Admirador Secreto

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

          Olá, Carolina, sei que não me conhece, mas eu lhe conheço muito bem, sei praticamente tudo a seu respeito, sei que horas acorda, que horas sai, que horas toma café, que horas dorme, que horas vai ao banheiro... mas não se assuste, não sou um psicopata ou algo do gênero! Muito pelo contrario... eu sou o que se poderia chamar de admirador secreto. Passo os dias e as noites pensando em você, tudo bem que eu ainda não tive coragem de me revelar e sair aqui de minha penúmbra quase fúnebre.

          Mas um dia eu ainda vou sair daqui e ir ao seu encontro. Vou lhe convidar para saírmos, no passeio vamos dar as mãos e vamos deixar todos os outros casais mortificados de inveja, tamanha será a nossa felicidade estampada em nossos rostos! Ok, eu exagerei, mas, como sei que faz artes cênicas, e que está trabalhando arduamente em um papel em que irá fazer uma linda jovem que sempre consegue sorrir apesar dos pesares, das interperes, acabei me dando ao luxo de colocar uma pequena interpretação. Porém não tenho seu talento.

          Deve estar se perguntando quem sou eu e porque não jogou essa carta no lixo sem lê-la até aqui não é mesmo? Viu como lhe conheço bem, Carolina, sei que sua curiosidade foi maior do que qualquer outra coisa e que agora deve estar se jogando no sofá tentando identificar o estilo de escrever, mas creio que não me reconhecerá. Espero nas próximas cartas revelar quem eu sou, ou... quem sabe bater na sua porta e lhe convidar para sair.

Com amor, Seu Admirador Secreto.

Prezado politico,

sexta-feira, 28 de setembro de 2012


Depois de muito pensar, muito ponderar, resolvi aceitar sua proposta e vou lhe vender meu voto. Não exijo que, caso eleito, crie novos projetos, novas leis, novos decretos... exijo, apenas, que cumpra um bom mandato, que honre os compromissos que está se propondo no seu panfleto e em suas reuniões ao redor da cidade.

Como não gosto de enrolar, vou direto ao ponto chave desta carta: a venda do meu voto ao senhor. O preço que lhe peço é que pague um bom plano de saúde para minha familia pelos quatro anos de seu mandato, porque sabe né, a saúde pública está de mal a pior. Que minhas filhas tenham vaga assegurada naquela escola particular com boa nota e que aprova muitos alunos em faculdades de grande qualidade, porque se depender da qualidade das escolas públicas, elas malmente vão conseguir vaga para trabalhar de faxineira. Quero, também, um segurança particular, vinte e quatro horas por dia, pois a polícia, atualmente, não anda cumprindo a contento esse quesito. Quero, ainda, um carro, pois depender do transporte público anda complicado... ônibus quebrados, creio que me compreende.

Claro que sabe que, se não puder pagar tudo isso, creio que não lhe venderei meu voto.

Atenciosamente, Eleitor.

Cubo Mágico

domingo, 16 de setembro de 2012

Perdi alguns minutos dessa manhã de sexta-feira encarando no espelho um rosto que me parecia desconhecido. Barba mal feita, cabelo desajeitado, quase o aspecto de um mendigo. Eu estava perdido, outra vez. Era a mesma casa, o mesmo velho banheiro, mas eu não tinha ideia do que estava fazendo ali. Entenda: quando digo "ali", me refiro ao cotidiano que me envolvia. Já eram quase 11hrs de uma manhã nublada, procurei pelas chaves do carro, mas não me encontrei em condições de dirigir. 

Decidi caminhar ao ver a rua, a claridade. Tudo isso era estranho. Claro que via isso tudo, todos os dias. Mas hoje, parecia como se eu tivesse saído da sessão de cinema, aquelas que duram 3 horas e começam no fim de tarde. Se entra com dia claro, se sai com noite escura. E aquela noite parecia sempre mais escura. Mais estranha, mais irreal. Assim como essa claridade.


O primeiro passo. Virar de costas pra rua e trancar a porta. O tênis da caminhada ainda tinha uma prestação pra pagar ou eu já quitei? Não lembro. A rua. As pessoas. Tudo parecia vago e distante. Mais do que o habitual. Mais do que o corriqueiro. Devia ter pego os fones de ouvido... assim não precisaria sorrir falsamente e comprimentar, tão falsamente quanto sorrir, os vizinhos e conhecidos.

 Por que tudo parecia tão fora de conexão? Como se eu já não me encaixasse mais. Lembrei então de quando eu tinha aproximadamente 13 anos, uma tia me deu um "cubo mágico" que passei a levar comigo pra onde quer que eu fosse. Nunca consegui resolvê-lo, e era exatamente assim que me sentia: um cubo mágico. Indecifrável. Qualquer um poderia ter arracando meus blocos e tentado montar de suas próprias formas usando de trapaça. Afinal, eu era só um louco. Um solitário andando por uma vizinhança indiferente, sofrendo debaixo de um céu tão longe...

