Confissão

terça-feira, 15 de março de 2016

Darling,

Eu quero que você saiba que eu gosto de ficar ao seu lado. Eu não digo, eu faço de conta que tanto faz, mas cada segundo ao seu lado me preenche mais e mais. Nós gostamos de Nutella, de cappuccino e chocolate quente no inverno. Nós gostamos de pisar em folhas secas por causa da textura e do som que elas fazem. Nós gostamos de chocolate de ovomaltine. Nós temos dependência pelas estrelas. Nós gostamos da insanidade e não nos importamos com o que vão pensar. Nós somos uma pessoa dividida em duas.

E na real nós nunca saberemos se eu pareço com você ou você comigo.
Não esquece aquele beijo demorado na bochecha, foi a minha forma discreta de dizer "eu te amo".


Vendetta

quarta-feira, 2 de março de 2016

De: sophiaavois@tuta.io
Para: Eu <sergiow@mail.com>
Data: Qua 2, Mar 18:26
Assunto: Sem Título
Anexo: img_0852.jpg




Olá, Sérgio.

Sinceramente eu esperava mais de você. Mais perspicácia, mais educação, mais inteligência ao me responder. Aliás, você nem ao mesmo foi educado a ponto de me responder devidamente e ainda me ameaçou? Cara. Você arrumou a inimiga errada.

Espero que goste da foto que estou te enviando. Não sei se vai dar pra ver, mas essa é pra você. Se no nosso "joguinho" vale ameaçar tome sua resposta:

Eu vou achar sua família e vou acabar com eles. Só por vingança. Sua filha ainda mora no Rio de Janeiro que eu sei, tenho contatos lá e sei como acha-la. Depois vou acabar com a sua raça de uma forma tão lenta que vão haver momentos em que você vai desejar que eu te mate de uma vez por todas... mas eu não vou. Vou te torturar até me cansar, sem pressa alguma, sem ninguém pra nos importunar. E só aí vou te matar. 


Beijinhos,
Sophia

Instintivo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Sempre gostei de biologia, particularmente eu achava a cadeia alimentar muito interessante. Os insetos se alimentavam de outros insetos. Os animais pequenos eram devorados por animais maiores e os seres humanos, por sua vez, se alimentavam dos animais e também devoravam uns aos outros."

Era só mais uma quarta-feira de chuva onde eu normalmente ficaria em casa vendo série policial, lendo ou tocando piano enquanto o pequeno Mik tentaria escalar meu colo a fim de alcançar as teclas. Mik é meu meio irmão caçula, filho de meu pai e Lilian. Diferente de Peter que não tinha lá grandes semelhanças comigo, Mik tinha chamas na pupila. O mesmo tom que as vezes lembrava mel, as vezes avelã avermelhado tanto nos cabelos quanto nos olhos. Fato que deixava Lilian ligeiramente furiosa, tanto o apego de Mik por mim quanto suas semelhanças físicas... É que eu lembrava a grande rival de Lilian: a falecida Helena Rosália. Sim, outra Helena. Por coincidência, minha mãe.
Lilian... Sempre histérica. Peter, sempre silencioso demais pra um garoto de nove oito anos. Meu pai, tentando ser um pai... eu acho. Não sei. Não sei onde andava a cabeça de meu pai. Sei que a minha estava cheia. Eu odiava ter dias iguais, odiava andar na linha e certamente eu morreria se não escapasse vez por outra. Recebi uma mensagem no celular "Saudades, gatinha. Espero que não esteja chateada. Um beijo daqueles" Era Dimitri. O cara por quem eu fui apaixonada todo o tempo de escola. Ficamos juntos até o começo do primeiro ano, quando ele era um cara legal, até ele começar a andar com... Não importa muito. Ainda estava chateada. Odiava a forma como ele falava comigo. Odiava o novo Dimitri, mas no fundo sempre achava que ia encontrar o meu Dim ao receber um beijo na testa depois de uma de nossas aventuras...

