Schorodinger
domingo, 12 de abril de 2020
Postado por ~ Lu ~ às 16:46Entropia
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Postado por ~ Lu ~ às 11:25Tudo
sexta-feira, 27 de março de 2020
Postado por ~ Lu ~ às 10:00Voando
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Postado por Amelie às 23:15Quando eu era criança eu tinha um passarinho amarelo
Eu não entendia que ele precisava voar
Ele sempre comeu muito menos que os outros pássaros livres e acredito que daí tenha vindo a expressão
"Comer feito passarinho".
Quem disse isso pela primeira vez devia criar um pássaro numa gaiola.
Os outros pássaros lá fora comiam tanta coisa que jogavam pra eles e o meu pássaro...
Ele mal comia.
Ele também cantava muito mais alto que os outros pássaros. Ele cantava o tempo todo
E eu podia jurar que ele estava feliz.
Eu admirava suas notas inalcançáveis
Uma vez pensei em abrir a gaiola e deixar ir
Talvez tenha sido o dia em que realmente o amei. Hoje sei.
Mas ele cantava e era feliz
Ele cantava porque era feliz, afinal
Que dedução estúpida!
Quando fazia calor demais, colocavam um pote com água pra ele se molhar
Quando o tempo era frio,jogavam uma pequena manta sobre sua gaiola e
eu tinha tanta certeza que era suficiente
porque mesmo que a manta o privasse da luz do dia e talvez nem o aquecesse como esperavam, ele continuava cantando.
Hoje eu sei que meu pássaro via os outros pássaros voando e sentia que era uma ave estúpida
que tinha asas em vão
porque nunca pôde voar.
Hoje eu sei que seu canto era agonia
Que seus agudos eram tão altos quanto o desespero de estar só e preso em uma pequena gaiola.
Quando ele morreu, eu o enterrei na minha alma.
Morreu acreditando que um dia poderia voar como os outros
Com os outros
Morreu em uma manhã fria com os olhos congelados para o céu azul de inverno.
Morreu só.
E antes de morrer
Cantou.
O Infinito de Schrödinger
domingo, 30 de junho de 2019
Postado por Amelie às 01:55Só que você veio.
Novamente, VOCÊ veio.
Você me disse que eu podia te ligar a qualquer hora da madrugada.
Você ofereceu suas mãos para me guiar no escuro com as luzes totalmente apagadas... Céus, eu nunca provara tamanha insanidade antes! Eu te quis! Como quis!
Eu gostava de brincar com as estrelas.
Eu gostava da multidão.
Gostava dos risos...
... mas o que era tudo isso perto de fechar os olhos e imaginar seus braços estendidos à minha frente em uma imensidão escura e vazia?
Apenas você e eu.
Assustador. Desafiador. O suficiente pra deixar tudo de lado e confiar, permitir
Me entregar.
As luzes se apagaram.
O mundo se calou.
Estávamos a sós.
estendi a mão, toquei seus dedos, você estava lá.
Sabe bem o quanto sou desconfiada.
Dei os primeiros passos de olhos fechados em sua direção, tudo era tão vazio que só era possível ouvir o eco. Mudei de ideia.
" - Vem você primeiro! Se joga nos meus braços! Eu te pego!"
Pude ouvir você engolir a seco.
Fiquei parada. Esperei. Você ofegou. Demorou a se decidir, mas começou a andar. Você veio. Mais rápido. Um pouco mais rápido. Quando percebi, estava correndo. Estendi os braços e você se jogou neles.
Te segurei forte. Estava em êxtase. Você confiava em mim.
Permanecemos ali, por alguns instantes em silêncio sentindo o momento, o tremor do corpo, a adrenalina, o pulsar do peito, a respiração ofegante... mal sabíamos o que pensar. Eu queria te beijar, confesso.
Talvez você também quisesse. Preferi não arriscar.
Você foi chegando perto do meu rosto, meu coração desacelerou. Senti minha pele gelar. Internamente, implorei pra você parar (por não saber o que faria em seguida), embora meu corpo gritasse para que você continuasse e fosse intenso.
