à querida e saudosa.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Postado por Jéssica às 23:18Hoje foi um dia de sol e bastante quente, mas é inverno. Quando as manhãs são cinzentas e não podemos ver a luz, sei que em algum lugar o sol se esconde e que pode aparecer a qualquer momento. O que não me impede de aproveitar os dias nublados.
Os dias têm sempre algo a nos ensinar. Nem sempre quando o dia é de sol, ele é bom. E eu prefiro as nuvens, mas reconheço a beleza de um céu limpinho e azul.
A previsão do tempo nem sempre acerta. A natureza faz a sua própria escolha de acordo com o que tem que ser, porque não cai nenhuma folha, de nenhuma árvore sequer, em vão. O que me remete a você.
Para tudo há um tempo determinado debaixo do sol. Não contexto e não quero controlar o tempo. Apenas penso sobre a efemeridade dessa vida. Sobre você eu não digo ter sido tempo demais (e nunca foi!) ou pouco tempo, tempo suficiente ou insuficiente. Foi um tempo feliz, o que tivemos.
Ouvi dizer que saudade era o nosso coração dizendo para onde quer voltar, e nem sempre é. Como eu poderia voltar para onde nunca estive? Não que o passado feliz não seja visitado e desejado. Se fosse possível, eu voltaria no tempo apenas para te observar.
Mas hoje sinto a saudade do que eu nunca vi. Eu que acredito que coisas boas estão por vir, visualizo você sentada em uma plateia de um espetáculo que comigo sonhou, um espetáculo que ainda está por vir, e eu gostaria que você estivesse aqui.
Sobre o passado, amor. Sobre o futuro, esperança. Eternamente, gratidão.
A vida é efêmera, sim, mas o amor é eterno.
Psicose
terça-feira, 13 de maio de 2014
Postado por Amelie às 02:05Chá de camomila. Pode soar estranho, mas é a minha maior nostalgia. Meus silêncios e gritos acabavam sempre em uma xícara de chá de camomila.
Tomava o chá aos poucos observando a fumaça que saía da xícara pelo líquido que ainda era extremamente quente. Espiei a rua pela janela, havia névoa e garoa. Peguei um cigarro. O frio era de sacudir os ossos. Tudo aquilo parecia exatamente parte de mim. Não importa o quanto aquele clima me fazia tossir, o frio era confortável. A bebida era confortável, tudo se encaixava ao que sou.
Por um instante questionei minha existência. Questionei como duas personalidades totalmente distintas podiam dividir o mesmo corpo. As vezes meu coração era tão quente quanto o que chá queimava a minha boca a cada gole. Entretanto minhas atitudes eram como a garoa fina e gelada lá fora. Incômoda, quase imprevisível, indiferente.
Apoiei-me na janela para fumar. Tossi. Maldito hábito. Era sinal de que meus pulmões já não eram os mesmos. Vinte e cinco anos e meu organismo já era mais estragado do que o dos meus avós.
Pensei em meus avós. Como eles reagiriam se soubessem quem eu realmente sou? Como agiram se soubessem que a neta pós-graduada e com pinta de boa moça, no fundo era uma bandida que nunca se importara cima nada?
Lembrei do meu último crime. A vítima não conseguia fechar os olhos, eu havia feito cortes que o impossibilitavam de fechar os olhos. Era um cômodo totalmente espelhado, ele assistiu passo a passo de sua tortura e viu a morte caminhar lentamente em sua direção. Traguei o cigarro, segurei a fumaça nos pulmões e soltei devagar. Antes que a culpa tentasse invadir minha mente, lembrei que aquele homem havia abusado de mais garotas que posso contar. Cortei seu membro principal, sua "ferramenta de trabalho" aos poucos para que ele tivesse tempo de sentir o que fizera. De sentir como é estar vivo e se ver morrendo aos poucos sem conseguir fazer nada. Talvez daquela forma ele compreendesse quantas pessoas ele havia matado embora os corações ainda batessem, o resto tinha morrido. Fui uma delas. Não achei nada mais justo do que mante-lo preso sentindo cada gota de seu sangue escorrer.
