. Me senti no inferno. Sally segurou minha mão e disse "obrigada por ter me ouvido, já posso ir em paz." O espírito dela que estava ali comigo sumiu. Tudo o que restou foram as chamas e a fumaça que me sufocava enquanto eu gritava e chorava.
Acordei, minha roupa e meu travesseiro estavam molhados. Agradeci por ter sido um pesadelo. Chorei cerca de dez minutos. Coloquei os pés para fora da cama e pisei em algo. Era o isqueiro do Derick.



Por Annelouise Amelie

à Astronauta de Mármore

sábado, 6 de julho de 2013

Olá, minha filha, espero que esta lhe encontre bem.

Quero que saiba que, apesar da demora em lhe encontrar, eu acabei conseguindo. Sei que fez muitas coisas erradas, sei que pesam algumas pendencias legais sobre você nesse momento, mas quero que saiba que, tanto eu quanto seu pai e sua irmã estamos do seu lado aconteça o que acontecer. Demoramos muito para te achar na rua. Foi demorado justamente porque as ruas estão cheias, são perigosas, mas felizmente te encontramos e agora fazem dois meses que obtivemos a vaga na clinica de recuperação. Os medicos dizem que é dificil dar qualquer parecer... mas tenho fé de que logo estaremos todos juntos comendo aquela lasanha que sei que adora. Sei que logo estaremos todos juntos novamente.

Sobre seus pecados... sei que Deus já te perdoou assim como eu perdoei. Não era culpa sua. Era culpa daquela porcaria que te deram. Deve estar pensando como te achamos não é? Suas cartas foram um alivio para mim, apesar das confissões que fazia nelas eu sabia que lá dentro daquele ser, daquela pessoa destruída por fora ainda vivia minha menina, minha Carolina, minha Carol, minha menina de cachinhos rebeldes. Baseamos nossa busca naquele rapaz que comentou, Téo. A familia dele também o procurava havia algum tempo. Viu minha filha? A menor das esperanças, a mais pequena luz que suas cartas escritas em letra tremida, em um pedaço de papel ordinário salvou duas pessoas. Você e o Téo, que a familia tratou de levar para uma clinica em Minas, que é de onde são os pais dele.

Enfim... esperamos que, depois de concluído seu tratamento possamos todos nos reunirmos. Eu, você, seu pai, sua irmã, o pai, a tia e o proprio Téo para comermos aquela lasanha que sei que vai me ajudar a fazer. Sei que vai.

Beijos minha filha, lhe esperamos ansiosos!

Fica com Deus, se cuida, nós te amamos muito.

Vento da Mudança

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ele: Hoje pela manhã dei um beijo nela enquanto ela ainda dormia, peguei as chaves do carro e segui para o trabalho. O trânsito não facilitava o trajeto, como esperado. Era cedo, mas você deve saber como as grandes metrópoles funcionam: as avenidas podem parar a qualquer momento. E ali, entre aquele mar de carros, comecei a lembrar de quando a conheci. Permiti que a minha mente regressasse no tempo. Fizemos tantos planos! Eu era um rebelde-quase-totalmente-irresponsável, e acredito que ela ainda me olhe dessa forma, mas a verdade não é bem essa. Ela me mudou, me fez crescer. E eu ainda custo a entender como ela que é tão fina consegue aturar um moleque maltrapilho feito eu. Ela sempre foi tudo o que eu nunca soube ser, ela era completa, eu era só um cara que tocava bateria em uma banda. Quase fomos expulsos do prédio dois meses depois de ter alugado o apartamento. Foi ela quem resolveu os problemas com o síndico e se desculpou pelo barulho de música alta que toda noite incomodava os vizinhos. Eu nunca disse, mas eu sempre gostei de contrariar o que ela fala porque adoro as expressões e argumentos dela. Adoro ver a forma como ela levanta a sobrancelha esquerda e aperta o lábio antes de começar aqueles longos discursos cheios de palavras difíceis. Será que ela me via como mais um dos alunos que ela tinha que pôr na linha? Eu nunca vou saber. Como pode uma mulher tão linda ser tão inteligente? Se um dia tivéssemos uma filha, eu gostaria que fosse como ela é. 