Seus lábios tocaram o canto da minha boca. Alguém te chamou e você sumiu. Pela primeira vez eu estava sozinha no meio do nada. Lá estava eu, confusa e sem saber onde estava, o que tinha feito e sem me dar conta de que já havia começado o meu caos: ali comecei a esquecer quem eu era.
Perdida, lembrei que ainda tinha o cheiro das árvores, da poluição dos carros e a companhia das estrelas no céu. Respirei fundo. Não consegui notar meu olfato. Algo estranho no meu nariz... eu estava para chorar? Olhei para o céu em busca das estrelas, queria convida-las para brincar.
O céu estava vazio. As lágrimas vieram e em pouco tempo tornaram-se incessantes.
Sentei-me ao chão, apoiei os cotovelos sobre os joelhos, debruçada e chorei como não chorava há muito tempo.
A imensidão ao meu redor havia se tornado uma compacta caixa preta. Sem muito espaço. Sem saída. Sem rastros seus. Eu estava ali, presa e em pânico.
Chorei até adormecer.
Acordei com meu celular vibrando, era você. Me chamou por um apelido carinhoso. Que houvera? E aquela voz que havia te levado pra longe? Onde estava? Subitamente, você apareceu ao meu lado dentro da caixinha e sentou-se comigo. Contou-me segredos. Eu ri quando você me falou sobre suas manias na época de escola. Você riu quando contei das roupas que eu costumava usar. Discutimos sobre metafísica. Falamos sobre buracos negros, sobre galáxias e vidas em outros planetas. Conversamos sobre viagem no tempo, sobre séries antigas, sobre comédias românticas e aquele show que todo mundo tinha ido, exceto a gente. Conversamos a madrugada toda e então você precisou ir, mas não chorei dessa vez. Você prometeu voltar no outro dia.
Tomei uns dois ou três comprimidos e esperei que o dia passasse. De qualquer forma, eu só precisava te ver outra vez.
Eu não percebia, mas aos poucos eu não notava mais a caixa, não notava a escuridão ou o isolamento. Eu não notava mais nada que não fosse você.
O tempo passou tão rápido e à medida que você sumia, eu descobria que não havia nenhuma luz aqui.
Tudo bem, você voltaria depois.
E quando partiu outra vez, percebi que também não sabia por onde você saía.
Não há janelas ou portas.
Não que eu possa ver.
Talvez só você saiba e me faça crer que até o oxigênio vem de você.
Mas tudo bem, porque você volta e então respirar será simplesmente imperceptível e automático.
Só não demora muito pra voltar, tá?
É que de um tempo pra cá as tuas idas são cada vez mais longas e a gente já não conversa
Não posso mais te falar das estrelas, como vou te falar delas se não as vejo há anos?
Não sinto mais você respirar do meu ar de quem conhece o infinito
Talvez por isso te vejo cada vez menos...
E como vou saber do infinito se tudo aqui é tão limitado? Nem do cheiro das árvores me lembro!
E notei agora, estou em dúvida
A caixa está ficando pequena?
Ou eu cresci?
Não tenho como saber...
Me diz você.
Ouro — Parte 2
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Postado por ~ Lu ~ às 23:00Ouro — parte I
sábado, 6 de abril de 2019
Postado por Amelie às 05:39[TW: Dependência química.]
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— Sabe que não é assim que vai resolver isso. Você não vai encontrar nada, Hel, e não vai sair daqui. Conversa comigo. — Disse Janaína a Helena tentando esconder o tom angustiado e assustado por ver a amiga em tamanho surto.
Helena passou por Janaína como se não tivesse ouvido uma palavra. Tremula, voraz, quase em transe, seguia revirando os bolsos de todas as calças e casacos que encontrava em busca de alguns trocados, uma cópia das chaves ou quem sabe um celular. Um celular seria útil. Talvez alguém pudesse passar algo pela fresta da janela do banheiro, já que Janaína ficaria atenta à janela da cozinha. Mas era utopia demais acreditar que Janaína marcaria tamanha bobeira. Estava esperta desde a última overdose. Era cuidadosa em excesso. "O jeito seria esperar Janaína cair no sono ou ir em um daqueles encontros misteriosos dela e então dar uma escapada rápida, só mais um vez não faria tão mal" pensou Helena ao tirar três notas de vinte reais do bolso de uma velha camisa xadrez no fundo do armário, a qual mal lembrava da existência. Seus olhos brilharam ao contemplar as notas. Helena sentia o corpo doer e arrepiar constantemente. Três notas que naquele momento apareceram como vislumbre de um alívio imenso.
