Respingo

sábado, 13 de setembro de 2014

Peço gentilmente que leia com atenção porque não sei se continuarei a lhe dedicar cartas.
Aviso previamente que estou aleatória, creio que meu relógio interno esteja totalmente desordenado a ponto de me tirar qualquer discernimento cronológico.

Eu passei essa madrugada marcando mentalmente as cores do céu de hora em hora até que ficasse claro. Eu tentei tomar café - inevitavelmente lembrei do seu repúdio por café - mas meu estômago não permitiu. Os comprimidos acabaram. Ocasionalmente, algumas pessoas apareciam na rua. Até a que aparentou ser mais inofensiva não me inspirou confiança, nem mesmo disposição a tentar confiar. A lembrança das suas palavras vieram e me deixaram tonta. O ambiente à minha frente ficou escuro, turvo, a luz derretia em cascata. Eu estava vivendo em plena consciência a sensação de enlouquecer. Minha pele queimava. Respirar fazia meu peito arder desgraçadamente. É assim que me sinto desde que... Você sabe. Você sabe de tudo, sabe o que fez comigo quando fez o que fez com você. Sabe no que me transformou, sabe que me lançou no inferno e me fez beijar lúcifer enquanto o mesmo transformava-se em satanás, sabe que me fez dormir no paraíso e acordar fora do meu corpo vendo-o em pedaços, sangrando. Eu acho que te perdoei, acredite. Só não queira que eu corra atrás de você feito um cãozinho que busca por uma fatia de carne. Não espere que eu te procure, que eu pergunte como está, que eu faça questão de narrar a você cada passo do meu dia porque eu não vou. Não vou. Venha você, se quiser. Se ainda importar, porque eu não acredito verdadeiramente que importe. Há tempos não importa. Há tempos é só média, é só para que eu não possa dizer que você "não tentou". Mas não tentou. Não tenta, poderia, mas não. Que seja. Odeio o quanto ainda sinto a sua falta. Odeio essa minha bipolaridade emocional extrema de precisar de você, sofrer por não estar presente na tua vida e paralelo a isso, não suportar a ideia de te procurar. Essa carta é parte do que ainda respinga dentro de mim, é parte daquilo que eu não posso explicar. Daquilo que não sai. Do motivo da minha febre constante e dos meus pesadelos infinitos. 
Se ainda quer saber algo sobre mim, posso adiantar que os meus dias não passam. Sinto-me imortal, dessa vez não é bom. A eternidade toda de sofrimento cabe dentro de um único dia e quando esse acaba, vem outro. E outro. E outro.
O tic-tac do relógio continua. Os sabiás já cantam lá fora. O silêncio da casa ainda é o mesmo e as luzes da rua continuam adentrando a janela.
Você não está aqui, não está em mim, você foi embora.
E aqui dentro, chove.

1 comentários:

Jéssica Cunha disse...

Que a primavera traga flores e agracie a chuva que ocasionalmente cairá.
MT bom.