Ela: Eu acordava com o beijo suave dele todos os dias de manhã. Sempre via o relógio e imaginava se ele não podia ter um emprego mais perto de casa. Embora ele não tivesse que esperar ônibus, metrô nem nada a vida não era tão simples. Ouvi ele tomar o café e sair. Ainda tinha mais alguns minutos antes de levantar e me arrumar para sair para o colégio. Uma onda de nostalgia me invadiu, ele era um rebelde, desses que saem berrando pela rua altas horas da madrugada apenas para acordar todos. Ainda o via como um menino, apesar do tempo que estávamos juntos. Pouco mais de dois anos. Suspirei tendo meus devaneios rompidos pelo despertador. Coragem, só falta oito aulas. Me levantei, o dia passava no automático. Na hora do almoço chequei se havia trazido o pedido de exame. A tarde colocaria uma pedra sobre essa dúvida que me assolava tanto e me deixava com o sono curto. O dia voou, estava com o envelope em minhas mãos. Abro aqui? Minhas pernas me guiaram até o ponto de ônibus. Não abriria nada dentro do ônibus de volta para casa, não bastasse segurar minha já bem pesada bolsa cheia de livros e provas para corrigir, ainda teria que segurar a outra bolsa e abrir um envelope. Só se eu fosse um octópode e, definitivamente, não era o caso. Ao chegar em casa tudo estava sereno, calmo, como eu havia deixado quando saí de manhã. Ignorei todo o trabalho doméstico para dar atenção àquele envelope. O abri checando meu nome, diversos termos técnicos, nome de médico, do exame, das probabilidades e da exatidão do mesmo. Quanto desperdício de papel. Somente na terceira folha é que o resultado se mostrava óbvio para o paciente. Não contive o riso, o choro, euforia, eu estava tão feliz que se explodisse minha felicidade inundaria não só esse cômodo como o planeta, o universo, a criação inteira. Em letras maiúsculas um único adjetivo após a palavra "Grávida".


Ele: - A luz verde do semáforo acendeu e as centenas de máquinas que me rodeavam saíram a minha frente. Deixei o carro morrer quando tive meus pensamentos interrompidos pelo som de uma nova SMS no celular. Era ela. Queria conversar. O que seria dessa vez? Mais reclamações do síndico? Havia muito tempo que eu não escutava música em um volume muito alto. Talvez o problema agora fosse os meus amigos. Ela nunca gostou muito deles, reconheço que os caras eram folgados e tinham mania de descer no elevador completamente bêbados mexendo com as senhoras idosas. Tentei me preparar para a bronca, dei partida novamente no carro e segui até o trabalho, o dia parecia inacabável. 


Ela: Olhei o relógio, ainda faltavam algumas horas para que ele viesse. Como eu contaria a notícia? Ele sempre foi irresponsável, desde os tempos que eu fazia faculdade até alguns meses atrás. Ele era um rebelde. Incontestavelmente rebelde e, talvez fosse por esse jeito - como dizia a minha mãe - um pouco "punk" que eu tenha me encantado. Maldita mania de contrariar tudo. Qual graça ele via nisso? De qualquer forma, o que realmente me preocupava era a dúvida: como ele se sentiria ao descobrir que seria pai? Todas as vezes que eu mencionava o assunto "filhos", ele torcia o nariz e mudava de assunto. Bem, havia um ser dentro de mim e eu não era a única responsável por isso. Ele tinha que saber o mais rápido possível. Como as mocinhas de novela contavam? Deixavam o mocinho saber, eles se abraçavam, choravam juntos e viviam felizes para sempre, era, normalmente o fim da novela. O mesmo vale para livros, filmes... Toda a história da literatura a descoberta - ou revelação - de uma gravidez era o fim do livro, que era o clássico "felizes para sempre". Porém quando era antes disso, sempre era um revés para a mocinha, que acabava ou expulsa de casa ou sofria tudo sozinha... Terrível. Mandei uma SMS dizendo que precisávamos conversar. Não tínhamos brigas haviam alguns meses, então a resposta dele foi como eu esperava "o quê aconteceu?". Chequei na minha bolsa, resolvi dar um pulo no mercado e fazer um belo de um jantar. E, enquanto as panelas expulsavam vapores me benzi, orei, fiz promessas... Essas coisas de menina que foi criada com mãe católica fervorosa. Tomei um banho. Deixei o envelope sobre a mesa, somente com a última folha, onde o resultado era óbvio. Deixei para entregar durante a sobremesa. Isso. Assim que ele chegou o encaminhei ao banho e servi a mesa. O coração veio a boca. E se eu sumisse com o envelope? Não. Sem covardice agora. Eu seria a primeira mocinha a sobreviver a uma gravidez no meio do livro e seguiria firme até o felizes para sempre.