Instintivamente, saiu andando rumo a porta quando Janaína a segurou pelo braço.
— Enlouqueceu?!
— Jana, meu corpo tá doendo...
— Hel, a gente veio pra cá pra você ficar livre disso. Lembra há quanto tempo voce tá... qual é o termo? Limpa! E eu estou tão orgulhosa de você! A gente começou a deixar a porta da sala aberta durante o dia enquanto eu estou acordada, você pode fumar seus cigarros no jardim, pintar seus quadros lá fora, confiança, lembra?
— Eu sei, Jana, eu sei, olha... Eu tô vomitando, não aguento isso. Não tô conseguindo, ok? Meu corpo tá fodido e eu tô com calafrios o tempo todo e...
— E não importa, Helena Vincent! Você não vai sair daqui, você precisa ser forte. Você é forte e sabe disso.
— "Não importa"? Foi isso que eu ouvi? — indagou Helena, olhando fixamente Janaína nos olhos enquanto seu braço continuava preso.
— Hel, para com isso. Você entendeu o que eu quis dizer.
— Eu acho que você que não entende...
— Helena... Vem, vamo deitar, ver alguma coisa na TV assim no meio da tarde... — Janaína tentou arrastar Helena pelo braço.
— Janaína, tira a mão de mim. — Respondeu Helena, inesperadamente, ríspida, fria e distante.
Janaína engoliu seco. Não disse mais palavra alguma, apenas concedeu o pedido de Helena. Aproximou-se da porta e girou a chave cuidadosamente, devagar, enquanto observava Helena por cima do ombro.
Helena acendeu um cigarro ao abrir a garrafa de vinho que a família de Janaína guardara por gerações. Uma das poucas coisas que Janaína carregava do passado. Helena sabia, mas não parecia pensar. Não parecia ser a Helena. Era o mesmo corpo, o mesmo cabelo despontado no ombro recém tingido de preto. Os pés sobre outra cadeira. Fumava enquanto bebia no gargalo mesmo o vinho.
Janaína tentou conter as lágrimas, raramente chorava mas ver Helena não sendo Helena era suficiente para fazer seu coração transbordar. Rapidamente, escondeu-se no banho e permitiu que as lágrimas caíssem. Implacáveis.
Chorou pelo que acabara de acontecer.
Chorou por não entender o motivo de ter mantido aquela garrafa por todos esses anos.
Chorou por lembrar constantemente de seus pais nas ultimas noites.
Chorou por não entender mais o que estava acontecendo.
Janaína chorou por talvez nunca ter conseguido entender a si mesma e nunca ter se permitido transbordar daquela forma. E já nem sabia mais o que lavava seu rosto: se a água do chuveiro ou as tantas lágrimas incontroláveis. Soluçava.
Chorou por Helena.
Helena.
Não podia perder tanto tempo no banheiro. Quase uma hora havia se passado. Saiu enrolada na toalha com o rosto inchado torcendo pra que Helena não perguntasse nada naquele momento... E ela não perguntaria.
Helena estava dormindo na cama de Janaína abraçada com o pato de pelúcia que havia ganhado de Janaína há tantos anos atrás.
Uma última lágrima de alívio correu pelo rosto de Janaína. "Vai ficar tudo bem" "vai ficar tudo bem" a moça dos cabelos cor de ouro repetia mentalmente de forma incessante enquanto apertava os olhos, quase que como uma oração.
"Minha filha, até o ouro passa pelo fogo pra ser refinado." Janaína lembrou da frase que sua avó costumava dizer. Essa fase lhe queimava o peito.
Talvez fosse só fogo refinando o ouro.