Uma esquina. O que me impedia de me jogar em frente desse trânsito? Olhei pra cima como se perguntasse a Deus isso. Quantas pessoas chorariam? Talvez só o dono da loja de calçados, chorando a divida do tênis que não terminou de ser paga. Ninguem mais sentiria a falta. Talvez, daqui algumas semanas, um vizinho comentasse com o outro "e que fim levou aquele cara que vagava sem rumo aqui pela rua?" ao que o outro responderia "ouvi dizer que voltou pra Minas, parece que tem parentes por lá...". E assim seria o meu fim. Malmente lembrado. Ameacei dar o fatidico passo. O sinal fechou. Sinal divino? Acreditei que era sinal divino então. Quando dei o último passo já do outro lado da rua vi algo que me lembrou uma velha amiga que tinha perdido o contato. Ela sempre me disse que, se eu não pudesse estar bem, era pra eu sobreviver a mais hoje. Apenas isso. Amanha teria de ser melhor. Suspirei acreditando nisso, mais uma vez.




Escrito por mim e pela Thata.

Caro psiquiatra,

sábado, 28 de julho de 2012


São três e meia da madrugada e acho que sofro de insônia. Tive um dia corrido, fiz coisas e meu humor alterou dentro dos limites. Limites! Sempre estive com eles e sabe, às vezes, me questiono sobre quem eu sou... Quem sou eu, doutor? Será que sou meus comprimidos de tarja preta ou eu mesma? E “eu mesma”, quem é?
Aprendi desde cedo a resolver meus problemas com receitas que consegui em consultórios. Meus pais me levavam, pagavam caro, e eu estava então feliz, (era tudo que eu precisava, conforme me diziam as vozes). A droga que a sociedade aceitou.
Ao longo do tempo sofri repressões advindas destes comprimidos. Quando eu quis extravasar, deram-me balas que me fizeram dormir. Quando quis dormir, era preciso acordar. E agora só me resta um questionamento: Quem eu sou?
Direciono-te esta carta e confesso que não tenho outro alguém a quem direcionar. Me incomoda não saber quem sou. Sinto que nunca fui verdade, as fórmulas nunca me deixaram! Nunca permitiram que eu fosse quem eu quisesse.
Doutor, a sociedade não te aceita como você é, acabei de aprender isso. Tudo ficou mais claro agora, quando troquei os comprimidos por umas doses de conhaque. Sim, não tomei nenhum remédio hoje à noite. Não quero outro tratamento, nunca entendi de fato o que diabos eu tinha, afinal. E também não quero mais saber. Acho que desisto, doutor.
Não tenho orgulho de mim. Manipulada por fórmulas, nunca soube decerto quem eu era. E não há remédio que possa me dizer. Não quero alguém dizendo quando posso sorrir ou chorar. Não quero que me digam quais são meus limites, doutor. Quero testá-los.
Para finalizar, vale acrescentar que me sinto aliviada como nunca senti antes. De certa forma consegui dizer o que há muito guardei. Quero descobrir a resposta para o meu questionamento e deixar de somente existir. Agora já são quase quatro horas da madrugada e aumentarei a intensidade do meu som. Estou intensa, quero expressar isso. Vou beber os drinks que eu quiser, dançarei e cantarei. Pularei! Irei tocar o céu hoje, doutor.
Se vizinhos se incomodarem, provavelmente dirão que alguém do 303 está em surto. Suponho que virão me buscar com camisa de força, mas duvido que me encontrem aqui. Pois retoquei a minha maquiagem, me aprontei. Vou voar, doutor. Liberdade, finalmente.

Você e o seu consultório nunca mais me verão.
Adeus!

Geovana.

Heróis também choram.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

“Pai... ah, meu pai! Eu cresci tanto, né pai? Lembra de quando eu era criança? Você me colocava sobre seus ombros e corria, como se eu estivesse a ponto de voar. Lembra de quando eu tinha seis anos? Você me ensinou a andar de bicicleta, eu dizia pra você me segurar e você me dizia pra seguir sem medo... e eu aprendi a correr sozinha. Caí algumas vezes e ainda caio, mas eu sempre levanto. De joelhos ralados, com dor, assustada com a forma bruta da queda, mas levanto.
Você fazia do meu sorriso o motivo do seu sorriso, pai, e eu sempre achei isso tão bonito! Te admirei tanto que comecei a te ver como o herói que nunca erra. Aí veio aquela senhora chamada "Vida" e me mostrou que nem sempre eu poderia te chamar. Me mostrou que, por mais largos que seus ombros fossem, eles não me aguentariam para sempre. Então tive que caminhar com o coração nas mãos e ter como conforto o silêncio de um espírito que chora.
Tive que criar "Costume" com as coisas e com as situações. Eu não gosto dessa palavra, pai! Não gosto de ter que me acostumar. Não gosto do peso que o mundo joga sobre minhas costas.
Talvez eu tenha mais de você do que imaginávamos, talvez sejamos teimosos, insistentes e trabalhosos, mas hoje tudo o que queria era um abraço seu. Eu sou assim mesmo, sou como um passarinho que precisa voar livre. Mas eu sempre volto, eu prometo, paizinho. Eu prometo.”