Ele: Quando abri a porta do apartamento, joguei as chaves sobre a mesa e tirei aquele terno horrível que me obrigavam a usar. Soltei os cabelos, me recusava a corta-los, não existia empresa capaz de me fazer mudar o ponto de vista. Tomei um banho rápido e corri para a mesa, faminto e curioso, esperando pelo quê ela teria a dizer. Sequer cogitei a hipótese de perguntar a ela como fora o seu dia. Estava certo de que ela brigaria comigo e me diria que já é momento de crescer. Sentei a mesa, ela parecia nervosa, inquieta, eu diria. Nunca a tinha visto daquela forma. Será que era grave? Eu tentava perguntar algo e ela ficava calada. Engoli a comida sem nem saborear, pra ser honesto, nem lembro o que comemos. Só lembro das mãos dela completamente trêmulas vindo em minha direção, segurando um envelope. Respirei fundo. 


Ela: Nos sentamos para cear. Jantamos, ele ficou curioso sobre o quê eu tinha para contar. Trouxe a sobremesa, junto dela o envelope. Entreguei a ele. Minha pulsação disparou, empalideci completamente. No instante que ele abria o envelope meu coração parou. Ele abriu a folha. A respiração ofegou. A minha foi junto. Ele não teve palavras. As lágrimas escorriam dos olhos dele juntamente com um sorriso que eu já não via tinha algum tempo. A rotina sempre acabava com alguma coisa dos casais. Mas agora... Algo completamente fora da rotina. Nos abraçamos com a folha entre a gente. Ele alisava meus cabelos e me fazia juras de amor que eu respondia no mesmo tom, na mesma emoção, ou, como diziam meus alunos "na mesma vibe". Desejei que aquele momento durasse eternamente.


Ele: Naquela noite, descobri que a minha vida mudaria para sempre. Descobri que seria pai. Eu, que terminei o ensino médio por pressão dos meus pais, porque na verdade sempre quis ser músico. Eu, que nunca me importei muito com as coisas. Eu, que além de tocar bateria, a única outra coisa na qual me saía bem, era em jogar video game. Esse mané teria um bebê pra segurar nos braços. De imediato, levei um susto. Mas imaginei uma mãozinha pequena tocando a minha e me senti completo. Agora sim, éramos uma família. Hoje, Helena completa três anos. Ela é a garotinha de três anos mais linda que já vi. Ela tem os cabelinhos claros exatamente como os da mãe dela. E ela tem aquela mania de levantar a sobrancelha esquerda quando fica emburrada com alguma coisa. Como é que eu posso amar tanto um ser tão pequeno? Helena me ensinou sobre tudo. A minha filha me ensinou o que as empresas, a rotina e todo o cotidiano à minha volta tentavam me fazer esquecer. Minha esposa e eu costumávamos deitar debaixo da cerejeira em que nos beijamos pela primeira vez. Eu deitava no colo dela, e Helena apoiava a cabecinha sobre a minha barriga, então ficávamos nós três contando as estrelas e dando nome a elas. Ainda ontem, vi Helena vestida de bailarina me encarando com aqueles olhos verdes - que talvez seja uma das poucas coisas que ela herdou de mim - enquanto puxava minha camisa me chamando pra mostrar o que tinha aprendido. Eu vi a minha pequena das bochechas rosadas andando com a pontinha dos pés com as mãos sobre a cabeça. Naquele momento descobri que as vezes temos medo de que algo inesperado aconteça, medo a ponto de mudar de assunto toda vez que alguém tenta falar sobre. E aquele meu medo de ser responsável e cuidar, se transformou no presente mais bonito que alguém poderia receber. Eu só posso afirmar algo: se eu morresse amanhã, eu morreria sabendo que tive a melhor vida que qualquer um pode imaginar. Feliz aniversário, minha filha! Eu amo você.