Resolvido: colocaria meu velho jeans, a jaqueta e o coturno. Um batom, soltar os cabelos e uma aparição surpresa talvez não fosse tão ruim.

Sai de casa com uma pequena garrafa de Coca-Cola em mãos. Sempre achei uma palhaçada isso de nomes escritos em embalagens, mas se fosse pra ter, então que tivesse o meu nome. A chuva não foi gentil comigo.
No primeiro toque de campanhia, a mãe de Dim apareceu no portão franzindo a testa como quem tenta ter certeza do que está vendo. Ela me encarou e logo soltou:
— Helena, é você mesma ou eu fiquei velha e gagá?
— A própria em carne e osso.
— Ora, menina, mas quanto tempo! — Ela me olhou de baixo pra cima — Você não muda mesmo, né? Continua usando essas roupas esquisitas de quem trabalha em cemitério.
Ri de canto enquanto ela abria o portão
— Também senti sua falta, Dona Débora.
Entrei e subi as escadas depressa, assim que cheguei na porta me deparei com Dim, suas pupilas estavam tão dilatadas que cogitei a hipótese dele ter acabado de usar cocaína.
— Helena Vincent.
— Dimitri Müller.

Não dissemos mais nada. Apenas ouvi o ruído da porta fechando devagar. Dim me segurou com força contra a parede e me beijou como se não beijasse ninguém há anos. Seus lábios corriam por meu pescoço e sua respiração ofegante ao meu ouvido me faziam corar. Eu poderia mergulhar naquele momento centenas de vezes incansavelmente. Não demorou mais do que cinco minutos até estarmos completamemte nus. Entreguei-me a Dimitri como nunca fizera antes. Pensei no cara em que amei. Sentia o sabor do vinho em seus lábios enquanto seu corpo estava completamente entrelaçado ao meu. Ele parecia sedento e eu gostava daquilo. Eu gostava da adrenalina que me trazia. Presos um ao outro, suas mãos tocavam as minhas, toquei seu rosto, Dimitri me encarou por alguns segundos como se fosse dizer algo mas pareceu engolir e simplesmente me prendeu pelo pulso com tanta força que seus dedos ficaram marcados em minha pele.
Outra de nossas aventuras se findou e o beijo na testa não veio. Encostei a cabeça em Dimitri. Acariciei levemente seu peito sentindo o relevo da tatuagem de lobo recém feita. Aquele momento foi curto. Senti vontade de chorar, mas felizmente estava cansada demais. Resolvi outra vez só deixar pra lá.

Logo Dim levantou colocando as calças e apertanto o cinto depressa. Ele jogou um olhar maldoso pra mim enquanto passava a língua no contorno dos lábios. Aquilo me fez lembrar os filmes de vampiros que eu assistia, quando o vampiro acabava de saciar-se com o sangue de alguém o ritual era o mesmo: passar a língua pelos lábios aproveitando até a última gota.

Eu então eu sabia que já não existia mais amor, nem mesmo consideração. Éramos apenas presas na cadeia alimentar um do outro. Éramos apenas lembranças de um passado que mais parecia um quadro desbotado na parede.
Exausta, adormeci.

Carry On

sábado, 23 de janeiro de 2016

De: Eu <sergiow@mail.com>
Para: Sophia <sophiaavois@tuta.io>
Data: Sab, 23, Jan 2:48
Assunto: Re: Dúvida.



Olá, Sophia.

Primeiramente me permita lhe parabenizar por ter tido a audácia de me enviar esse e-mail.

Por que devo acreditar em uma só palavra do que diz? De verdade, Sophia. Não consigo acreditar em suas palavras de ter realmente gostado de mim. Hoje, depois de três semanas afastado de minhas funções e ter ido passar alguns dias no litoral fluminense repensei muitas coisas e vi como fui otário em acreditar em você.