Carta de uma confusão

quinta-feira, 5 de julho de 2012


    Hoje o sorriso das pessoas está me ferindo de alguma forma que eu diria desconhecer. Sinto algo em meu peito que não sei descrever. Minha vida está equilibrada. Equilibrada porque se alguém a analisa, diz que tenho tudo que preciso. Eu mesma não sinto que algo falte. 
    Me desapeguei de algo que deveria desapegar, me refiz, me completei e abri meu coração à vida. Vida tal que hoje estou incapaz de sentir.
    Angústia, tão amarga... Estes sorrisos ilusivos. Por que me ferem tais, por que me machucam? A vida é efêmera, a vida por si só me fere. Não tenho medo de morrer, mas de viver, na maioria das vezes, sim.
    Futuro, existe algo mais assustador do que tu és? Porque me roubastes tantas coisas e trocastes teu nome para "Presente", trazendo-me coisas novas e que sim, por vezes até agradáveis, diga-se de passagem; mas por alguma razão obscura e melancólica, vivo apegada ao nome que tens e que habita no ontem: Passado.
   Tempo... Tão confuso. Será que ele passa ou nós passamos por ele e somente isto? Mudaram as estações, mas o que é atemporal ficou. Será que sou atemporal? Se sim, para onde é que vou depois daqui? 
    Meu espírito quer ser livre, hoje sinto as prisões do meu corpo, e meu corpo chora as repressões de uma sociedade corrompida por sistemas que há muito falharam e existem apenas para destruir pessoas com espíritos bons.
    Eu e o meu discurso incompreensível de não habitar aqui, de não entender o que se propõe e de viver a ideologia de ser livre. Embora saiba que liberdade é tão utópico quanto os sonhos mais indescritíveis que guardo em mim.

"And i know it's a wonderful world
But i can't feel it right now
Well, i thought thad i was doing well, but i just wanna cry now."
James Morrison, Wonderful World


23.06.2012
Uma tarde angustiante, qualquer e incomum.

À um lado meu que vive em outro corpo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Oi. Não sei como começar isso, rs. Sabe o que é? Tenho muito a dizer, mas não sei se tenho coragem. Olha, é raro me ver reconhecer covardia, isso mostra que estou indo longe. Talvez eu tenha chegado em um ápice de saudade e cansaço tão extremo, que comecei a me perder.

Por falar em saudade, neste exato momento, estou tentando disfarçá-la ouvindo aquela música que aprendi no piano. Lembra? Eu sei que sim. Isso sempre foi coisa minha, até eu descobrir a sua existência. Quando descobri que você existia, todas as minhas manias passaram a ser suas também. Tudo o que eu fazia pra passar o tempo agora tinha uma conotação diferente, pois trazia seu rosto à minha memória. Sem que eu percebesse, você estava presente em qualquer coisa que eu fizesse...

Como isso é possível? Como duas pessoas podem ser completamente iguais e, ao mesmo tempo, conseguirem se completar de uma forma tão perfeita? Como podem ser lados opostos sendo um único ser? E como pode uma pessoa viver em dois corpos?

Uma vez eu li isso: "Você é o brinquedo caro e eu, a criança pobre." Ainda assim, me sinto diferente agora. Consigo te ver como brinquedo caro, mas não me vejo como criança pobre, - não por mérito meu - você nunca permitiu que eu me sentisse menos do que especial. Me vejo então, como a criança que o viu na vitrine, encheu os olhos de brilho, chegou em casa e pediu dinheiro ao pai. Quando voltou à loja, porém,  era tarde. Alguém já tinha levado o brinquedo embora. Não havia previsão de quando chegaria algo parecido. E eu fui pra casa sem saber perder. Sem querer comprar outro brinquedo, querendo aquele, só aquele.

Sempre fomos honestos um com o outro. Ultimamente a vida tem tomado um rumo que nos confundiu. O que fazemos agora? Começo a ficar com medo. Decidi seguir a minha estrada. Gostaria de ter você por perto, poder trocar informações, sei que estou exposta a quedas, mas talvez você não possa me carregar agora. Tudo bem, não lhe cobrarei. Não vou chorar também, você sempre disse que eu era forte. Eu aguento. Está tudo bem. Mas vê se não se perde, tá? Mesmo de longe, seu coração ainda é igual ao meu, e o meu, igual ao seu, e sempre vai ser assim.