Escrito por Luís Mitzco e Thata Bastos.

manha de quinta

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Bom dia meu amor, eu sei que odeia acordar sozinha, mas tive que ir. Desfaz esse bico. Sei que no fundo vai entender. E sei que vai ficar bicuda o dia inteiro, ranzinza. Logo eu apareço de novo, de surpresa... ou, vai me ver, vou deixar o endereço atrás desse bilhetinho. Não venha correndo porque a casa está uma bagunça ainda e não bate o pé dizendo que não se importa porque sei que não gosta da bagunça e não ia sossegar enquanto não arrumasse até a última caixa e o último armário estivesse devidamente arrumado.

Agora franziu a testa. Que bosta que tive que sair e não pude ver sua birrinha... mas seria um crime imperdoavel te acordar meu amor. Não teriam avés-maria e nem padres-nossos capazes de aplacar minha pena por ter lhe acordado, ainda mais pra dizer que eu estava indo... odiaria ver seu sorriso da manhã virar um bico por eu estar indo. Claro que adoraria te ver bater o pé e reclamar porque eu me mudei, eu ia achar graça nisso... aliás, acho graça em você toda meu amor. Se não estou pior, é porque sei que está aqui comigo, dentro de mim, a cada instante. E daí que não pode responder as SMS por falta de saldo? Não ligo. Sei que lê e sei que manda suas respostas por nuvens, pela luz da lua e sei que me ouve conversar com a lua.

Fique bem que eu fico também. Lembra que o plano era ficarmos bem, lembra né? Quando menos esperar eu te faço mais uma surpresa, mas não toda hora se não te deixo mimada hahahaha

Te amo, muito e tanto, tanto e muito.

T(eh) amo.
~ Prê

Inacabado

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Mais uma manhã entre tantas outras, onde eu sequer lembrava se tinha dormido ou não. A luz do sol entrava pela janela e transpassava as camadas finas de cortina branca estampada, cujos desenhos eram refletidos sobre a mesa da cozinha. Cozinha que lembrava cozinha de sítio, ou casa pequena interiorana. Devia ser cerca de sete horas da manhã. Eu me recordo de encarar o calendário-imã colado na geladeira e tentar lembrar sobre como eu tinha passado os dias anteriores. Doze meses, 366 dias. Ano bissexto. Os domingos eram marcados por tinta vermelha que inevitavelmente associei a sangue, que acreditei não estar mais correndo em minhas veias. Que associei a dor. Que associei a perda. Que associei a mim. Eu tinha me perdido e nada poderia doer mais do que isso. Que seja. Os sábados não tinham marcação especial, como se não houvesse nada de especial neles também. Será que dor tem limite? Porque se tiver, posso dizer que cheguei próximo, se não tiver chegado ao limite. Cheguei a ponto de desligar qualquer percepção sobre o ambiente a minha volta. Desliguei as minhas reações, desliguei a compaixão, desliguei o senso de justiça, desliguei tudo o que podia me trazer uma lágrima, e embora meu rosto estivesse molhado ao observar o calendário e buscar lembranças, eu posso lhe afirmar que não senti nada. Nem sei o porquê do choro. Meu corpo estava tão amortecido que eu poderia apanhar até a morte sem gritar. Acredito que aquela lágrima veio da ultima parte de mim que ainda podia sentir. Daquele lado escondido, como um estepe, em caso de querer retornar à vida. Era a minha ultima parcela de humanidade morrendo, mas antes, lamentando pela própria morte. Pela minha morte. Por um corpo que carregava um espirito sem vida. Era o luto ao perceber que a vida passava por mim, os dias se foram e se desfizeram como fumaça no ar. Passaram sem nada que os justificassem. Como se todo o tempo “vivido” até então, fosse perdido.