Algo lhe tirando o foco? Ora. Devo acreditar nisso ou é mais uma de suas mentiras? Quer mesmo saber o quê fez seu castelo de crimes ruir? Quer mesmo saber? A verdade é que você, por mais inteligente que fosse, jamais poderia lidar com algo propriamente humano que é a imprevisibilidade de seus atos.

Não devia, mas vou lhe responder: na sua quinta ação. Aquela que você enrolou o corpo de um homem vivo e o jogou numa piscina velha e o incendiou. Ali tivemos acesso à imagens suas saindo da estrada vicinal que dava acesso para aquela casa. A pessoa viu a notícia de seu ato e, como boa jornalista que é, correu até a polícia. Porém a imagem não era tão perfeita e demoramos algum tempo até chegar ao seu carro. Coloquei uma equipe atrás de duas dúzias de pessoas até me dar conta, por aquele dia em que tentou me dopar em que já tínhamos quase certeza de ser você. Mas você era boa em apagar rastros.

Mas, naquele dia, já tinha tudo esquematizado. Achou que foi sorte o último taxista dar o desconto? Francamente. Excesso de confiança não combina contigo.

E, como deve saber, rastreei esse e-mail sim. Apesar dos inúmeros desvios, sei que está no Centro-Oeste do país. E eu vou te caçar, nem que seja a última coisa que eu faça.

Sérgio W.

ps.: Durma com um olho aberto, eu posso estar por perto.

Da Estrada

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

De: sophiaavois@tuta.io
Para: Eu <sergiow@mail.com>
Data: Sex 1, Jan 19:28
Assunto: Dúvida.



Olá Sérgio, tudo bem?

Espero que não esteja machucado por causa do golpe de nosso último encontro. Lhe envio essa mensagem com uma dúvida que não me deixou recobrar o foco desde que fui embora.

Não que vá acreditar, mas eu realmente gostei de você, do seu brilho no olhar... lamento tudo ter acabado como acabou.

Poderia escrever mil coisas, contar histórias, mas creio que, no momento atual, não iria acreditar em nada do que lhe falasse. Porém, podes, em nome do tempo que passamos juntos, me dizer onde, quando, em que momento eu pisei na bola. De verdade. Eu revejo todos os meus atos e não consigo imaginar o momento exato onde deixei transparecer que eu era a culpada dos "crimes" que você investigava.

Aguardo, ansiosamente, sua resposta.

Atenciosamente,
Soph

ps.: não perca tempo tentando rastrear esse e-mail. Vai ser inútil.