Outro gole de chá. Lembrei então do golpe que eu havia dado no restaurante mais caro da cidade. Lembrança que me fez abrir um sorriso sarcastico. Se não fosse pela mente que tenho, seria feliz. Eu acho. O que é ser feliz? Deve ser coisa de gente normal. E definitivamente, eu nunca fui.
Busquei naquele chá a calmaria que minha cabeça buscava. O tão precioso silêncio mental. Monstros descansam? Eu espero que sim.
E sem perceber, dormi deixando a carta sem conclusão, como tudo o que faço: só tem sentido pra mim.
Requiém de uma tempestade
domingo, 30 de março de 2014
Postado por Amelie às 19:57Eram memórias distantes. Tudo o que eu passei a conhecer era sobre solidão. Descobri que a dor tinha som. Som de choro. Som de chuva. Som de música instrumental, quase como Clair De Lune. Em seus casos mais extremos, eu também poderia dizer que o som da dor se parecia com "Moonlight Sonata" de Beethoven. A tristeza tinha o mistério e profundidade da obra "The Crow" de Van Gogh. Que talvez, sofrer também fosse uma arte das mais masoquistas e sádicas ao mesmo tempo. Descobri que o poeta vive de sua angustia, dela vende e dela mantém-se vivo. E que bela ironia manter-se vivo quando tudo de mais humano em você já morreu! Artistas não fazem sentido tal como nada conhecido na existência faz sentido.
Que é o amor se não as flores jogadas sobre o túmulo de quem já desistiu de si próprio? Que é o amor, se não o último floco de neve quando o inverno acaba? Que é o amor, se não apenas um rastro de esperança mal guardada?
A vida é líquida e corre por entre os vãos dos dedos sem que ninguém perceba.
"Luz! Luz! Mais luz!" e de Goethe, faço essas também minhas palavras. Embora o quarto fosse claro, todo acúmulo de sentimentos me cegava. "Luz", gritava o espírito de Goethe assim como meu espírito grita. Mais luz.
Sinfonia silenciosa
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Postado por Amelie às 02:06Eu errei.
A dor nunca mudou, ela aprendeu a esconder cada vez melhor, apenas. Era a minha atriz favorita, embora eu odiasse seu personagem. Eu odiava aquela forma como ela lidava com a vida, como se gostasse das coisas, como se entendesse de tudo, como se tivesse o controle daquilo que diariamente a surrava e deixava-a quebrada sangrando em um canto do quarto. Odiei tanto sua dor que decidi acabar com ela. Chamei-a para sair a noite, depois do parque. Tomamos o drink favorito dela: Blue sky. Sky. Céu. Supostamente, sua futura casa. Sempre achei que ela tinha vocação pra anjo, que de alguma forma ela não pertencia a esse lugar. Esse mundo é desgraçado demais pra ela, que mesmo cheia de marra, por dentro é uma menina que acorda todas as manhãs com o entusiasmo da criança que saboreia um algodão-doce enquanto desce o escorregador, e vai dormir todas as noites com as marcas de quem foi chicoteado até que não aguentasse mais. Com a desesperança de quem viu tudo ir embora.
Naquela noite, ela iria embora.
Levei-a para casa. Entreguei-me completamente. Fiz promessas, ela amava promessas, ela amava sonhar. Ela amava a ideia de talvez existir um "talvez". Ela amava tudo que a tirava daqui. Ao escrever essa carta, lembro de seus dedos me tocarem o rosto, os lábios, lembro de seus olhos pairarem sobre mim com um olhar infantil enquanto ela dizia: "você é a única coisa me manter viva, se não fosse por você, eu gostaria de partir, não sei lidar com mais nada." Limpei a lágrima que ousou cair. Segurei o choro. Beijei seus lábios de uma forma tão eterna que eu não poderia lhe dizer por quantos minutos aquele beijo se estendeu. Eu não seria mais o motivo dela de continuar suportando tanta dor. Ela merecia descanso. E dormiu em meus braços. Ao dormir, toquei seu rosto com ternura, ela suspirou pela última vez quando pressionei um travesseiro contra seu rosto. Os instintos humanos de sobrevivência a fizeram se debater um pouco enquanto eu chorava dizendo que a amava, ela perdeu o fôlego e serenamente partiu. Abracei seu corpo ainda aquecido enquanto minhas lágrimas se espalhavam por toda aquela matéria que agora era sem vida. A dor veio junto do alívio de salvar a minha pequena de tanto desespero. Só eu sabia pelo que ela passava.