Ao Noel

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Querido papai noel, sei que o natal já passou e que não fui um bom menino nesse ano que passou. Sei que fiz muitas coisas erradas e que, provavelmente, eu não mereça um presente. Claro, eu sei, eu sei, sei que fiz coisas boas também e que, teoricamente, a mente humana só deveria guardar as coisas boas... por que será que isso não acontece comigo? Enfim, acho que esse não é seu departamento não é?

Apesar de não ter sido um bom menino, de não ter feito tantas coisas boas quanto eu poderia, gostaria de pedir um presente... se for possivel, claro. Já não tenho idade pra acreditar em papai noel, mas mesmo assim gostaria que o senhor me trouxesse o que vou pedir. Ok ok, estou me prolongando demais e creio que agora que o natal passou o senhor quer mais é tirar umas boas férias né? Gostaria de pedir que todos os meus amigos tivessem o próximo ano como o melhor ano que já tiveram, que conquistem o que desejam, que fiquem a maior parte do tempo possivel felizes. Espero que o senhor consiga me dar esse presente.

Forte abraço.
Eu.

Saudações da Terra

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Olá ser de outro planeta que não é a Terra. Primeiramente deixe eu me identificar: eu me chamo (ou chamava, não sei quantos anos levaram pra achar essa "arca" com algumas coisas típicas da Terra junto da minha carta) Danilo. A Terra é o terceiro planeta próximo à uma estrela amarela no braço de Órion, que é onde existem três estrelas quase juntas, formando um paralelo. Creio que, mesmo que possam ir até esse planeta agora, não me encontrarão. Não duvido nada que não encontrem mais a raça a que eu pertencia. Os homos sappiens.

Eramos um povo, na essência, até pacífico, a grande parte de todas as pessoas que viveram em nosso querido planeta viveram em harmonia umas com as outras. Umas poucas causaram divergencias entre si e arrastaram multidões até suas guerras sem sentido que acabaram consumindo muitos recursos que hoje, no instante que escrevo essas linhas, já são escassos e se aproximam de um fim eminente. Não sei o quê acontecerá com a humanidade (que é a forma como chamamos o grupo de homo sappiens que dominou o planeta) e com as outras espécies que habitam o planeta.

Enfim... dentro deste baú existem alguns livros, que foi a forma mais importante do homem aperfeiçoar durante a vida, diversos destes livros que estão aqui fizeram parte da minha vida, da forma que eu aprendi a ver o mundo. Um livro de história, um de contos de fadas (no proprio livro verão uma explicação pro que são as fadas), um livro de poesia e mais alguns livros diversos... nenhum de minha autoria.

Coloquei, também, fotos de lugares bonitos, de construções, de obras de arte, da fauna, da flora e dos humanos no seu cotidino. Trabalhando, estudando, comendo, dormindo, amando (no meio dos livros há um dicionário, vão encontrar o significado de "amor" lá... não o total significado, esse só vão encontrar dentro de vocês mesmos)... enfim, vivendo!

Dentro, também encontrarão, algumas formas terráqueas de expressar o que sentem: música. Vão achar desde música que chamavamos de clássica até o que chamavamos de pop. Junto coloquei um aparelho que possibilita ouvir tudo isso, afinal não sei quais são suas tecnologias e formas de expressão.

Apesar de não parecer, nossa cultura foi bastante produtiva, os múitos séculos de evolução em nossas tecnologias me permitiram criar essa arca e manda-la até vocês, estejam aonde estejam. Espero que consigam visitar meu planeta e que ele ainda esteja habitado por humanos... se, no primeiro contato, os humanos parecerem arredios não se preocupem. Essa é a forma que nós encontramos de nos defender do que não conhecemos. Mas insistam, procurem demonstrar que o objetivo de vocês é a paz e o contato entre os povos dos dois planetas.

Atenciosamente,
Danilo, um terráqueo.