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em dias assim,

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

quando amanhece nublado dentro de si apesar das cores de fora e você não sabe bem se o agente causador reside na complexidade hormonal ou em alguma coisa inconsciente que Freud esqueceu de te explicar, aproveita os sentidos acelerados, a flor que nasce na pele, escreve uma carta para si.
quando as nuvens encobrem o sol, talvez seja pouco provável de se enxergar, mas acredite: existe ainda o sol. só não espere por ele. não só a sua quentura pode te fazer feliz. por vezes são as gotas da chuva que trazem sorriso lá do coração, por vezes a alma espera ansiosamente pelas gotas que caem, pra ser lavada, e a resposta que ela entrega à natureza é o sorriso com nascente no coração.
os dias tempestivos fazem total sentido. apesar do temporal o sol vai nascer e amanhã os pássaros irão cantar. e todo esse dia confuso, na verdade, só foi pra que algumas palavras servissem a carta, a carta. aquela carta que você constantemente esquece de escrever.
esperei por ela todos os dias por anos.
um dia ela chegou e eu não era mais eu. eu não estava mais esperando a carta, quando ela chegou. dizem que as coisas chegam quando não esperamos. mas se demora tanto assim, se esquece. eu esqueci. de quem eu era e do que esperava. mas a carta chegou.
a carta chegou num dia de chuva. num dia de tempestade. não havia muita vida pra observar. não tinha o canto dos pássaros. alguns ninhos tinham caído com a força do vento. fiz abrigo pra alguns animais. nossa fazenda esteve em crise. por anos eu não me lembrava, por tempos passei totalmente alheia a tudo.
mas não nos primeiros meses.
nos primeiros meses me sentava pacientemente na nossa varanda e apenas observava o caminho por onde passávamos, aguardando uma face conhecida e cheia de amor.
a carta ficava para as manhãs. metodicamente me dirigia ao mesmo lugar, todas as manhãs, antes de tudo, logo ao despertar. nada. sempre vazia. ou pelo menos com nada que me interessasse.
com o tempo me cansei. parei de esperar a carta, mas todos os dias seguia com o plano: lá estava eu, caneca e café na mão, a camisola arrastando na terra, o sorriso de antes dando lugar a expressão do cansaço, tão nova e as rugas. as rugas estavam vindo sem que você estivesse para contá-las e não havia nada mais lindo do que o plano que fizemos de envelhecermos juntos pra que contássemos não só as pintas juvenis como também as rugas. as rugas malditas e temidas. e nenhuma carta no correio!
mas naquele dia foi diferente. na verdade, furei o método.
a semana longa de chuva me impediu de ir ali, da janela da sala eu apenas observava o correio. esperando ansiosamente para que saltasse dali um envelope e se abrisse diante de mim. mas nada acontecia nunca. naquele dia foi diferente porque apesar do temporal, me veio do nada uma sensação de euforia. olhei pro céu, e já fazia tempo que não o via assim. foi incrível. notei luzes diferentes no meio da negritude do céu. sempre achei tão lindo os céus de tempestade, mas hoje havia ainda, pra somar, um ponto de luz. e ele foi direto no meu coração. imediatamente, e não metodicamente, me levantei. corri para  a porta e a destranquei.
me dirigi ao correio, pés descalços sujando de lama, camisola se tornando transparente com as gotas da chuva, cabelo indo em todas as direções por seguir o vento, me cegando. cachos indecisos saltando nos meus olhos. mãos trêmulas: tinha uma carta.
bastava ter uma carta para que eu soubesse do que se tratava.
abri aquela carta e tudo fez sentido, pude saber através das palavras de novo quem eu era.
as suas palavras de amor me lembrando quem sou.
por muito tempo as cartas que escrevia para mim salvavam a minha vida e entusiasmavam a minha espera. até quando escrevia para mim, era para ti que escrevia. e vejo que o contrário também ocorria.
a guerra de tão longe se colocou tão perto.
partiu meu coração.
e tudo que eu queria era somente uma carta. já que a face amada não poderia ser vista.
mas com a carta me veio a dúvida: veria de novo os olhos brilhantes com sentido de sol e de lua?
me traz as estrelas, quero ver-te.


Com amor,
Catarina.


À Helena

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Olá minha irmã. 

Espero que esta te encontre bem. Tem alguns anos que estou me protelando em lhe escrever essas palavras. Na verdade desde que eu tinha 10 anos e descobri o real motivo de meu pai não voltar todos os dias pra casa. Graças a TV eu soube que existiam homens que traiam suas esposas com outra mulher. Por algum tempo achei que meu pai tinha outra. Até que me caiu a ficha: minha mãe era a outra. Não digo que não passei vergonha na escola na época de dia dos pais por ter uma boa lábia e saber mentir desde cedo. Mas passei alguns apertos. 

Passaram os anos e tudo que consegui foi seu nome e uma foto de quando você era criança, com uns 4 ou 5 anos. Agora deve ter seus vinte anos... nossa, imagino suas burradas e fico querendo te consolar (mesmo que eu não seja assim com ninguém). A verdade, minha irmã, é que a vida foi injusta conosco e eu mal espero a hora de te encontrar e fugirmos para algum lugar distante. Até a próxima carta. 

Com amor, Alice.