Hoje não há um único dia no qual eu não me lembre dela. Todos os instantes, seus conselhos, críticas e filosofias malucas se fazem presente.
Ainda me questiono se ela foi real, ou se foi sonho.
Todavia, não conheço outra coisa sobre o amor além de tudo o que ela me mostrou. Dessa forma construí o nosso "pra sempre": na morte.
Confusão
domingo, 5 de janeiro de 2014
Postado por ~ Lu ~ às 03:02Talvez essa seja minha última carta
Leve
domingo, 10 de novembro de 2013
Postado por ~ Lu ~ às 01:18No fundo ele sabia que o romance com a Pianista duraria pouco. Durou o suficiente pra se tornar inesquecivel. O mesmo que havia acontecido com ela. Claro que ela era diferente. Era algo infinitamente maior, mais intenso, mais duradouro. Se ele fosse compositor comporia o réquiem agora. Mas não era. No máximo ele escrevia e desenhava, compor não era com ele. Deixou as chaves e o pão sobre a mesa. Esperou a casa perder a luz natural que trespassava a cortina. Em poucas horas deixou que as duas fossem. Pra pianista depois escreveria um e-mail lhe desejando sorte e tudo de bom e não esquecer de visita-lo quando voltasse. Para ela... para ela... subiu à laje vendo o sol sumir aos poucos e as nuvens adornando-o com uma coroa. Fechou os olhos, sorriu e, mentalmente escreveu uma pequena carta onde, resumidamente, despedia-se dela. Ao abrir os olhos se sentiu mais leve. Leve ao ponto de saber que ela, certamente, receberia a mensagem e ficaria e tiraria os pés do chão se deixando levitar, quem sabe até voar acima das nuvens. Assim como ele fazia agora. Leve de leveza, leve de beleza, leve com certeza, leve com clareza, leveza de leveza.
Coleção de despedidas
sábado, 26 de outubro de 2013
Postado por Amelie às 01:03Eu não tenho pra onde correr. Minha mãe não faz mais chá de camomila pra mim quando me vê chorar. O meu pai está bravo comigo, eu vivo estragando o carro dele e pegando multas, as vezes nem fui eu e ele diz que a culpa é minha. Amanhã eu tenho um vestibular pra fazer, e pra ser bem honesta com você, eu não vou. E não vou porque sei que não vou passar. E digamos que, se por ironia do destino eu tirasse nota suficiente pro curso que planejei, quando começar a data da matricula da faculdade, estarei trancada em uma clínica de reabilitação. As vezes sinto que estou perto de te encontrar, seja lá onde você estiver, no céu, em algum canto do universo, ou em qualquer lugar espiritual hipotético, eu sinto que estou perto de te encontrar. Nem que seja estar perto por também estar debaixo da terra. Não sei se ainda creio em mim e sei que por isso devo te pedir perdão. Todos os dias cometo erros. Todos os dias. Eu sei que é patético escrever assim sabendo que você não lerá ,que você nunca vai saber nada disso aqui nesse planeta, mas eu preciso contar, preciso te dizer que eu estou quebrada, que eu queria que as pessoas nunca partissem, que o "adeus" não existisse. Preciso dizer que não sei ser sozinha e não sei estar com alguém sem levar esse alguém pro abismo comigo. Preciso dizer que lutar por mim é dar murro em ponta de faca, porque você tinha razão, de fato eu sou "impossível" de tão teimosa. Eu preciso dizer que sinto falta da tua voz. Eu ainda amo você.






